Marília Vargas e André Mehmari reinventam Villa-Lobos

Há apresentações de voz e piano em que o solista vocal fica decididamente em primeiro plano, realizando contorcionismos a seu bel-prazer, e deixando ao tecladista a função de se adequar a seus humores, submeter-se a seus caprichos e jamais assumir, momentaneamente que seja, qualquer tipo de protagonismo. E há aquelas em que se faz música de câmara, funcionando como um autêntico duo, de escuta mútua e fazer musical conjunto.

A soprano Marília Vargas e o pianista André Mehmari, decididamente, formam uma parceria musical desse segundo tipo. Já gravaram Engenho Novo, um CD que teve menos atenção e repercussão do que mereceria, e, no último sábado, dia 10, no Sesc Vila Mariana, em uma apresentação completamente dedicada a Villa-Lobos, demonstraram os suculentos frutos de uma cumplicidade artística amadurecida e prazerosa.

Mehmari é um multi-instrumentista exuberante, cuja musicalidade tem o saudável hábito de levar de roldão as barreiras entre gêneros que ousarem se apresentar à sua frente. Do cravo barroco e renascentista à improvisação “popular” de recorte jazzístico, passando por música de concerto rigorosamente escrita, tudo parece ser digerido por seu apetite pantagruélico, e devolvido com uma originalidade que não deixa de surpreender mesmo quem acompanha sua trajetória de perto há duas décadas.

Seus trabalhos em duo vão desde músicos populares como Monica Salmaso e Hamilton de Holanda até um “monstro sagrado” da música erudita como Antonio Meneses, sempre respeitando as características peculiares de cada parceiro e dialogando musicalmente com eles. Em Villa-Lobos, Mehmari usou sua fértil imaginação de improvisador para tecer teias intertextuais, resgatar as influências do nosso compositor máximo e colocá-lo em diálogo com a contemporaneidade, sempre com bom humor oportuno e bom gosto certeiro. Dessa vez, achei especialmente instigante o “toma lá, dá cá” entre duas das mais comoventes criações villa-lobianas, a Melodia Sentimental e a Ária das Bachianas Brasileiras nº 5, com trechos de uma subitamente aflorando dentro da outra.

Marília Vargas e André Mehmari [Divulgação]
Marília Vargas e André Mehmari [Divulgação]

E Marília Vargas, com justiça reconhecida como paradigma vocal de excelência na interpretação “historicamente informada” da música do século XVIII (basta ver a aclamação em torno do seu desempenho como protagonista da ópera Alcina, de Händel, no Teatro São Pedro, em junho deste ano), na verdade possui gostos e habilidades que transcendem em muito o “nicho” em que se especializou. Basta dar uma breve olhada em sua discografia, que contém não apenas Viagem Infinita, um álbum com o piano e clarinete bastante “modernos” de Clenice Ortigara e Jairo Wilkens, como Paisagens da China, uma leitura colorida e inspirada do repertório tradicional do país do Oriente, com instrumentos étnicos.

Não deve ser muito simples, para alguém acostumada a ser acompanhada por músicos que sempre seguem uma partitura escrita e pré-determinada, ter que interagir com um parceiro que segue a inspiração do momento, e se sai com soluções inesperadas. Mas Marília pareceu antes inspirada do que atemorizada pelo desafio. Para além das qualidades técnicas e do colorido vocal, o que ela traz a Villa-Lobos é uma relação bastante direta para com o texto. Não se trata apenas de articular o português cantado com clareza (coisa que sopranos podem, sim, fazer, sem abrir mão da impostação lírica), mas de prestar atenção em seu significado, e deixar que seus afetos informem e influenciem a interpretação. Cada item virou como que uma pequena ária, uma cena lírica infundida de teatralidade, cujo momento culminante talvez tenha sido a Canção do poeta do século XVIII, com direito até a deliciosas inflexões “tangueiras”.

Claro que a leitura “heterodoxa” do duo Mehmari/Vargas não exclui interpretações mais “literais” das obras de Villa-Lobos. A grandeza de nosso maior compositor é justamente ter uma obra rica, que se abre às mais diversas recriações. E não houve como não sair revigorado, animado, estimulado e enriquecido da apresentação de André e Marília. Esse duo deve e merece circular pelo Brasil, revelando-nos uma música que é nossa e, contudo, não conhecemos o suficiente.