Momento de síntese

Entrevista com o violonista e coordenador artístico-pedagógico do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, Fabio Zanon

Aos 52 anos de idade, Fabio Zanon é mais que um paradigma de excelência do violão no Brasil. Professor respeitado, comunicador de carisma, escritor de estilo e regente ocasional, Zanon é também o coordenador artístico e pedagógico do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, o maior da América Latina. A 49ª edição do evento será realizada entre os dias 30 de junho e 29 de julho. Ao todo, serão cerca de noventa apresentações, destacando a comemoração dos 70 anos do pianista Arnaldo Cohen, além da tradicional abertura com a Osesp e da visita de orquestras de outros estados, como a Filarmônica de Goiás e a Sinfônica de Porto Alegre. Artisticamente, Zanon se define em seu “momento de síntese”. Para além do festival, um de seus projetos artísticos para o segundo semestre inclui uma série de apresentações com a cantora Angelica de la Riva. O duo deve mostrar o repertório do disco da cantora e violonista Olga Praguer Coelho (1909-2008), que acaba de ser lançado pelo selo GuitarCoop.

Fabio Zanon [Divulgação / Eduardo Sardinha - Guitarcoop]
Fabio Zanon [Divulgação / Eduardo Sardinha - Guitarcoop]

Qual é a linha artística e pedagógica da edição do festival deste ano?
Quando você tem que enfrentar anos de crise financeira, com uma incerteza muito grande na questão de orçamento, como tem acontecido com o festival, é bem complicado arriscar demais. Então, este não vai ser um ano de tanto risco. A gente vai usar um modelo já testado, estabelecido, com uma quantidade menor de artistas estrangeiros. O que conseguimos fazer de novo foi voltar a ter três semanas de curso – uma delas, de música de câmara. Todos os bolsistas vão tocar música de câmara, porque é uma área que está negligenciada no Brasil de forma geral. Acredito que inclusive muitos estudantes desconhecem o repertório de música de câmara, porque já crescem em um ambiente orquestral. O que acho que vai crescer também é o grupo de música antiga, que ainda será com instrumentos modernos, com Luis Otavio Santos regendo, e o Coro Acadêmico da Osesp, com o Miserere, de Jan Zelenka, que possivelmente é estreia brasileira, além do Magnificat, de Bach.

Como surgiu a ideia de ter uma camerata no festival?
Isso só pode acontecer porque a gente optou pela mudança do festival para São Paulo. Em Campos do Jordão, a gente não teria infraestrutura suficiente para isso. Qualquer músico – seja eu, sejam os outros professores – sabe que você precisa fazer os clássicos como trabalho formativo, é isso que dá finesse a quem toca. O problema é que, se você tem oito percussionistas, todos os metais, todas as madeiras dobradas, não dá para basear o repertório da orquestra do festival em Mozart e Beethoven, porque você deixa muita gente ociosa durante o evento. Então, a orquestra sinfônica do festival faz obras maiores. A camerata tem duas funções: a primeira é servir como orquestra-escola para tocar Haydn, Mozart e Beethoven; a outra é ser uma das orquestras que os alunos de regência podem reger.

Você disse que a camerata só é possível porque o festival passou para São Paulo. Existe a ideia de o festival voltar para Campos do Jordão?
A mudança para São Paulo foi uma ideia que surgiu por uma contingência econômica. Há três anos, ficamos com o orçamento reduzido pela metade e dissemos: “Vamos fazer um festival de 15 dias ou vamos ter outra ideia?”. E a outra ideia foi o festival em São Paulo. Isso representa uma economia de R$ 2 milhões. O problema é que, agora, temos outro modelo de festival, pois aumentou o número de bolsistas – até pelas facilidades de espaço, vagas de hotel etc. – e aumentou nossa oferta pedagógica. Imagine que tenhamos uma recuperação financeira monumental. É muito difícil dizer: “Temos R$ 2 milhões a mais, agora a gente vai voltar para Campos e torrar esse dinheiro em hotel e ônibus”. Seria irresponsabilidade. Teríamos que reduzir o festival todo de novo, tirar a camerata, tirar o grupo de música antiga... Isso faria com que o festival voltasse para trás. No longo prazo, todo mundo quer voltar para Campos do Jordão. O modelo de Tanglewood, a imersão na natureza... Não é luxo, é uma coisa educativa levar os alunos para outro ambiente a fim de se concentrar no trabalho, tocar e fazer música com profundidade. O problema é que Campos do Jordão é uma cidade que ganha o ano em julho. O festival só poderia voltar para lá com o centro de estudos, uma infraestrutura construída para abrigar todas as atividades. O ano que vem é a ocasião para se discutir isso de novo, pois marca os 50 anos do festival.

Já há planos para a edição de 2019, comemorando essa efeméride?
A gente quer fazer algo especial, principalmente do ponto de vista documental. Deve-se rever quem esteve em Campos, quem fez sua car- -reira em torno do festival. Se você pega certos músicos, pessoas como Roberto e Arcádio Minczuk, Cláudio Cruz, Abel Rocha, Roberto Tibiriçá, são pessoas que foram para Campos, sei lá, 20, 25 vezes. Temos que traçar essa história.

Um dos destaques é a comemoração dos 70 anos do pianista Arnaldo Cohen. Como vai ser isso?
É um privilégio para nós ele ter escolhido o festival. Ele se colocou à disposição: “Vou para o festival fazer o que vocês quiserem”. Ele não quer mais dar recital solo, mas a gente aproveitou. Ele vai dar aula, vai ser solista da orquestra do festival e vai tocar concerto de câmara com os professores do evento. Estou no céu.

Arnaldo Cohen e você têm uma relação muito próxima. Fale um pouco a respeito dele como artista.
Tenho uma relação de amizade e gratidão muito forte com Arnaldo porque, apesar de ele ser muito pragmático, é uma pessoa completamente imersa e comprometida com a música. Não que ele seja intransigente. Ele pode ser intransigente apenas quando percebe que o entorno não leva a coisa tão a sério quanto ele. É muito disposto a colaborar, muito exigente com os alunos, mas sem perder a linha. Quando fui gravar meu primeiro CD, passei todo o programa com ele. E eu toco violão. Que interesse ele poderia ter pelo repertório de violão? Mas ele me ouviu com a maior atenção e disse: “Estou encantado, porque posso pensar na música sem pensar no pedal, no dedilhado que vou usar”. Quando você vê um retrato do Arnaldo, ele parece um mito. E é mesmo. Isso pode criar um distanciamento. As pessoas podem achar que ele é inalcançável. Porém, quando se propõe a se aproximar de alguém para fazer música de câmara ou para ensinar, ele é encantador. É muito gratificante poder trabalhar com o Arnaldo.

Quais são os principais objetivos de sua carreira como violonista?
Estou em um ponto da vida em que a demanda toma conta e define minha temporada. Neste ano, por exemplo, apareceu um convite de Francis Hime para tocar com ele, que fez uma redução para violão e piano de seu concerto. Eu gravei esse concerto com a Osesp e estava com saudade de tocá-lo – ele tem uma instrumentação muito grande, e não é muito fácil de realizar. Tocamos isso no Kuwait, no começo de abril, e agora estamos vendo de fazer no Brasil e na Europa. Eu também preciso planejar o que vou fazer nos próximos dez, vinte anos. Gravar certas coisas, tocar certo repertório. Não posso esperar para ver como estará minha forma técnica nem meu interesse quando eu tiver 65 anos. Com minha nova parceria com a gravadora GuitarCoop, pretendo fazer pelo menos dois CDs por ano.

E quais serão os CDs de 2018?
Neste ano, já gravei um, que será o álbum mais leve que fiz na vida. São miniaturas das Américas. Não será só latino-americano, porque vai incluir Estados Unidos e Canadá. Tem uma música de cada país, inclusive Panamá, El Salvador, Haiti... Vai ficar um disco bem heterogêneo, que é o que eu queria. Deve sair em julho ou agosto. Em agosto ou setembro, devo gravar os Doze estudos de Francisco Mignone. Depois, quero continuar com uma série espanhola, gravar mais música contemporânea, fazer um CD com os ingleses, que é um plano bastante antigo. Tem outra coisa que surgiu de 15 anos para cá, que é o repertório do baú do Segóvia. Tudo já foi gravado, mas o problema é essas obras ganharem uma gravação mais sofisticada, que não seja de catálogo, e sim de repertório. E é claro que você tem que tocar Bach. Neste ano, por exemplo, estou fazendo a integral de alaúde – repertório que visitei quando tinha, sei lá, 21 anos, mas nunca cheguei a tocar. Esse é meu momento de síntese.

O que você gostaria de tocar de música contemporânea?
Cada momento da vida pede uma coisa diferente. Hoje, francamente, se tiver que gastar muitos meses e muitas horas da vida para aprender uma obra sem saber exatamente o efeito, eu tendo a evitar e voltar para as obras em que eu acho que tenho alguma coisa mais consistente a dizer. Preciso voltar às obras de Alexandre de Faria. E tem uma peça que quero estudar, que é a Sonata de Marlos Nobre. Isso tem que sair para o ano que vem, para a efeméride de 80 anos dele.

Obrigado pela entrevista.

 

AGENDA
49º Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão
De 29 de junho a 30 de julho
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