A música contemporânea e as tragédias que nos assolam

por João Marcos Coelho 08/03/2019

Um CD recém-lançado no mercado internacional e disponível nas plataformas digitais me fez pensar em como era importante – importante não, fundamental mesmo – termos a genialidade de Gilberto Mendes entre nós. Ele se foi há três anos, no 1º de janeiro de 2016. Mas de vez em quando seu espírito guerreiro retorna. Gilberto jamais se omitiu; ao contrário, criava música no calor da hora.

Quando aconteceu, três anos atrás, a primeira das tragédias causadas por rompimento de barragem, em Mariana, matando 19 pessoas e desalojando milhares naquela linda cidade colonial mineira, e agora mesmo, com a morte de 170 pessoas e outro tanto de desaparecidos com o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, também senti falta, muita falta de termos um compositor antenado como Gilberto Mendes.

Vou por partes. Primeiro, convido você a ler atentamente este texto escrito por Gilberto em 1990 a respeito de sua peça coral “Vila Socó, meu amor”, motivado pela morte de 93 pessoas num incêndio que começou numa incrível explosão na favela de Vila Socó, em Cubatão:

“Não devemos esquecer os nossos irmãos da Vila Socó, transformados em cinzas, lixo em pó. A tragédia da Vila Socó mostra como o trabalhador é explorado, esmagado sem nenhum dó.

Espanta-me a atualidade dessa constatação que fiz, já quase sete anos passados, ao escrever o texto para minha pequena peça coral ‘Vila Socó meu amor’. Nada mudou. Na verdade, até que mudou, para pior!

Nunca o trabalhador foi tão explorado, tão enganado, sob o tacão do medieval Senhor dos impostos, agora talvez com o consolo de não estar só, ter por companheiros de infortúnio a classe média, os aposentados em geral. A classe dirigente, numa boa, não abre mão de nada, o povo que faça os sacrifícios impostos pelos planos econômicos ‘salvadores’.

Com minha música, pretendi ter feito alguma coisa in memoriam dos mortos por aquela verdadeira bomba de Hiroshima que foi a explosão da Vila Socó. Por isso a lembrança, no título, de Alain Resnais [‘Hiroshima mon amour’], da imensa piedade pelo destino dos homens, que seu extraordinário filme comunica”.

Catarina Domenici [Divulgação]
Catarina Domenici [Divulgação]

Vivo fosse, com certeza Gilberto escreveria uma peça-denúncia sobre a tragédia de Brumadinho. Ele fez isso várias vezes, sempre que se sentia convocado a interagir com a realidade que o rodeava, falando-nos diretamente a nossos corações e mentes, tirando-nos da letargia com a qual nós acostumamos a receber tragédias em cima de tragédias praticamente sem reação.

Bem, depois de chorar a falta que Gilberto Mendes nos faz, volto ao CD que me fez lembrar dele. Intitula-se “Homage”, e traz a soprano Susie Georgiadis, gaúcha radicada na Itália, interpretando vinte canções, todas compostas por mulheres. É como uma pizza meio-a-meio, metade com compositoras italianas praticamente desconhecidas, que o cânone da história da música recalcou; e outro tanto de compositoras brasileiras.

O que me impressionou mesmo, porém, foi a inclusão de duas canções em primeira gravação mundial da compositora gaúcha Catarina Domenici. Ambas são impactantes. 

A primeira, “Healing – Lullaby for my younger self”, sobre versos em inglês da própria Catarina, levou 19 anos para ser composta nesta forma final. “É uma canção de ninar para o seu eu mais jovem ferido; a obra capta a condição dissociativa que crianças sexualmente abusadas vivenciam como um mecanismo de defesa; como que congelado no tempo, imerso numa névoa de animação suspensa, o ‘eu’ jovem mergulha em um estado traumático que necessita dos cuidados do ‘eu’ mais velho para se curar”, escreve Cristina Capparelli Gerling no texto do encarte do CD gravado na Inglaterra, do selo Drama Musica, concebido e dirigido por outra cantora gaúcha, Gabriella Di Laccio, radicada em Londres. Linda canção, com o piano, aqui a cargo de Angiolina Sensale, em arpejos sobre versos como estes, finais: “Sem jamais voltar ao passado / Deixando a dor para trás / Trazendo de volta as cores aos seus olhos / Desenhando um arco-íris no céu”.

A segunda foi a que mais me lembrou Gilberto Mendes. Tem a garra de quem quer atuar na realidade que nos cerca, denunciar injustiças, mostrar que a música contemporânea está viva sim, e é capaz de “falar” a públicos muito mais amplos. 

Pois não é que Catarina – que está com 53 anos – canalizou toda a sua revolta com a onda de feminicídeos no país, sobretudo a da vereadora carioca Marielle Franco, numa canção forte, engajada, que eterniza o slogan que ecoou não só pelo Brasil inteiro, mas tem ressoado em muitos outros países? “Marielle Presente” continua ressoando, porque, quase um ano depois, ainda não se sabe quem ou quais foram seus assassinos.

Reproduzo a letra, homenageando Gilberto Mendes (esteja ele onde estiver, estou certo de que abrirá um largo sorriso ao ouvir esta canção); e saudando a coragem de Catarina Domenici, pianista e compositora que não abre mão de mostrar que a música viva não deve militar apenas nas salas de concerto e nos departamentos de música das universidades. Pode – deve, tem de – participar da vida deste país que conseguiu a façanha de banalizar a palavra “tragédia”:

MARIELLE PRESENTE (letra e música de Catarina Domenici):

“Marielle presente na mente da gente
Na luta cangalha da vida sofrida
Ferida com tiros de um capataz
O teu corpo cai,
Tua luta persiste,
Tua luta resiste.

Com dedo em riste cobramos justiça
Um ato covarde cruel e atroz
Pretende calar uma voz insurgente
Que vive e revida na boca da gente
Marielle presente!
Marielle presente!
Marielle presente!

Marielle presente na luta na vida
De toda essa gente acossada e sofrida
Deu voz ao silêncio que mata e oprime
Marielle não cala!
Quem cala consente,
Quem cala consente.

Jandira, Rosário, Maria da Penha
Jussara, Elisa, Luiza e Joana
Isaura, Iracema, Fernanda e Sofia
Vanessa, Liane, Mayara e Sara
Mulheres presente!
Mulheres presente!
Presente, presente, presente, presente!”

 

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