Uma viagem no tempo proposta por Strauss

por João Luiz Sampaio 01/06/2018

Ópera O cavaleiro da rosa, que será apresentada no Theatro Municipal de São Paulo, reinventa o século XVIII à luz do começo do século XX

Pouco antes de chegar à metade do segundo ato, Richard Strauss, regendo pela primeira vez sua ópera O cavaleiro da rosa, anos após a estreia da obra, sussurrou ao spalla da orquestra: “Essa coisa não acaba mais?”. O músico, não sem certa surpresa, respondeu: “Maestro, mas foi o senhor mesmo quem a escreveu”. “Sim, eu sei”, disse Strauss, “mas, quando a compus, não imaginava que, um dia, teria também de regê-la”.

A anedota é característica do humor do compositor, mas é só isso mesmo, uma anedota. Strauss sabia que O cavaleiro era uma de suas grandes criações no mundo da ópera. E, se entrou em definitivo para o repertório, foi não apenas pela partitura em si, mas pelo modo como é representativa da estética pessoal de um autor que, na virada do século XIX para o século XX, soube construir um caminho profundamente pessoal.

A primeira referência de Strauss ao que seria a obra se deu logo após a estreia da Elektra, em 1909, quando o compositor confidenciou a amigos próximos que, “da próxima vez, escreverei uma comédia mozartiana”. O comentário talvez fosse apenas um desejo de leveza após a intensidade expressionista da Elektra, mas logo a ideia começou a tomar forma, com a chegada ao projeto do poeta e dramaturgo Hugo von Hofmannsthal, responsável por criar a história ambientada na corte vienense, onde a experiente marechala Maria Teresa se apaixona pelo jovem Octavian, mas acaba, em um gesto de nobreza, se afastando para que ele se envolva com Sophie.

Para preparar o libreto, Hofmannsthal bebeu em diversas fontes, da dramaturgia alemã da época a peças de Molière – de todas, a mais notável aproximação talvez tenha sido com As bodas de Fígaro. Em cenas como a que o Barão Ochs é enganado por Octavian, há um paralelo com as idas e vindas criadas por Lorenzo da Ponte e Mozart, assim como não é difícil enxergar pontos de contato entre a Condessa e a Marechala – e, em especial, entre Octavian e Cherubino. De resto, a influência de Mozart e sua época é assumida abertamente por Strauss. “Meu verão correu bem, e você estará mais uma vez envolvido com o rococó”, escreveu ele Mahler, em setembro de 1909.

Richard Strauss [Reprodução / Lebrecht Music & Arts]
Richard Strauss [Reprodução / Lebrecht Music & Arts]

Em 1909, Mahler trabalhava em sua Sinfonia nº 9; Arnold Schönberg, por sua vez, escrevia suas Três peças para piano e o monodrama Erwartung, entre outras obras. Não por acaso, o “retorno” a Mozart proposto em O cavaleiro da rosa foi visto por muitos como retrocesso. As comparações, na verdade, eram feitas até mesmo com relação ao próprio Strauss. Como relembra o pesquisador Sergio Casoy (em Contos de óperas e cantos), o compositor foi acusado de “voltar atrás, depois de ter chegado, com Elektra, ao limite da crise e da saturação dos meios expressivos, refugiando-se dentro das confortáveis fronteiras burguesas do modelo setecentista mozartiano”.

Na verdade, a trajetória de Strauss desafia a noção de evolução artística, afirma o crítico Lauro Machado Coelho (em seu livro A ópera alemã). “Em um músico como Strauss, que praticamente nasceu pronto – os sinais de maturidade surgem em obras escritas quando ele era ainda muito jovem, como a canção Zueignung ou o poema sinfônico Don Juan –, o conceito de evolução não vem muito ao caso. Melhor seria falar em adequação”, afirma. “Inteiramente despreocupado de seguir escolas ou acompanhar modismos, detentor de riquíssimos recursos de escrita, Strauss sabe perfeitamente que estilo de música convém para cada assunto de que se propõe tratar.”

Em outras palavras, a estética não se impõe perante o tema, mas, antes, nasce dos estímulos da história que o compositor tem em mãos. Mesmo em Elektra, cuja escrita leva Strauss à fronteira do rompimento com o sistema tonal, a cena em que a protagonista encontra enfim seu irmão Orestes significa, musicalmente, o abandono momentâneo da dissonância em favor de um lirismo de corte tradicional – assim como Elektra deixa de lado a angústia e vislumbra a possibilidade do fim de seus conflitos.

É à luz dessa noção que a ópera O cavaleiro da rosa deve ser compreendida. Com uma ressalva importante: o retorno a Mozart não significa em momento nenhum o abandono da ousadia. Ao contrário. O que Strauss propõe, em uma partitura repleta de sensualidade, humor refinado e construção hábil de personagens e seus mundos interiores, apostando em um uso pouco usual de timbres e em técnicas como a utilização de Leitmotive, é um casamento sem nostalgias entre o século XVIII e o então nascente século XX. Strauss foi, afinal, um homem de seu tempo. E, como tal, imaginou e reinventou um passado que, naquele instante, ganhava cores quase míticas.

Agenda
Ópera O cavaleiro da rosa, de Richard Strauss
Roberto Minczuk – regente / Pablo Maritano – direção cênica
Dias 15, 17, 19, 21, 23 e 25 de junho, Theatro Municipal de São Paulo