Madureira chorou em Paris

por Camila Frésca 03/09/2018

Há algum tempo o nome de Anaïs Fléchet é conhecido entre os pesquisadores brasileiros, seja por seu estudo sobre os anos parisienses de Villa-Lobos, seja por artigos nos quais se ocupa de questões relacionadas à música brasileira na França.

Historiadora e professora da Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, ela lança seu primeiro livro em português, Madureira chorou... em Paris: a música popular brasileira na França do século XX (Edusp). Trata-se de um estudo de fôlego, resultado de sua tese de doutorado defendida em 2007. Como o título adianta, ele procura mapear a presença da música popular brasileira na França durante o século XX. A pesquisa parte do maxixe, dança que vira moda em Paris às vésperas da Primeira Guerra Mundial, e segue com o samba e o sucesso do grupo Os Batutas (conjunto que incluía Pixinguinha e Donga) em 1922, sem deixar de abordar a presença do folclore e da música erudita. Já na década de 1960, temos a explosão da Bossa Nova, seguida alguns anos depois pela Tropicália e por ritmos nordestinos. Se esquadrinha essa presença da música brasileira na França, Anaïs Fléchet também não deixa de demonstrar de que forma ela motivou a criação de formas híbridas, como o “samba francês”. O livro se complementa com entrevistas com alguns dos personagens atuantes nesse intercâmbio, como Caetano Veloso, Pierre Barouh e Chico Buarque (é a partir da entrevista de Chico que descobrimos que Madureira chorou é o título de um samba que fez sucesso na França numa versão intitulada Si tu vas à Rio).

Conforme nota Anaïs, a circulação musical entre Brasil e França se dá menos por fluxos migratórios (pois o número de brasileiros residentes na França, e vice-versa, nunca foi expressivo) e mais por conta de mediadores culturais, sejam estes compositores, mecenas, editores, intérpretes ou diplomatas, entre outros. Para dar conta de tantas variantes relacionadas à pesquisa, ela se utiliza de numerosas fontes documentais entre gravações, partituras e artigos de imprensa, além de uma extensa bibliografia. Dessa forma, consegue revelar ao leitor visões plurais que a música brasileira despertou na França, indo do exótico ao moderno.

Na próxima terça-feira, 4 de setembro, Anaïs Fléchet dará uma palestra sobre o livro no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo (o evento é gratuito e as inscrições podem ser feitas pela internet [Clique aqui]

Imagem da capa do livro “Madureira chorou... em Paris, de Anaïs Fléchet [Divulgação]
Imagem da capa do livro “Madureira chorou... em Paris, de Anaïs Fléchet [Divulgação]

Em entrevista ao site CONCERTO, ela falou sobre sua relação com a música brasileira e comentou alguns aspectos de suas pesquisas relacionadas ao Brasil:

Qual foi o seu primeiro contato com a música brasileira e de que forma esse interesse se tornou seu objeto de pesquisa?
Minha família está ligada ao Brasil há várias gerações. Tenho uma prima brasileira que também é atriz e cantora, Laila Garin. Minha mãe ouvia muita MPB, todos os clássicos de sua geração (Chico, Caetano, Gil, Gal etc.) e os amigos de Salvador me enviavam discos de aniversário. Escutei muito a Arca de Noé, e também fui fascinada por Gal Costa. Cresci com todas essas referências. Mais tarde, estudei violão no conservatório e descobri os estudos de Villa-Lobos, mas não pensei em torná-lo objeto de estudo. Além disso, no início, eu estava principalmente interessada em história urbana, questões relacionadas à preservação do patrimônio arquitetônico. Foi somente durante o meu mestrado que comecei a trabalhar com música. De fato, queria trabalhar as relações culturais entre a França e o Brasil, mas invertendo a perspectiva tradicional de estudar a influência francesa na cultura brasileira. O que me interessou foi analisar a presença da cultura brasileira, e também o imaginário sobre o Brasil na França. Questionar os estereótipos, bem como os encontros culturais entre os dois países.

Em “Madureira chorou...” você trata da difusão da música brasileira e seu impacto na cena cultural francesa, da Belle Époque até as décadas de 1970 e 1980. Que tipo de fonte documental se mostrou mais eficiente para dar conta do tema?
As fontes são múltiplas, mas muito dispersas e muitas vezes não muito bem preservadas. Eu usei principalmente fontes musicais, como gravações (cilindros, discos 78 rpm, LP, EP, cassetes) e partituras. Encontrei cerca de 2.500 gravações e 1.000 partituras brasileiras produzidas e / ou distribuídas na França durante esse período. Mas utilizei também a imprensa francesa e brasileira, os arquivos históricos do Itamaraty (porque a música se torna, depois da Segunda Guerra Mundial, uma questão de diplomacia cultural), memórias, livros sobre música etc. Os arquivos orais também foram muito importantes, tive a sorte de conversar com muitos artistas e produtores que construíram essas trocas musicais entre o Brasil e a França: Pierre Barouh, Georges Moustaki, Chico Buarque, Caetano Veloso etc.

Nessa mesma pesquisa, foi possível determinar um aspecto ou elemento da música brasileira que, ao longo de todo o tempo, despertou atenção recorrente na França?
A forma como os franceses ouviram a música brasileira evoluiu com o tempo, mas há algumas coisas que permanecem. A importância do ritmo em particular, mas também um certo virtuosismo instrumental (percussão, violão). A dança (maxixe, samba) também desempenhou um grande papel. Em geral, os franceses buscaram uma forma de alteridade sonora na música brasileira. Além da música, há também um imaginário exótico que se desdobra numa série de clichês: as praias do Rio, o carnaval, a mulher brasileira etc.

Você tem desenvolvido novas pesquisas relacionadas à música brasileira e sua relação com a França?
Sim, tenho trabalhado com a presença de imagens estereotipadas da França – e, mais especificamente, da mulher francesa – na MPB, com canções como Tem francesa no morro, um samba de Assis Valente. E o que surpreende é que a imagem da mulher francesa na música brasileira é muito parecida com a da mulher brasileira na música francesa. Este estudo acaba de ser publicado em um livro coletivo que organizei ao lado de Silvia Capanema e Olivier, Como era fabuloso o meu francês! Imagens e imaginários da França no Brasil, Editora 7 Letras. Também voltei no tempo trabalhando na distribuição das operetas Jacques Offenbach no Brasil. E, especificamente, em paródias dessas operetas feitas por dramaturgos e músicos brasileiros na década de 1860 e 1870 e que ganharam nomes muito engraçados: Orphée aux enfers, por exemplo, virou “Orfeu na roça”. Nestas paródias, histórias foram adaptadas ao contexto brasileiro do tempo para melhor criticar o Império, uma forma de sátira social e política. E por vezes a música também foi alterada. O resultado desta pesquisa será publicado em breve pela Editora da Unicamp. No momento, estou desenvolvendo um novo projeto sobre música durante a Guerra Fria e o papel da Unesco.

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