A música perde Cecília Conde

por Luciana Medeiros 12/09/2018

O Conservatório Brasileiro de Música, fundado em 1936, ocupa dois andares de um edifício de escritórios na Rua Graça Aranha, Centro do Rio de Janeiro. Nesse ambiente de salas de aula e ensaio, a carioca Cecília Conde estudou canto e piano e passou a maior parte de sua vida. Educadora por excelência, faleceu aos 86 anos nessa terça-feira, dia 11 de setembro.

Cecilia era filha e sobrinha de fundadores da instituição, respectivamente da cantora Amália Fernandez Conde e do compositor Oscar Lorenzo Fernandez. Saiu do comando do CBM há poucos anos, quando a instituição mudou de mãos. Criadora do curso de Musicologia e da pós-graduação no Conservatório, também foi compositora de “ambientações cênicas” em tempos de teatro de vanguarda. Escreveu, nas décadas de 1960 e 1970, trilha para dezenas de espetáculos teatrais e cinco filmes. Das peças, começou pelos infantis de Ilo Krugli e fez a música de montagens marcantes do Teatro Ipanema, como O Arquiteto e o Imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, dirigido por Ivan de Albuquerque, 1970; Hoje É Dia de Rock, de José Vicente, 1971, e A China é Azul, de José Wilker.

Irmã do ex-prefeito do Rio Luiz Paulo Conde, Cecília participou intensamente da vida musical do país em muitas ações institucionais, conselhos e consultorias. Na rede social, o compositor Ronaldo Miranda pontua: “Cecília devotou sua vida à música. Além do talento próprio – como pesquisadora, educadora e compositora – Cecília se destacou por sua enorme capacidade de ter ajudado – ao longo de sua vida – uma plêiade de músicos brasileiros, entre os quais me incluo”.

Ela ocupava a cadeira n° 3 da Academia Brasileira de Música, que havia sido de Bidu Sayão. O presidente da ABM, João Guilherme Ripper, também ressaltou a capacidade formadora de Cecília: “Grande incentivadora de carreiras, e me incluo nisso. Também foi quem me proporcionou a chance de um trabalho de longo prazo na Sala Cecília Meireles ao aconselhar ao irmão, então Secretário de Cultura, que me mantivesse no posto em 2007”.

Em entrevista ao Projeto Tear, ela lembra a luta pela educação musical nas escolas e entrelaça com firmeza arte e educação, retrato de sua própria ação: “A educação desvinculada da arte não marca, não dá o insight. A arte permite você estar aberto a outras formas de pensar e de sentir. Você trabalha com a inteligência sensível, isso é fundamental na educação. (...) Não é só lazer e entretenimento. Ela é realmente a vida. A arte é você estar respirando”.

Cecília Conde, que estava hospitalizada para uma intervenção ortopédica, teve uma parada cardiorrespiratória na noite de terça. O velório acontece na Sala Cecília Meireles, sexta, dia 14, das 10h às 14h, seguido pelo sepultamento no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Cecília Conde [foto: Acervo de família]
Cecília Conde [foto: Acervo de família]