Retrospectiva 2017 – João Marcos Coelho (depoimento de dezembro de 2017)

por Redação CONCERTO 28/12/2017

“É difícil exercer o otimismo quando se fala sobre o que foi 2017 para a vida musical. Os absurdos cortes nos orçamentos para a cultura atingiram níveis próximos do insuportável. Aqui mesmo, na CONCERTO, Nelson Kunze apontou que a Secretaria de Cultura do Estado teve seu orçamento diminuído em quase 50% nos últimos cinco anos. Em música, construir leva tempo, mas para destruir não leva mais do que o tempo de uma canetada oficial. Houve ótimos concertos. Como o de Penderecki regendo a Osesp. Ou os recitais de András Schiff, Andreas Staier e Benjamin Grosvenor. O Theatro Municipal ainda não consolidou um modus vivendi que lhe dê um mínimo de tranquilidade. Palmas para os 15 anos do Percorso Ensemble, que sem apoio oficial manteve-se neste período. Palmas para o concerto em julho do Ensemble Modern de Frankfurt – uma aula de como se deve conceber, preparar e realizar um trabalho consequente em torno de um compositor, no caso, Walter Smetak. P.S.: Eu me preparava para escrever esta retrospectiva quando o Teatro Colón anunciou sua temporada 2018. Depois de saboreá-la, fiquei deprimido. O grupo Bang on a Can comemora 30 anos e se apresenta por lá. No reino da ópera, há montagens de criações recentíssimas, como Tres hermanas, de Peter Eötvös, e Barenboim regendo Wagner. A música contemporânea não entra com meros 5 ou 10 minutos, mas merece eventos inteiros. Por aí se entende por que Toscanini, em 1908, balançou entre aceitar o convite do MET de Nova York ou o dos argentinos de Buenos Aires. Em 2017, vários dos grandes responsáveis pela vitalidade da música no mundo passam pelo Brasil de avião, rumo a Buenos Aires. Que se há de fazer?”

João Marcos Coelho, jornalista e crítico musical