Francesca Anderegg e Erika Ribeiro: Imagens do que o Brasil tem de melhor

“O Brazil não conhece o Brasil/O Brasil nunca foi ao Brazil”, proclama Aldir Blanc na canção Querelas do Brazil (1978), imortalizada na voz de Elis Regina (clique aqui para ver e ouvir). Pois bem, há um Brazil que conhece o Brasil – que, por sua vez, foi ao Brazil. A violinista norte-americana Francesca Anderegg e a pianista paulista Erika Ribeiro montaram um panorama delicioso da música de nosso país, intitulado Images of Brazil, e distribuído internacionalmente pela Naxos (em podcast da gravadora, elas explicam o projeto. Clique aqui para ouvir.).

Se você ainda cultiva o hábito de dar CDs de presente de Natal, minha dica para 2018 é essa. Anderegg é afinada, precisa e dona de uma técnica sólida e sonoridade agradável, com a qual o fino pianismo de Ribeiro sabe dialogar. Em torno de um repertório dos séculos XX e XXI, a jovem dupla faz uma defesa convincente daquilo que o Brasil tem a oferecer de melhor – a música (pois o que temos de pior já anda largamente noticiado pela imprensa internacional).

O Brasil/Brazil de Francesca e Erika traz música de caráter nacionalista, com tendência a diluir as fronteiras entre o “erudito” e o “popular”. A obra mais ambiciosa do disco é a Sonata nº 4, de Camargo Guarnieri (1956), de estrutura cíclica, dedicada a Mariuccia Iacovino, e já gravada várias vezes. Anderegg e Ribeiro enfrentam com brio e destemor a sofisticação da escrita guarnieriana, da angulosidade agressiva do primeiro movimento ao samba frenético do terceiro, sem deixar de entregar com lirismo o contraponto intimista do segundo (do qual podemos ouvir um trecho, abaixo, em apresentação do duo nos EUA, ao vivo, em 2017).

 

Outra realização de fôlego é O martírio dos insetos (1925), de Villa-Lobos, peça concertante e virtuosística que, contudo, funciona muito bem na versão para violino e piano. Que o Martírio não seja mais tocado e gravado por aí é um daqueles mistérios que só acontecem com a maltratada esquecida música brasileira de concerto: basta ouvir a soberba interpretação da peça no disco da Naxos e querer que seja urgentemente programada essa criação tão típica do melhor período da produção de Villa-Lobos, os frementes anos 1920.

O resto do disco é constituído de miniaturas – tratadas não como peças “menores”, mas como joias dignas de serem lapidadas. Temos, assim, as Três peças para violino e piano de Guerra-Peixe, bem como as Melorritmias nº 4, para violino solo, de seu discípulo Ernani Aguiar, além de obras na fronteira entre o “erudito” e o “popular”, refletindo o trânsito entre essas áreas que vem sido realizado com desenvoltura por Ribeiro nos últimos anos.

Francesca Anderegg e Erika Ribeiro [Divulgação]
Francesca Anderegg e Erika Ribeiro [Divulgação]

Professora de piano e música de câmara na UniRio, onde é ainda chefe do Departamento de Piano e Cordas, Erika pertence à mesma brilhante geração de pupilos de Eduardo Monteiro que deu ao mundo talentos indiscutíveis como Cristian Budu e Leonardo Hilsdorf.

Com um toque refinado que revela as melhores sutilezas do classicismo vienense (Mozart e Beethoven) e do pianismo parisiense do começo do século (Ravel), ela se aproximou gradualmente da música popular brasileira de invenção, e traz esse senso de estilo para Águas claras, de Villani-Côrtes, Flor da noite, de Radamés Gnattali, e três peças da paulista Léa Freire, nome conhecido de quem acompanha a música instrumental brasileira, com a qual Ribeiro vem trabalhando há algum tempo. No melhor sentido da música de câmara, Francesca ouviu, absorveu e rapidamente introjetou as dicas de estilo de sua parceira brasileira, tocando de forma idiomática, e com verve. Tomara que haja um Images of Brazil 2!

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