‘Alma’, de Claudio Santoro: em Manaus, a ópera de um compositor maior

por Jorge Coli 04/06/2019

Sobre apresentação da ópera Alma, de Claudio Santoro, no XXII Festival Amazonas de Ópera, em Manaus, começo saudando a fenomenal interpretação de Denise de Freitas. O papel é tremendo, tanto de um ponto de vista dramático quanto musical: Alma é moça de família, nos anos de 1920, subjugada pela obsessão erótico-masoquista que ela fixa em um cáften. Denise de Freitas tem voz poderosa, timbre luminoso e homogêneo de grande cantora internacional. Sua força dramática, arrebatadora como sua voz, tomou conta do teatro. Denise de Freitas foi talhada para papéis desse calibre.

Uma intérprete ideal, portanto, associada a uma orquestra excelente, a Amazonas Filarmônica, e ao ótimo Coral do Amazonas, sob a batuta de Marcelo de Jesus, com grande, bela sonoridade e força expressiva. Espetáculo de nível portanto muito alto, ao qual se associava a concepção leve, elegante, um pouco fria, dos cenários concebidos por Georgia Massetani para a direção cênica de Julianna Santos. A montagem dessa obra não é nada fácil já que, seguindo o modelo do romance escrito por Oswald de Andrade, ela é fragmentada em momentos e ambientes muito diferentes. Esse problema foi hábil e eficazmente resolvido. Talvez fosse possível imaginar algo um pouco menos friamente clínico, mais humano e sórdido, por assim dizer. Não importa, porém, o que conta é o funcionamento dramático, que avançou, implacável e sem tropeços, até o final.

O papel masculino mais relevante é o de João do Carmo, o amante romântico e rejeitado. Ele possui, creio, uma grandeza maior do que no romance de Oswald de Andrade, graças à música que amplia sua sujeição patológica à urgência amorosa que o corrói.

Denise de Freitas em cena de 'Alma', de Claudio Santoro [Divulgação/Michael Dantas]
Denise de Freitas em cena de 'Alma', de Claudio Santoro [Divulgação/Michael Dantas]

João do Carmo foi interpretado pelo tenor Juremir Vieira. A voz é incerta, atingida por um vibrato acentuado, e a presença cênica não teve grande caráter e nem atingiu a presença que o personagem exigia. Mas o intérprete sustentou a partitura e não comprometeu o espetáculo: nos seus limites, deu conta do recado, como se diz.

Lucas, o avô, foi cantado por Emanuel Conde, amazonense que integra o Coral do Amazonas e que pôde demonstrar seus convincentes talentos como solista. Não enumero os outros cantores, que são muitos. Todos demonstraram belas qualidades de desempenho. Assinalo apenas o conhecido barítono Homero Velho, que tinha bem poucas frases, mas que soube marcar o espetáculo com sua atuação no papel de Mauro, o cáften sem escrúpulos.

Claudio Santoro é um compositor maior, com verdadeiro gênio criador. Suas qualidades excepcionais o projetaram no cenário internacional. No pós-guerra foi aluno de Nadia Boulanger e de Eugène Bigot graças à generosidade do governo francês (seu visto para os Estados Unidos fora recusado por razões políticas e ele não pode usufruir da bolsa que lhe foi oferecida pela Fundação Guggenheim). Exilado em 1965 na França e na Alemanha, atingiu ali um apogeu criador que lhe deu grande projeção.

É injusto que seja tão pouco programado em nossas salas de concerto. Alma foi sua única ópera e teve, agora, sua segunda produção – a estreia também foi em Manaus, há mais de 20 anos. Deveria incorporar o repertório dos teatros de modo definitivo: esperemos que a redescoberta manauara induza a novas apresentações por todo o Brasil. Acrescento que o romance de Oswald de Andrade e sua transposição como ópera são paulistanos. Seria uma obrigação para o Theatro Municipal de São Paulo trazê-la de Manaus, prontinha como está.

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Cena de 'Alma', de Claudio Santoro, no Festival Amazonas de Ópera [Divulgação/Michael Dantas]
Cena de 'Alma', de Claudio Santoro, no Festival Amazonas de Ópera [Divulgação/Michael Dantas]

[Jorge Coli viajou a Manaus a convite do Festival Amazonas de Ópera]