Isabelle Faust, Sennett e a música como modelo de sobrevivência nestes tempos difíceis

por João Marcos Coelho 31/10/2018

Tenho ouvido bastante, nas últimas semanas, uma gravação recente do monumental Octeto de Franz Schubert. É uma obra-farol, que expõe cada um dos músicos que a interpretam a um ato de cooperação dialógica (explico adiante). Ou seja, todos são obrigados a se ouvirem mutuamente. Só assim a música flui de fato. São seis movimentos, uma hora de duração, obra encomendada por um conde, que era clarinetista e participou da primeira execução, em seu salão. Ele fez uma recomendação ao compositor: deveria ser música que respirasse o espírito do Septeto de Beethoven, muito apreciado e conhecido na Viena dos anos 1820 (a composição de Schubert data de 1824, quatro anos antes de sua morte).

Há muitos registros do Octeto, mas um, recentíssimo, ensinou-me pela primeira vez o que significa verdadeiramente a prática da música camerística. Aqui combinam-se dois grupos. O dos sopros, com clarinete, fagote e trompa; e as cordas, com dois violinos, viola, violoncelo e contrabaixo. O registro da Harmonia Mundi francesa foi lançado em maio deste ano. A fabulosa violinista Isabelle Faust cerca-se de vários músicos de exceção: Anne Katharina, também ao violino; Danusha Waskiewicz à viola; Kristin von der Goltz ao violoncelo; Javier Zafra ao fagote, Teunis van der Zwart à trompa e o italiano Lorenzo Coppola ao clarinete.

Nestes tempos em que o diálogo parece não existir em todos os domínios da vida brasileira, é um bálsamo ver que uma obra-prima como esta gera uma interpretação tão diferenciada. Nestes raros momentos, fica claro por que a música não deve jamais ser vista como descartável ou acessória. Ela é, sim, fundamental em nossas vidas. Pelo que nos ensina a respeito do modo como devemos conviver entre nós, respeitando as diferenças, dando voz a quem quer falar.

Peço perdão para citar novamente – já fiz isso em muitos textos ao longo dos anos –  o livro Juntos (Editora Records, 2012), do sociólogo Richard Sennett, que na juventude foi violoncelista e aplica com rara felicidade sua experiência como músico às reflexões sobre a relação entre as pessoas. Ele diz que “a cooperação está embutida em nossos genes, mas não pode ficar presa a comportamentos rotineiros; precisa desenvolver e ser aprofundada, o que se aplica particularmente quando lidamos com pessoas diferentes de nós; com elas, a cooperação torna-se um grande esforço”. A certa altura deste livro precioso, mostra como a prática da música de câmara pode ser matriz de uma efetiva cooperação entre diferentes. Somos criados na tradição de uma comunicação dialética, onde um tenta convencer o outro, e uma vez obtido o consenso, esquecem-se as diferenças e as variantes, seguindo em frente apenas o discurso vencedor.

Isabelle Faust [Divulgação / Feliz Broede]
Isabelle Faust [Divulgação / Feliz Broede]

Sennett recorre ao russo Mikhail Baktin para afirmar que precisamos praticar outro tipo de comunicação: a comunicação dialógica, onde não só as palavras escritas ou faladas importam, mas a entonação, o modo como são pronunciadas – e o que está nas entrelinhas. Só assim percebemos a ironia ou a aprovação, e mesmo restrições do outro. Isto é, o corpo exibe posturas que são reveladoras; como a conversa dialética as põe de lado, há um empobrecimento do pensamento.

Pense nisso: “A sociedade moderna está produzindo um novo tipo de caráter. É o tipo de pessoa empenhada em reduzir ansiedades provocadas pelas diferenças, sejam de natureza política, racial, religiosa, étnica ou erótica. O objetivo da pessoa é evitar qualquer sobressalto, sentir-se o menos estimulada possível por diferenças profundas”.

Como quebrar este perverso paradigma? Ouvindo bem o outro. “Ouvir bem exige outro conjunto de habilidades, a capacidade de atentar de perto para o que os outros dizem e interpretar antes de responder, conferindo sentido aos gestos e silêncios, tanto quanto às declarações”.

Os ensaios são a base da atividade musical: a capacidade de ouvir adquire importância vital e, ao ouvir bem, o músico se torna uma pessoa mais cooperativa. É o que Isabelle Faust leva seus sete parceiros no Octeto a realizarem esplendidamente nesta gravação. Ela jamais toma a dianteira, aqui não há nenhuma diva, ninguém se sobressai; ao contrário, todos se ouvem e o resultado é arrebatador. Em música de câmara – como na vida, aliás – não basta saber de cor e perfeitamente o que se deve tocar. É fundamental interagir com os outros, de modo a enriquecer-se como pessoa, em todos os sentidos. No caso dos músicos é enriquecer-se e a seus parceiros no palco e também aos que os ouvem.

Mas atenção, adverte Sennett: a homogeneidade pura e simples não é o que se busca na música feita em conjunto – como na vida –, pois o resultado seria muito monótono. Agora cito: “A força e o temperamento da música manifestam-se através de pequenos dramas de deferência e afirmação: na música de câmara, em especial, precisamos ouvir os indivíduos falando com vozes diferentes que às vezes entram em conflito”. É isso aí. As falas são necessariamente diferentes. Mas ninguém precisa eliminar seu oponente. A convivência dos contrários é a essência da vida em grupo. Afinal, da própria democracia, que, imagino, ainda temos neste país.

Bem, por que, ouvindo o Octeto, lembrei-me de Sennett? É porque, como violoncelista jovem, ele ensaiou esta peça e a utiliza como modelo dessa comunicação dialógica: “A conversa dos músicos durante os ensaios procura imaginar os sons ouvidos pelo compositor ao lançar as notas na pauta. No Octeto de Schubert, por exemplo, o compositor reduz a fragmentos as melodias inicialmente compartilhadas pelos oito instrumentos. É perfeitamente sutil: ocorrendo uma pausa, cada músico deve transmitir algo parecido com ‘aqui eu vou saltar do trem’, sem fazer grande caso da própria despedida. É a vontade de Schubert tal como a imagino. Mas só posso justificá-lo interagindo com os demais instrumentos, vendo o meu som a se unir com o deles para em seguida divergir”.

A pá de cal: a comunicação pelas redes sociais empobrece esta rica troca que existe na comunicação dialógica, alerta Sennett. Que tal a troca de ideias frente a frente, em torno de uma mesa de café? Que tal multiplicarmos o máximo possível a frequência a concertos, sobretudo camerísticos, onde esta comunicação dialógica sem palavras acontece diante de nós, magicamente?

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