Almeida Prado e a batucada no céu

por João Marcos Coelho 01/10/2018

Corre o risco de passar despercebido um dos mais importantes lançamentos de música contemporânea deste ano: o quarto e último CD que Aleyson Scopel dedica às Cartas celestes, um dos maiores monumentos pianísticos não só de José Antonio de Almeida Prado (1943-2010), mas da música brasileira em sentido absoluto.

No espaço de três anos, entre 2016 e 2018, com este CD recém-lançado, o selo Grand Piano lançou quatro gravações de Scopel cobrindo todas as Cartas celestes para piano solo – incluindo as três que Almeida Prado compôs em seu último ano de vida.

É uma maravilhosa “viagem sonora” pela magia dos céus e constelações que se veem pelo Brasil, síntese de um percurso extraordinário do compositor santista, que começou estudando com Camargo Guarnieri e adotou o discurso nacionalista, mas floresceu mesmo como fortíssima personalidade musical após seus estudos com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen em Paris – uma fertilização à francesa que o fez olhar mais para o Brasil na maturidade plena. Nas Cartas, Almeida dizia que adotou a “transtonalidade”, uma nova linguagem harmônica inclusiva.

Constelação de Touro [Reprodução]
Constelação de Touro [Reprodução]

Das 18 Cartas celestes, 15 são para piano solo. E Scopel parece o intérprete definitivo destas peças que constituem, na expressão do compositor, “uma incrível aventura”. No quarto CD, lançado há pouco no mercado internacional, Scopel registra as cartas nºs 13 e de 16 a 18. A primeira delas, nº 13, é de 2001 e retrata os corpos celestes que podem ser vistos no Brasil entre dezembro e janeiro. É a mais extensa das quatro, com mais de 22 minutos. Começa descrevendo o cometa Honda-Mrkos-Pajdusakova, luminoso prelúdio com seus trêmolos, trilos e exploração do registro agudo do piano. A constelação de Touro dá início aos acordes transtonais de Almeida Prado, criados e nomeados segundo o alfabeto grego. É, sem dúvida, um dos momentos culminantes da série.

As três últimas, todas encantadoras, levam subtítulos poéticos. Assim, a décima sexta é qualificada como “Animais mágicos”, remetendo a constelações que adotaram nomes de animais como o camaleão e a águia; a décima sétima, a mais curta das cartas, leva o subtítulo “Egito e Grécia celestes”.

Mas a carta que mais me chamou a atenção foi a derradeira, a 18ª, intitulada “O céu de Macunaíma”. Aqui Almeida Prado descreve sucessivamente a Constelação do Índio, a Nebulosa da Coruja, o Sol e a Lua, e termina com “Constelação da Ursa Maior - Macunaíma”, numa referência direta ao romance de Mário de Andrade, que no final mostra o herói sem caráter subindo aos céus e se transformando numa constelação. Este último movimento é subintitulado “Batucada – uma festa no céu”. Um maravilhoso final para este percurso tão extraordinário das Cartas celestes e também do próprio compositor, provavelmente hoje participando diariamente desta bendita batucada heterodoxa nos domínios celestes.

 

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Almeida Prado: Cartas celestes, Vol. 1

Almeida Prado: Cartas celestes, Vol. 2

Almeida Prado: Cartas celestes, Vol. 3

Almeida Prado: Cartas celestes, Vol. 4