A flecha envenenada

por Jorge Coli 01/08/2018

A sensibilidade romântica, Claude Debussy e o significado da música

Eduard Hanslick, no século XIX, criou o mito de que a música seria incapaz de veicular sentidos ou ideias. Essa concepção foi assumida por grande parte da modernidade musical e triunfou de modo quase absoluto em alguns meios de vanguarda, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial.

Ele continha a ilusão de uma impossível pureza contemplativa. Entretanto, ao afirmar “não significa nada”, a música já significa alguma coisa.

A música opera com campos semânticos de precisão variável, até hoje não muito estudados pela musicologia mais convencional. Tem poderes de transmissão significantes que não se revelam em uma análise estrutural interna. É necessária uma consideração “receptiva”, por assim dizer, um processo analítico atento daquilo que ela pode provocar no ouvinte.

Os românticos, mais que ninguém, souberam dilatar esses territórios significantes. Conceberam processos narrativos ricos de alusões culturais coletivas (marchas heroicas, evocações elegíacas, arroubos líricos e o que mais se quiser) ou efeitos mnemônicos internos à própria estrutura da obra (tema repetido que evoca situação anterior, solução que Wagner levaria ao extremo com seus motivos condutores).

Muitas vezes as composições eram acompanhadas de roteiros que guiassem o ouvinte ou, pelo menos, de título que desse um norte para seu devaneio. Nada mais fecundamente impuro. Debussy abalou esse modo de descrever e narrar. Não que o abolisse. Provocou, porém, alterações em sua natureza.

Claude Debussy (1862-1918) [Reprodução]
Claude Debussy (1862-1918) [Reprodução]

Em “Por que escrevi Pelléas?”, que data de 1902, o compositor diz: “Eu queria, para a música, uma liberdade que ela contém mais, talvez, do que qualquer outra arte, não tendo que se limitar a uma reprodução mais ou menos exata da natureza, mas às correspondências da Natureza e da Imaginação”.

Chamo atenção para a maiúscula em Natureza e Imaginação. Quando natureza aparece pela primeira vez, não recebe essa honra – sinal de que existem duas naturezas ou, pelo menos, duas maneiras diferentes de concebê-la.

Correspondências misteriosas: encontramo-nos nas sensibilidades alusivas do simbolismo e do decadentismo. A “Natureza” demanda uma intuição superior e indizível para compreendê- la; a “natureza” conforma-se com constatações descritivas exteriores.

Assim, a música de Debussy não pode ser rotulada de “impressionista”, como se usa tanto. A menos que se compreenda o impressionismo tal como ele aparece nas obras tardias de Monet, elas também embebidas de paraísos artificiais que decadentistas e simbolistas haviam sabido invocar.

Daquele impressionismo sadio, heroico, de 1874, de um realismo fenomenológico tão descritivo (descrição dos reflexos, das atmosferas), desse impressionismo, contudo, Debussy se distancia. Seu mundo é o dos hiatos elípticos de um Mallarmé.

Os processos românticos mantinham sempre uma linearidade narrativa muito sintética, “fechada”, por assim dizer. Debussy escapou dessas estruturas, como se esquivou também das arquiteturas formais ensinadas nas escolas: a frase que lhe é atribuída – “fujamos, eles vão desenvolver!” – é muito justa. Poderíamos entendê-la em dois sentidos: desenvolver tanto a estrutura musical quanto a narração.

Debussy emprega em suas composições dados soltos, se compararmos suas obras à univocidade sentimental dos românticos. Ele procede por meio daqueles hiatos elípticos mallarmeanos, daquelas associações que desencadeiam fulgurâncias heurísticas.

O grande pianista Alfred Cortot, em estilo admirável, sintetiza, no livro La musique française de piano: “E, ao invés de agir sentimentalmente sobre nosso organismo pela patética solicitação de um anseio pessoal, ao invés de criar, bela de linhas e de formas, a arquitetura sonora cuja pura disciplina saiba contentar nosso espírito é, quase sem desconfiarmos, pela volúpia secreta de dois acordes encadeados, pela nervosidade brilhante de um ritmo ou o mistério de um silêncio, que ele [Debussy] nos atira, em plena sensibilidade, essa flecha cujo delicioso e insinuante veneno nos oferecerá, tão intenso quanto a realidade, a sensação que ele havia premeditado”.

Tal flecha envenenada ativa a participação do ouvinte. Aberta, analítica, a música de Debussy estabelece uma sintonia fina com o espírito que a recebe. Os românticos vampirizam a alma e fazem os ouvintes se entregarem, atirando-os em vastos abismos emocionais. Debussy cria uma liberdade dialógica com o ouvinte ao operar pela fragmentação, já que suas obras perderam a univocidade condutora.