Músico da Filarmônica de Nova York inova com crianças compositoras

por João Luiz Sampaio 06/07/2018

No final de junho, a Orquestra Filarmônica de Nova York apresentou-se no Central Park para uma plateia de 30 mil pessoas, com um programa que incluía duas estreias mundiais. Harlem shake, de Camryn Cowen, inspira-se em um tema renascentista, mas com uma improvisação de saxofone que evoca o passado do Harlem. O bairro de Manhattan também é o tema de Boogie down uptown, de Jordan Millar, que tenta recriar em música - tendo como inspiração as pinturas do artista Aaron Douglas - a sensação de sair do metrô e ver as ruas da região pela primeira vez. 

O detalhe importante nesta história: tanto Camryn Cowen como Jordan Miller têm apenas 11 anos de idade. E integram um projeto chamado Very Young Composers, no qual crianças de até 13 anos de 15 escolas de Nova York são estimuladas, por meio dos instrumentos da orquestra, a alimentar sua própria criatividade, expressando o que sentem em forma de música. As peças são tocadas por membros da Filarmônica de Nova York, que atuam como tutores. Além desses recitais, os jovens participam de diálogos com colegas de iniciativas semelhantes em outros países. 

Músico da filarmônica, Jon Deak é o criador do projeto. Todas as crianças são criativas, carregam em si o desejo de criar, ele explica. O que falta, muitas vezes, é alguém que esteja disposta a ouvi-las. E foi unindo essas duas premissas que a iniciativa começou a ganhar forma. O trabalho em si segue um método específico. As crianças começam do zero, com exercícios rítmicos, e passam a aprender a teoria musical, mas "usando seus próprios termos para descrever intervalos, por exemplo, antes de saber o que são ou como são tipicamente usados", explica o site do projeto. 

Deak esteve no Brasil no final do mês passado, participando do seminário For All - Juventude e Conexões Musicais, realizado pelo Projeto Guri e a Jeunesses Musicales International. No palco do Auditório do Masp, fez uma apresentação com a orquestra do Guri de Jundiaí, na qual mostrou sua proposta: além de tocar um trecho de Harlem shake, os músicos também apresentaram obras criadas por integrantes do conjunto brasileiro. Em seguida, ainda sobre o palco, Deak conversou com o Site CONCERTO.

Jon Deak [Divulgação]
Jon Deak [Divulgação]

"A orquestra sinfônica é uma das maiores conquistas da história da cultura da humanidade", ele diz. "Mas é preciso ter em mente que há perguntas importantes. Qual o futuro dessa música? De onde esse futuro virá? E, mais do que isso, a música que fazemos fará parte da vida dos jovens?". Para responder em especial a essa última questão, o caminho defendido por Deak é o de uma relação ativa com essa forma de manifestação artística. Ela ganha outro significado na mente do jovem quando ele se dá conta de que a música clássica é capaz de reproduzir aquilo que sente, de ajudá-lo a encontrar sua própria voz individual e o seu lugar no mundo. 

Projetos como esse, por sua própria natureza, têm um impacto pessoal, individual, na vida de seus integrantes - em recente entrevista ao New York Times, Camryn e Jordan falaram de planos de seguir carreiras na música; durante o seminário do Guri, os instrumentistas da orquestra também não hesitaram em responder sim à pergunta sobre se a possibilidade de criar uma obra e atuar também como compositores os interessava dali em diante. Mas essas iniciativas também esbarram em temas como inclusão, diversidade, busca de novos públicos, fundamentais hoje para qualquer orquestra sinfônica que queira repensar sua relação com o nosso tempo. 

Não é uma discussão fácil de se fazer, em especial dentro de grandes e consagradas instituições, afirma Deak. Mas ele ressalta que a reação dos músicos da Filarmônica de Nova York ao Very Young Composers sempre o surpreendeu. "Na verdade, tudo depende da disposição de olhar as coisas de uma maneira um pouco mais ampla. Para um músico da filarmônica, preparar uma peça dessas não toma o tempo que uma sinfonia ou ópera tomaria. O resultado, por outro lado, é estrondoso. De repente, você está no Central Park, tocando para 30 mil pessoas, que estão ouvindo e aplaudindo a música criada por duas meninas do Harlem. É imediata a sensação de que o seu trabalho tem enorme relevância social e de que aquele público gigantesco passou a ter uma outra visão a respeito daquilo que você faz."

Deak faz questão de ressaltar que trabalhos de inclusão não significam abrir mão de uma temporada regular de concertos ou da qualidade de suas interpretações. Pelo contrário: a grande questão é justamente não haver disputa entre elas mas, sim, uma integração de sentidos e propósitos, que muitas vezes parte justamente de um olhar para a tradição. "Uma das nossas inspirações para o projeto foi o Young People's Concerts, criado pelo maestro Leonard Bernstein nos anos 1940. Por conta disso, celebrar a relação com a juventude, no caso da Filarmônica de Nova York, não é abrir mão da importância da tradição, pelo contrário, é respeitar algo que está no DNA do grupo, que o definiu sempre como instituição musical na cidade."

A maior resistência ao projeto, segundo ele, veio do meio acadêmico. "Muitas pessoas acreditam que o que fazemos passa uma ideia equivocada a respeito da nova criação, colocando em segundo plano pesquisas e trabalhos de décadas com a linguagem musical. Eu não concordo e reforço a necessidade de um olhar mais amplo. O que fazemos é colocar o valor da criação como central na relação com a música e isso, no final das contas, só ajuda a reforçar a importância do trabalho de todo compositor que esteja atuando atualmente. Não vejo como aproximar do jovem o ato de criar, de compor pode machucar um meio musical", conclui.


Clique aqui para ouvir as obras das jovens compositoras Camryn Cowen e Jordan Miller.