“Piedade” em sua estreia brasileira da versão encenada

por Luciana Medeiros 29/11/2018

O tranquilo subúrbio carioca de Piedade, cortado pela linha do trem, fica a 1.800 km da região de Canudos, na Bahia, palco de um dos mais violentos episódios da história do Brasil. Nessa ponte, transitou o escritor e jornalista Euclides da Cunha entre o fim do século XIX e a primeira década do século XX. E nos dois locais, sangue foi derramado. A conexão entre duas tragédias – a pessoal, que resultou na morte do escritor, e a do massacre dos sertanejos – está na base da criação da ópera de câmara Piedade, de João Guilherme Ripper, que será vista em versão encenada pela primeira vez no Brasil, dias 30 de novembro e 1º de dezembro, na Sala Cecilia Meireles, Rio de Janeiro. 

Centrada no triângulo amoroso estabelecido entre Euclides da Cunha, sua mulher Anna e o jovem cadete Dilermando de Assis, a ópera tem como centro de gravidade o confronto do marido com o amante, que resultou na morte do escritor. Composta em 2012 para a Petrobras Sinfônica, que apresentou a obra em concerto semiencenado, foi montada em setembro de 2017 no Teatro Colón, de Buenos Aires, tornando-se, por incrível que pareça, a primeira ópera brasileira na Série Ópera de Câmara do mais tradicional teatro argentino – um feito. A direção cênica foi de Diego Ernesto Rodriguez.

Piedade ocupa agora o palco da Lapa, Centro do Rio, trazendo como protagonistas o barítono Homero Velho (Euclides), o tenor Daniel Umbelino (Dilermando) a mesma Laura Pisani que viveu em Buenos Aires o papel de Anna. O ensemble de 13 integrantes tem o comando da pianista e maestrina Priscila Bomfim, com novas orquestrações. Na direção cênica, Daniel Herz.

“Vamos ter uma leitura nova pelas mãos de Herz” – adianta Ripper. “Diego Rodriguez enfatizou, em Buenos Aires, o olhar político que abarca a Guerra de Canudos como uma das tragédias latino-americanas. Já Daniel aposta numa leitura do inconsciente de Euclides, em que Canudos se faz presente o tempo todo, através de um coro cênico de 21 atores.”

Daniel, que tem em Piedade sua segunda experiência como diretor de óperas – assinou a montagem de Mozart e Salieri, de Rimsky-Korsakov, no Municipal do Rio em 2016 –, vê sua abordagem como uma interpenetração do público e do privado no universo interior de Euclides.

“Canudos cola no mundo doméstico de Euclides, que passa a sofrer com essa identificação”, detalha Herz. “O escritor havia ido para a Bahia pensando encontrar revoltosos contidos pelo exército e acaba testemunhando um massacre do povo. E volta se deparando com o jovem Dilermando, que é militar, ocupando seu lugar na vida conjugal. Há uma mistura de tormento, culpa, ciúme.” 

O trio de cantores entrelaça suas interpretações, segundo Ripper, no mais profundo sentido de “câmara”, estreitando emoções:

“Homero foi o criador do papel, em 2012, um gigante. Laura, que faz sua estreia no Rio, é uma jovem cantora de voz espetacular, incorporando Anna da Cunha com perfeição. Ela já cantou oito vezes esse papel. E Umbelino faz a estreia no papel de Dilermando, um tenor ligeiro, jovem, perfeito para o personagem.”

A montagem é fruto de um empenho especial do compositor, ao lado da Sala Cecília Meireles e de sua Associação de Amigos, com patrocinadores como Petroserv, Engepro, Steag, Laureano & Meirelles Engenharia, pelas leis municipal e federal de incentivo. 

“Fizemos essa montagem com uma fração do orçamento que se costuma ter”, revela o compositor, que nos últimos 12 meses teve quatro de suas óperas montadas no Brasil, em Portugal e na Argentina, um total de 18 récitas. “Provamos aqui que é possível e importante manter a ópera viva. Estou trabalhando no levantamento de recursos para uma série de óperas de câmara a serem apresentadas no Estado do Rio.”

João Guilherme Ripper e elenco de Piedade [Divulgação]
João Guilherme Ripper e elenco de Piedade [Divulgação]