O caminho é este – surpreendentemente mostrado pelo Itamaraty

por João Marcos Coelho 30/11/2018

Não é só surpreendente que se juntem as três orquestras brasileiras mais qualificadas num projeto tão obviamente fundamental para a vida musical brasileira e sua projeção no mercado internacional como este Brasil em Concerto, anunciado semana passada pelo Ministério das Relações Exteriores. Serão 30 CDs apenas com obras de compositores brasileiros, distribuídos entre as Filarmônicas de Minas Gerais e Goiás e a Osesp.

É inédito. Porque, por aqui, e embora vivendo sempre em dificuldades orçamentárias para realizar seus projetos, cada orquestra, cada teatro pensa só no seu umbigo – recusa-se a unir-se a outras instituições, com medo de colocar azeitona na empada alheia e virar mero acessório.

As gravações serão lançadas no mercado internacional pela Naxos, que já vem realizando trabalho semelhante em muitos outros países (vide a série America). Ora, gravadora nenhuma hoje em dia paga para lançar discos. Com honrosas exceções, elas atuam apenas como distribuidores. Os projetos já chegam devidamente prontos – e pagos pelos proponentes. Uma fórmula que a Naxos utiliza desde o início de suas atividades, 31 anos atrás. Ela começou pagando mil dólares aos artistas que já entregavam os másters. Assumia apenas os custos industriais do projeto.

Hoje em dia a situação é ainda mais dramática. Sobretudo para a música sinfônica, concertante e lírica – gêneros que implicam custos muito elevados para chegarem aos palcos e ainda mais para alcançarem o registro fonográfico. Daí a viralização definitiva das gravações ao vivo e das plataformas digitais, que eliminam os custos industriais implicados nos discos físicos.

Em algum momento – e ao que parece este é um destes raros momentos – os responsáveis pelas nossas orquestras precisam se dar conta, em definitivo, de que a primeira missão dessas instituições é promover a edição crítica e a gravação em excelentes condições técnicas do repertório brasileiro. Um exemplo matador: a Osesp realizou, nos últimos anos, dois projetos de ampla envergadura envolvendo integrais sinfônicas: a de Prokofiev e a de Villa-Lobos. A primeira nada acrescentou à trajetória da orquestra, enquanto a segunda é, sem a menor dúvida, o grande, o maior legado da Osesp pós-Neschling (assim como, aliás, as Bachianas foram o legado da era Neschling).

Mesmo assim, para continuar falando de Villa-Lobos, as nossas orquestras – ao menos até este projeto inédito do Itamaraty – teimavam em só querer gravar Villa-Lobos. Ora, parece internacionalmente que a música brasileira é só Villa. Um raciocínio que ele mesmo “vendeu” com extrema competência para o mundo a partir de suas estadas em Paris, na década de 1920.

Isso fica claro quando um maestro estrangeiro como Neil Thomson afirma que o mundo vai tomar um choque com a qualidade das sinfonias de Claudio Santoro – e que elas ocupam um lugar de destaque na música do século 20. Como ele, Alberto Nepomuceno e todos os compositores da era pré-Villa-Lobos, cruelmente reduzidos a poucas linhas nas histórias da música brasileira (casos de Henrique Oswald e – incrível – Carlos Gomes). E mesmo contemporâneos do Villa, como Francisco Mignone (algumas gravações já feitas pela Osesp) e Camargo Guarnieri (a Osesp vai gravar seus Choros).

Compositores brasileiros

Imaginem que teremos edições críticas e gravações das obras de compositores ainda menos falados, como José Siqueira e Guerra-Peixe (este até agora só gravado pela Filarmônica de Goiás).

Último elogio fundamental: haverá registros de música brasileira mais contemporânea. Aleluia. A pianista Sônia Rubinsky grava o concerto de Almeida Prado com a Filarmônica de Minas Gerais. Mas é pouco, muito pouco. Os que não acompanham de perto a criação musical brasileira de hoje não têm a menor ideia de sua importância na cena internacional – esforço isolado dos próprios compositores.

Uma segunda fornada de gravações poderia suceder esta primeira, focando nos compositores de hoje.

Se músicos podem destacar-se internacionalmente interpretando Bach, Beethoven, Chopin e Brahms – os nomes de Nelson Freire e Antonio Menezes logo vêm à cabeça –, o mesmo não se aplica às orquestras brasileiras. Elas precisam convencer-se de uma vez por todas que não adianta tocar Debussy para os franceses, Britten para os ingleses ou Beethoven e Brahms no Musikverein de Viena. O caminho está por aqui mesmo. E a missão é esta, que em excelente hora o Ministério das Relações  Exteriores aponta para os dirigentes das nossas sinfônicas.

Agora, é fazer figa para que o próximo ocupante da cadeira de chanceler não enxergue ideologia no projeto e ponha tudo a perder já em 1º de janeiro de 2019.