O Prokófiev incandescente de Yuja Wang

Um rastro de fogo percorreu a Sala São Paulo na última terça-feira, dia 2. Assim como ocorrera em sua passagem pela cidade em 2011, o pianismo incandescente da chinesa Yuja Wang, 31, galvanizou o público que superlotava a Sala, ocupando inclusive as várias cadeiras extras colocadas no palco, bem perto da exuberante artista.

Ao que parece, não demorou mais do que meia hora para que os ingressos colocados à venda pela Sociedade de Cultura Artística esgotassem. O peculiar bloco de abertura de seu recital (Prelúdio op. 23 nº 5 e Vocalise, de Rachmaninov, uma das Canções sem Palavras, de Mendelssohn, e uma transcrição de Tchaikóvski) serviu basicamente para habituar a plateia à sonoridade rica e generosa de Wang, bem como ao acabamento cuidadoso das frases.

O grande item da primeira parte do programa era a Sonata nº 3, de Chopin, tocada de forma bem pessoal. Tão pessoal que, na verdade, devo confessar não ter conseguido me comunicar de imediato com a leitura de Wang da peça. Estranhei bastante suas escolhas ao longo do primeiro movimento, e só gradualmente fui me acostumando à peculiar concepção da pianista. Pode ser, simplesmente, limitação de entendimento do crítico, mas a impressão final foi de um Chopin belo, sim, mas não exatamente memorável.

A virada no placar veio depois do intervalo, quando Wang resolveu encarar um compositor com o qual parece se identificar profundamente: Prokófiev. Quem viu suas apresentações por aqui há sete anos não tem como se esquecer da química incrível entre ela e o regente Kristjan Järvi no Concerto nº 3 do compositor russo, bem como de sua leitura feroz da Sonata nº 6, que ela agora revisitou.

Essa obra abre o que os russos chamam de Tríade de Sonatas de Prokófiev – as demais são as de 7 e 8. Embora concluídas gradualmente, ao longo dos anos, elas foram concebidas ao mesmo tempo, o que lhes confere certa unidade técnica e anímica. No Ocidente, são conhecidas como Sonatas de Guerra, determinação algo imprecisa, já que a Sexta foi iniciada em 1939 e estreada em fevereiro de 1940 – antes, portanto, da invasão nazista da União Soviética, que só ocorreu em 1941.

Yuja Wang [Divulgação / Heloisa Bortz]
Yuja Wang [Divulgação / Heloisa Bortz]

Nessa época, de qualquer forma, a URSS estava em conflito com a Finlândia. E talvez não seja exagero definir a sociedade stalinista como em estado permanente de guerra. O páthos da obra é de luta e superação, o que, em um autor consumado de óperas e balés, reflete-se em linguagem radicalmente teatralizada: personagens da trama dessa ópera sem palavras, os temas parecem se entrechocar, em episódios de tragédia e ironia, antes do final triunfante. Profundo conhecedor do piano, que abordava com forte ênfase em seus aspectos percussivos, Prokófiev burla as normas do realismo socialista ao envelopar, em um formato cíclico de sonata bastante tradicional, agressividades harmônicas e complexidades rítmicas – algo que, naquela época, talvez só fosse possível em um gênero “privado” como a sonata para piano, e não em obras “públicas” como sinfonias, bailados e óperas.

Muito mais instrutivo, contudo, do que ouvir qualquer descrição prolixa e forçosamente incompleta da sonata de Prokófiev é ouvi-la na execução de Yuja Wang. Artista consumada, ela comanda um repertório aparentemente inesgotável de ataques, toques e coloridos para caracterizar não apenas cada movimento ou seção, mas cada nuance dessa multifacetada obra-prima do século XX. Como se uma única atriz, em monólogo, conseguisse dar voz a todos os personagens de uma peça teatral complexa, em vários atos. Sim, o virtusismo de Wang é superlativo – mas, em vez de exibicionismo vazio, ele ganha a fisionomia de fazer musical elevado ao estar a serviço de uma concepção profunda e amadurecida, como ocorreu na sonata de Prokófiev.

E quem queria as proezas acrobáticas da ginasta chinesa do piano foi plenamente recompensado durante os bis. Parece haver um pacto não-escrito nos recitais de Yuja Wang: enquanto ela não toca sua versão anabolizada da Marcha Turca, de Mozart, tudo é possível. Assim, lendo partitura em tablet ou em papel, em uma velocidade desconcertante mesmo para os viradores de páginas escalados para ajudá-la, a seleção foi variada: a fusão de jazz e Rachmaninov do russo Nikolai Kapústin, a versão de Liszt do lied Gretchen am Spinnrade, de Schubert, as variações de Horowitz sobre tema da Carmen, de Bizet, e até o Danzón nº 2, do mexicano Arturo Márquez, em inusitada releitura pianística. Vale salientar, contudo, que, diferentemente de outras “virtuoses” que andaram aparecendo por aqui, Yuja não sacrifica a musicalidade ao domínio técnico: as peças são exibicionistas, mas ela jamais deixa escapar o sentido do fraseado, ou sacrificar a beleza do som. Podem me chamar de brega, mas aplaudi sem reservas...

Para quem via, o exercício de Wang ao teclado poderia parecer estafante, mas, para quem tocava, aparentemente não era: consta que, após o recital, Yuja ainda manifestou o desejo de experimentar as pistas de dança paulistanas. Que continue cheia de energia por muitos anos!

 

Clique aqui para ver detalhes das apresentações que Yuja Wang faz dia 4 de outubro no Rio de Janeiro e dia 6 em Curitiba.