Futuros do passado – um convite à reflexão

por Camila Frésca 04/12/2018

O mote “Futuros do passado”, que a Osesp escolheu para sua próxima temporada, não poderia ser mais oportuno. 2019 parece ser um ano de inflexão (e reflexão) para nossa mais importante orquestra. Algumas datas redondas e um acontecimento-chave se desenrolam nesse ano.

A efeméride mais imponente é a dos 50 anos do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Ao ser criado, em 1970, o Festival tinha à frente o compositor Camargo Guarnieri. Em 1973, no entanto, a chegada de Eleazar de Carvalho à direção artística daria a ele a estrutura que o caracteriza até hoje: a mescla entre cursos e concertos. Este modelo, chamado por Eleazar de “festa e aprendizado” e inspirado em Tanglewood, acabou disseminando-se pelo país. Durante décadas, o Festival foi um espaço imprescindível para o aprimoramento dos músicos brasileiros. Nos últimos anos, asfixiado pela diminuição expressiva de seu orçamento, o evento luta para manter-se fiel à sua vocação original de aprendizado e difusão musical.

O Festival de Campos do Jordão não é ligado à Osesp apenas por estar sob administração da Fundação Osesp nos últimos anos. Na verdade, a própria existência da orquestra deve muito ao evento. Criada em 1954, a Osesp encontrava-se praticamente desativada em 1973, quando passou por sua primeira reformulação. Eleazar de Carvalho, que voltava dos EUA para assumir o Festival, sabia que o modelo imaginado por ele só funcionaria se houvesse uma boa orquestra ligada diretamente ao evento, e acabou sendo a força motriz por trás da primeira reformulação da orquestra, no mesmo ano de 1973.

Quando Eleazar de Carvalho faleceu, a Osesp sofreu outra profunda reformulação, que a levou aos patamares atuais. John Neschling foi o condutor dessa nova mudança, e permaneceu como regente titular e diretor artístico do grupo de 1997 a 2008. O diretor executivo da Fundação Osesp, Marcelo Lopes, no livreto que apresenta a temporada do ano que vem, reconhece a importância desses momentos: “Antes de celebrarmos as efemérides de 2019, a melhor medida de justiça é a lembrança das pessoas que fizeram parte dessa história e que até hoje nos inspiram com seus legados. A Osesp até hoje contou com brasileiros que tiveram a grandeza de preservar o que tinham em mãos e semear o futuro, simultaneamente. Na área musical, Eleazar de Carvalho e John Neschling foram fundamentais. No desenvolvimento do projeto, tivemos os visionários Mário Covas e Marcos Mendonça.”

Depois de Neschling, foram titulares Yan-Pascal Tortelier (2009-11) e Marin Alsop (2012-19). E aí chegamos ao momento-chave anunciado no início: 2019 marca o último ano de Alsop à frente da orquestra. A escolha de um novo regente é um fator crucial a determinar os rumos artísticos dos próximos anos. Especulações têm sido feitas: o nicaraguense Giancarlo Guerrero, que tem colaborado com frequência com o grupo? A francesa Nathalie Stutzmann, artista associada da Osesp entre 2015 e 2018 (e com quem a orquestra sempre parece satisfeita e inspirada)? A escolha de um regente brasileiro parece pouco provável e é algo em que ninguém aposta.

Osesp [Divulgação / Fabio Furtado]
Osesp [Divulgação / Fabio Furtado]

Voltando às efemérides, a Sala São Paulo completa 20 anos. Foi peça fundamental da segunda reformulação da orquestra. Se sua inauguração, em 1999, contribuiu de forma decisiva para o aprimoramento técnico e artístico do grupo, seu papel na vida musical da cidade, hoje, vai muito além da Osesp. A Sala é onde praticamente todos os grandes concertos sinfônicos nacionais e internacionais acontecem (à exceção dos corpos estáveis do Teatro Municipal, que contam com sua própria casa). As atividades diárias realizadas ali incluem ainda cursos livres, aulas de música, visitas, ensaios, música de câmara. Suas qualidades arquitetônicas e acústicas são reconhecidas internacionalmente.

O ano de 2019 marca, ainda, a décima temporada com Arthur Nestrovski à frente da direção artística, e talvez seu maior legado até o momento, além de dar continuidade ao vitorioso projeto, seja a condução da monumental gravação e revisão das sinfonias de Villa-Lobos, concluídas neste ano. 2019 lança um outro desafio nesse sentido: o início da gravação dos Choros e outras obras orquestrais de Camargo Guarnieri (de quem a orquestra já gravou as seis sinfonias). Esta iniciativa desenrola-se dentro de um projeto maior, capitaneado pelo Itamaraty, que envolve diversas orquestras brasileiras e que reservou à Osesp a gravação de 10 discos com compositores brasileiros. Isso sem mencionar outros projetos discográficos importantes, como o Selo Digital Osesp ou as parcerias internacionais, que seriam tema para um ouro artigo.

Falamos “Osesp” sem nos dar conta de que, na realidade, a sigla engloba muito mais do que a orquestra sinfônica – sem dúvida sua face mais reluzente. Mas ao seu entorno existem outros corpos artísticos: Coro da Osesp, Coro Infantil, Coro Juvenil, Coro Acadêmico, Quarteto Osesp e as atividades da Academia Osesp. Se incluirmos, ainda, os grupos formados durante o Festival de Campos do Jordão, temos a Orquestra do Festival, a Camerata do Festival e o Grupo de Música Antiga do Festival.

Especificamente sobre o ponto de vista da programação, a temporada 2019 segue o padrão dos últimos anos, com o mesmo nível de riqueza e variedade. Para citar alguns destaques, há a presença de Paulo Szot como artista em residência; A paixão segundo São Mateus sob direção de Nathalie Stutzmann; os 80 anos de Marlos Nobre, comemorados com a estreia de um concerto para violoncelo, com Antonio Meneses e Giancarlo Guerrero, integrando um consórcio bem-vindo e inédito entre a Osesp, Filarmônica de Minas Gerais, Filarmônica de Goiás, Petrobras Sinfônica e a portuguesa Fundação Gulbenkian, no âmbito do projeto SP-LX_Nova Música do Brasil e de Portugal. Encomendas de obras também foram feitas a Felipe Lara, Flo Menezes, Arrigo Barnabé e Januibe Tejera.

Além disso, o ciclo Mahler será concluído por Marin Alsop com a quarta e a oitava (“Sinfonia dos mil”) sinfonias; ouviremos a integral das sinfonias de Schumann reorquestradas por Mahler, em abril e maio; e o chinês Huang Huo será o compositor visitante, por uma semana, em outubro. O projeto do Itamaraty se desdobrará em três concertos gratuitos (nos moldes do Festival Villa Villa! deste ano) na pré-temporada, de 14 a 16 de março, com Karabtchevsky. Haverá um total de 107 concertos sinfônicos, além de recitais de câmara e do Coro da Osesp.

Todas essas comemorações, continuações e redefinições terão de ser levadas adiante num contexto de extrema incerteza política e econômica. Também no livreto da temporada, Arthur Nestrovski resume a responsabilidade desse momento: “O mínimo que se pode dizer, conhecendo nossa história, é que tudo o que se passou, tanta coisa que se sabe hoje tão significativa, poderia muito bem nem ter acontecido. Neste contexto, em especial face às dificuldades do momento, no Brasil e ao redor do mundo, o papel que nos cabe, antes de mais nada, é garantir que o futuro não seja menor do que o passado.”