Por uma orquestra universitária - Entrevista com Fábio Cury

A Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo não tem regente titular, mas está sob nova direção. Desde o fim de maio, o comando da Osusp está nas mãos de Fábio Cury, fagotista e professor da Universidade de São Paulo.

Ex-integrante da Osesp e da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e atualmente membro do Quinteto Zephyros, Cury é referência de qualidade em seu instrumento. No dia 4 de agosto, em apresentação agendada por sua antecessora no cargo, Lucia Carames Sartorelli, ele sola com a Osusp na Sala São Paulo, sob regência de Nicolás Pasquet. Até o fim do ano, participa ainda do II Encontro Internacional da Associação Brasileira de Palhetas Duplas, entre 24 e 28 de outubro, na Sala São Paulo, e do Festival Internacional Sesc de Música de Câmara.

Requisitado internacionalmente, ele falou à Revista CONCERTO por Skype, desde a cidade de Qingdao, na China, onde estava participando de um festival internacional de fagote.

Fábio Cury [Divulgação]
Fábio Cury [Divulgação]

Como surgiu o convite para ser diretor da Osusp?
Quando houve a troca de reitoria na USP e assumiu o professor Vahan Agopyan, a pró-reitoria de Cultura e Extensão ficou com a professora Maria Aparecida Machado, que quis alguém da ECA com ela – a professora Margarida Kunsch. Elas acharam que, não só na Osusp, mas no Cinusp e nos museus, deveria haver pessoas de áreas afins. Assim surgiu a ideia de colocar um músico à frente da Osusp, e chegaram a meu nome.

Seu concerto com a orquestra já estava programado?
Lucia Carames Sartorelli elaborou esta temporada de 2018 junto com a curadoria de Eduardo Monteiro. Eles me convidaram para fazer o concerto com um regente uruguaio, Nicolás Pasquet, que atua na Alemanha, em Weimar, e já veio ao Brasil algumas vezes. A sugestão da obra veio do próprio regente, pois Hummel foi mestre de capela em Weimar, a cidade em que trabalha. Trata-se de um concerto importante do repertório do fagote, que eu nunca toquei, então gostei da ideia de fazê-lo.

Normalmente, associamos a música de Johann Nepomuk Hummel (1778-1837) mais ao piano. Como é esse concerto para fagote?
É um concerto clássico, que lembra mais Mozart, mas já tem certa influência nos compositores do início do período do romantismo. Pensando no repertório do fagote, depois de Mozart, tem duas peças para fagote e orquestra de Carl Maria von Weber (1786-1826). Eu diria que Hummel é um compositor clássico, mas deixa antever o que vai acontecer no Weber. O concerto tem algumas passagens bastante virtuosísticas.

Quais são suas ideias para a Osusp?
A Osusp sempre teve diretores de áreas diferentes da música e sempre esteve dissociada da atividade do departamento de música. Era um órgão ligado à reitoria, que funcionava de forma independente. Minha ideia é gerar mais integração, mais conexão, especialmente com o departamento de música. Assim, quero espelhar dentro da temporada da Osusp a produção do departamento de música em suas diversas facetas. Temos lá os professores de composição, Ronaldo Miranda e Silvio Ferraz, mas também outras pessoas que compõem, como Rogério Moraes Costa, Marcos Branda Lacerda, além de gente que passou pela USP como professor, como Willy Corrêa de Oliveira, Gilberto Mendes, Aylton Escobar, Mario Ficarelli, e alunos, como André Mehmari, Marcus Siqueira, Maurício de Bonis, Valéria Bonafé e Carlos dos Santos, só para citar alguns nomes. Também temos intérpretes, professores de instrumentos que podem atuar mais como solistas. Penso muito que a Osusp tem que criar um caminho diferente do da Osesp ou do Theatro Municipal. É preciso ter um viés educativo bem mais forte. 

E em termos de repertório?
Neste ano, procuro manter o que tinha sido estabelecido por Eduardo e Lucia, mas já estou pensando na temporada que vem. Faremos obras de Claudio Santoro, cujo nascimento completa 100 anos em 2019 – não só algumas obras sinfônicas maiores, mas também bastante música de câmara. No geral, a ideia é ter muita música brasileira, dos compositores mais consagrados, como Villa-Lobos e Guarnieri, aos contemporâneos que citei. Para os concertos maiores, em alguns momentos nos uniremos com a Ocam, um projeto que estamos acalentando com muito carinho. Queremos voltar também com o projeto Osusp Academia para dar um efetivo um pouco maior à orquestra e envolver estudantes de graduação e pós-graduação. Finalmente, temos já uma parceria com o Sesc neste ano e a ideia é ampliá-la em 2019, com projetos que tenham um cunho educativo forte, que proponham novas formas de escuta e que atinjam um público diferente do que costumamos ter.

“Uma orquestra de universidade deve procurar novas formas de escuta, de repertório, integrar a música e as artes”

A orquestra vai voltar a tocar no Anfiteatro Camargo Guarnieri? Quando ele será reaberto?
Não há data fixa, mas está se falando em setembro ou outubro deste ano. Queremos manter nossa série principal de assinantes na Sala São Paulo, mas a ideia é que a orquestra tenha mais concertos e, em paralelo, que tenhamos outra série, trazendo coisas diferentes, com mais música contemporânea, mais música barroca. A Osusp não é uma orquestra grande, tem pouco mais de quarenta integrantes, e também temos essa vertente da música de câmara. Haverá uma série de música de câmara, promovendo descentralização, realizando atividades não apenas em São Paulo, mas nos diversos campi do interior. Também conversei com os músicos sobre uma série sem regente, batizada de a Osusp pela Osusp. Muita coisa do repertório de antes ou do começo do romantismo era executada sem regente. Também quero valorizar os solistas da orquestra e promover mais participação feminina. Não só fazer um grande evento pontual, como, ao longo do ano, ter mais compositoras, regentes e solistas mulheres. 

Como vai funcionar a integração com a parte educativa e pedagógica?
Vou abrir um curso de extensão para falar um pouco sobre a temporada. Nessa programação que estamos elaborando agora, queremos ter uma narrativa, bastante conexão entre os diferentes programas, e tudo com uma lógica, certo sentido. O curso falaria para esse público que quer ter um conhecimento mais aprofundado. Eu seria o responsável pelo curso, mas ele contaria com a participação de vários professores do departamento, que falariam de assuntos relacionados à temporada. Em primeiro lugar, queremos oferecer isso aos assinantes, mas também para o público de forma geral. Nesse momento, existe muito pouca coisa concreta, e minha nomeação é recente; ao mesmo tempo, achamos que a Osusp tem que ser uma orquestra diferente, uma orquestra que assuma esse caráter universitário. 

Qual deve ser o papel de uma orquestra como a Osusp em nossa vida musical?
A música erudita de maneira geral – e também a orquestra sinfônica, que é um grande ícone dentro desse universo – é uma instituição que tem um ranço conservador marcante. Só para dar um exemplo rápido: você vai a um concerto e vê os músicos trajando casaca, que é uma vestimenta típica do romantismo. Talvez haja certo desgaste em se ater a uma forma muito tradicional de ouvir e se relacionar com a música. Uma orquestra de universidade tem que ser vanguardista nisso, em procurar novas formas de escuta, de repertório, procurar integração entre a música e as outras artes, entre a música e a tecnologia.

Como será sua participação na edição deste ano do Festival Internacional de Música de Câmara do Sesc?
Estou montando um ensemble de sopros de estudantes avançados, o Aura. A gente vai tocar com o GreCo, Grupo de Pesquisa em Música da Renascença e Contemporânea, coordenado pelo César Villavicencio. Como você sabe, a música contemporânea tem muito a ver com a música antiga em sua performance historicamente inspirada. Vamos chamar a compositora Michelle Agnes, com peças novas, promovendo essa conexão íntima entre a música antiga e contemporânea. Michelle também teve várias ideias de interação com tecnologia, e vamos explorar isso.

Obrigado pela entrevista.


Clique aqui e veja os detalhes no Roteiro Musical.