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Festivais de inverno se multiplicam pelo Brasil (16/6/2009)
Por Camila Frésca

Julho está chegando e com ele os festivais, que promovem uma intensa atividade musical em diversas cidades do Brasil. Os festivais de inverno se multiplicaram no país nos últimos anos, tornando-se uma grande oportunidade de aperfeiçoamento para jovens músicos, ao mesmo tempo em que movimentam a economia e fomentam o turismo.

É certo que os cerca de 15 eventos que acontecerão no próximo mês, do Rio Grande do Sul ao Ceará, têm em Campos do Jordão seu grande modelo. O Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, que chega a sua 40ª edição como o maior evento do gênero na América Latina, foi criado pelo então Secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Luís Arrobas Martins, e pelo compositor Camargo Guarnieri, em 1970. Em 1973, no entanto, a chegada de Eleazar de Carvalho à direção artística do evento daria a ele a estrutura que o caracteriza até hoje: a mescla entre cursos de música e uma extensa programação de concertos. Este modelo, chamado pelo próprio Eleazar de “festa e aprendizado” e inspirado em Tanglewood, acabou disseminando-se no país.

Se de um lado os festivais tentam suprir a falta de escolas regulares de música, oferecendo aulas e master classes, de outro permitem aos alunos fazer contatos, conhecer repertórios diferentes, ouvir profissionais de boa qualidade e tocar em conjuntos especialmente formados para os festivais. Ao mesmo tempo, levam para a cidade em que se instalam uma programação musical a que a maioria delas pouco tem acesso ao longo do ano.

Além de Campos do Jordão, sem dúvida um dos mais importantes festivais do Brasil é o de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, de Juiz de Fora, que comemora em 2009 sua vigésima edição. Evento único do gênero no país, ele desempenhou nas últimas décadas papel fundamental para o desenvolvimento de práticas historicamente orientadas de interpretação musical no Brasil. Além de estimular o ambiente musical, o Festival de Juiz de Fora tem registrado continuamente suas atividades, o que faz com que ele tenha produzido até hoje 17 CDs, um DVD e oito livros, sendo sete destes o resultado dos Encontros de Musicologia Histórica – congresso bienal realizado dentro do festival e que é um dos mais conceituados do gênero nos meios acadêmicos.

Outros três festivais destacam-se nesse cenário por sua longevidade e seriedade de propósitos. Um deles é o Festival de Música de Londrina, que chega a sua 29ª edição com uma proposta musical abrangente e direção de Marco Antonio de Almeida. Outro é o Festival de Prados, criado e dirigido pelo maestro Olivier Toni. Toni, cujo papel fundamental que desempenhou na criação de escolas de música em São Paulo precisa ser melhor estudado, leva há mais de 30 anos jovens estudantes de música para ministrar aulas para a população da cidade. Estes jovens, que se dispõem a ensinar sem remuneração, ajudam o maestro a desenvolver o festival baseado em três frentes: primeiro os estudantes tocam para a cidade; em seguida realizam concertos junto com o pessoal da região, formando uma orquestra mista; e, finalmente, a população atua sozinha, regida pelos alunos.

O terceiro é provavelmente o mais antigo de todos os festivais em atividade no país: o Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, que este ano será realizado pela 41ª vez. Voltado para as artes em geral, ele leva para a cidade de Diamantina oficinas, cursos e eventos culturais variados. Neste ano realizará um interessante seminário voltado para artistas, produtores culturais e interessados na área. Intitulado “Perspectivas da cultura em um cenário de transformações”, o seminário tem por função discutir o próprio modelo do festival, criado em 1967 e que ao longo do tempo já reuniu artistas que mais tarde criariam grupos fundamentais na cena cultural contemporânea, como o Corpo (dança), o Galpão (teatro) e o Uakti (música).

Se todos estes são eventos com pelo menos vinte edições de existência, na última década pode-se dizer que houve uma verdadeira explosão de festivais de inverno, com a criação de novos eventos em São Paulo (festivais de Ourinhos, Bragança Paulista e Serra Negra), Rio de Janeiro (Vale do Café, Nova Friburgo e Petrópolis), Minas Gerais (Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes) e Rio Grande do Sul – que já contava com o tradicional Festival Internacional de Inverno da Universidade Federal de Santa Maria, realizado há mais de 20 anos, e que agora tem a segunda edição do Festival de Música de Câmara de Caxias do Sul.

Outra constatação animadora é perceber que existem iniciativas duradouras também no nordeste. Já vai para a 11ª edição o Festival Eleazar de Carvalho, criado e dirigido pela pianista Sonia Muniz em Fortaleza, no Ceará, na intenção de homenagear seu marido, o maestro Eleazar de Carvalho, falecido em 1996. E, este ano, ainda acontece em Pernambuco o I Festival Virtuosi de Gravatá – desdobramento da bem-sucedida iniciativa homônima que há onze anos acontece em Recife.

Fica para uma próxima oportunidade falar de uma tendência mais recente ainda, a dos festivais de verão. De qualquer maneira, está claro que muitas cidades perceberam que realizar festivais de música é um excelente chamariz para incrementar o turismo e movimentar a economia da região. Se, mais do que isso, tais eventos ainda promovem a difusão e o ensino de música, só se pode comemorar.

[Leia na edição de julho da Revista CONCERTO a cobertura completa dos festivais de música de inverno pelo país.]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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