Um festival em busca de aproximações musicais

por João Luiz Sampaio 27/03/2019

O Festival de Música Contemporânea Brasileira realiza até o dia 30 em Campinas a sua sexta edição, sob o comando da diretora artística Thais Nicolau. O evento tem conquistado cada vez mais espaço no cenário musical com uma proposta original. De um lado, a busca por aproximar público, academia e compositores; de outro, por trazer a cada ano dois homenageados, um do universo clássico e outro da música popular.

“Para nós, o termo contemporâneo refere-se àquilo que é feito hoje no Brasil. Então, de maneira abrangente, resolvemos combinar diferentes linguagens”, explica a pianista, idealizadora do evento, fruto de parceria entre o Instituto CPFL e a Secretaria de Cultura de Campinas, Unicamp, Instituto de Artes, Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e o Campinas e Região Convention & Visitors Bureau.

Na entrevista concedida ao Site CONCERTO, Thais Nicolau fala sobre a proposta do festival e da edição deste ano, que homenageia Ernani Aguiar e Guinga.

O festival tem propostas conceituais básicas, como a aproximação entre apresentações e a produção acadêmica e a escolha de dois homenageados, um do universo clássico e outro do popular. Como surgiu esse conceito?
Quando estava fazendo meu doutorado sobre a obra de Villani-Côrtes nos Estados Unidos comecei a pensar sobre a falta de espaço para que pudéssemos divulgar a obra de compositores brasileiros e a produção acadêmica sobre eles, a reflexão em torno de seus trabalhos. E também em como seria possível unir a reflexão sobre a linguagem composicional com a biografia do compositor e o trabalho dos intérpretes. O festival nasceu desse desejo de uma visão mais global, que acabou sendo enfatizada com a presença do compositor na programação. Muitos pesquisadores estudam determinado autor e não o conhecem pessoalmente, por exemplo. E, para o público, esse contato é enriquecedor, porque o compositor pode falar das ideias que o motivaram a escrever determinada obra, o que enriquece o processo de escuta. 

E como surgiu a ideia de ter dois homenageados, um clássico e um popular? E em que medida esses dois universos parecem se complementar na programação?
Na terceira edição, começamos a pensar sobre isso. O evento se chama Festival de Música Contemporânea Brasileira e isso leva a uma reflexão sobre o que é “contemporâneo”, termo que é bastante discutido dentro da academia. Para nós, ele refere-se àquilo que é feito hoje no Brasil. Então, de maneira abrangente, resolvemos combinar diferentes linguagens. Como você disse, há uma aproximação interessante, há similaridades nos processos de criação, na busca por traduzir em sons uma linguagem pessoal e mesmo nos resultados das pesquisas. É interessante que, nesta edição, pela primeira vez, teremos os dois homenageados juntos no palco. No concerto de encerramento, o Guinga vai tocar Senhorinha e o Ernani Aguiar vai reger.

Como se dá a escolha de homenageados? Há uma preocupação prévia em pensar em criadores cujas obras sugerem algum diálogo ou essa aproximação se dá à medida em que a programação vai se desenvolvendo?
Eu busco desde o início uma aproximação, escolher músicos e compositores que podem conversar bem, até porque eles estarão juntos no palco. Tanto o Ernani como o Guinga já estavam no nosso radar e acabamos colocando eles lado a lado. O Ernani tem uma obra vocal muito importante, o que aliás nos permitiu explorar pela primeira vez o canto coral. Da mesma forma, não dá para dissociar o Guinga de sua produção para voz também, então esse acabou sendo o fio condutor. 

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Thais Nicolau [Divulgação]
Thais Nicolau [Divulgação]

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“Vida a serviço do repertório nacional: uma conversa com Ernani Aguiar”, por Irineu Franco Perpetuo (Revista CONCERTO, edição março 2019)