Banner 468x60
Banner 180x60
Boa noite.
Sexta-Feira, 23 de Fevereiro de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
O que têm em comum a música e o romance (6/10/2009)
Por João Marcos Coelho

Um dos lançamentos editoriais mais importantes de 2009, sem dúvida, é o primeiro de cinco volumes da espantosa enciclopédia intitulada “O Romance”, coordenada pelo especialista italiano Franco Moretti e escrita por 178 pesquisadores de vários continentes. Ainda bem que uma editora brasileira, no caso a Cosac & Naify, dispôs-se a realizar uma refinada e rigorosa edição brasileira deste monumento. A cada semestre, os demais volumes serão lançados no Brasil, até o final de 2011.

Cada volume tem cerca de 1.100 páginas. Vocês me perguntarão por que estou falando de literatura se nosso assunto aqui música. Por um motivo simples. Já no primeiro e excepcional artigo, assinado pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, a música rondou minha cabeça. No título, a palavra romance pode tranquilamente ser substituída por “música”. Vejam só: “É possível pensar o mundo moderno sem o romance?”

Ele começa dizendo das feiras de livros onde senhores aproximam-se dele para pedir autógrafos “para minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura”. Vargas Llosa não se contém: “E eu lhe pergunto de imediato: e o senhor, não é? Não gosta de ler? A resposta chega pontual, quase sempre: ‘Bem, sim, é claro que gosto, mas eu sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é’”.

São as pessoas que não têm tempo disponível para gastar lendo um romance (ou ouvindo música, acrescento). Porque, como a literatura, a música exige que você se afaste de suas preocupações diárias e mergulhe no tempo dela.

Nesta cidade somos abraçados por constantes congestionamentos no trânsito – e talvez este seja o tempo disponível em que as pessoas ouvem rádio ou música. Com certeza, esta não é a melhor – talvez seja a pior – maneira de se ouvir música. Porque as interferências são tantas que fica impossível uma audição atenta.

Seguindo o raciocínio de Vargas Llosa, é esta “falta de tempo” que marginaliza a literatura (e a música). Mas ele grita bem alto que a literatura (e quando você ler literatura acrescente sempre música) “não é um passatempo de luxo”. E joga a pá de cal: “Estou convencido de que uma sociedade sem romances, ou na qual a literatura for relegada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida mais ou menos num culto sectário – essa sociedade está condenada a se barbarizar no plano espiritual e a pôr em risco a própria liberdade”.

Pois é a arte que nos coloca nus diante de nossas “verdades contraditórias”, expressão que o pensador Isaiah Berlin usa para dizer que é deste material contraditório que é feita a condição humana.

Aí Vargas Llosa diz que “nem mesmo os outros ramos das disciplinas humanistas – como a filosofia, a psicologia, a história ou as artes – puderam preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao profano, porque, por trás da pressão irresistível da cancerosa divisão e fragmentação do conhecimento, acabaram por sucumbir também às imposições da especialização, por isolar-se em territórios cada vez mais segmentados e técnicos, cujas ideias e linguagens estão fora do alcance da mulher e do homem comuns”.

Epa, este é um dos maiores riscos que corre a música contemporânea. Pois se as pessoas já dizem que “gosto de Beethoven” e logo esclarecem “mas não entendo nada de música”, a coisa fica preta mesmo quando se fala da música de hoje.

A responsabilidade por este estado de coisas está, de um lado, na forma como a música contemporânea é programada, já excluindo os chamados “leigos”; mas, de outro, os próprios compositores jamais pensam no público.

Esta é uma questão tão profunda e complexa que talvez seja melhor deixar para outra ocasião. Vale retomar Vargas Llosa e a notável citação que ele faz de Jorge Luis Borges quando lhe perguntaram “para que serve a literatura?”. Ele respondeu: “A ninguém ocorreria perguntar-se sobre qual é a utilidade do canto de um canário ou das cores do céu no crepúsculo”.

Derradeiro lembrete: os compositores contemporâneos deveriam lembrar-se de que ”o romance [e a música] não começa a existir quando nasce, por obra de um indivíduo; só existe realmente quando é adotado pelos outros e passa a fazer parte da vida social, quando se torna, graças à leitura [ou audição], experiência partilhada”.

“A Cultura do Romance” compõe-se de 62 ensaios; o de Vargas Llosa ocupa as primeiras doze das 1112 páginas deste livro maravilhoso.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

A Osesp, Villa-Lobos e o “voo de galinha” Por João Marcos Coelho (23/3/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 2 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 1 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Relativizações, realidades e transformações: um olhar sobre “A flauta mágica” do Theatro Municipal Por João Luiz Sampaio (23/12/2017)
A produção é boa, mas faltou mágica na “Flauta” do Municipal Por Nelson Rubens Kunze (23/12/2017)
O prazer de ouvir Neymar Dias – muito bachiano e muito brasileiro Por Irineu Franco Perpetuo (20/12/2017)
Uma temporada inclusiva, feita com inteligência Por João Marcos Coelho (19/12/2017)
Uma grande e despretensiosa sátira Por João Luiz Sampaio (8/12/2017)
A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi) Por Nelson Rubens Kunze (8/12/2017)
Museu virtual reúne milhares de instrumentos de coleções britânicas Por Camila Frésca (4/12/2017)
Karnal, a Osesp e o governador Por Nelson Rubens Kunze (24/11/2017)
Quem não trafega nas redes sociais se trumbica Por João Marcos Coelho (24/11/2017)
Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
Três óperas Por Jorge Coli (7/11/2017)
Convocação de OSs para Emesp, Guri e Conservatório de Tatuí reforça torniquete financeiro do governo Por Nelson Rubens Kunze (3/11/2017)
Para onde nos levará a onda de censura no país? Por João Marcos Coelho (31/10/2017)
Os quartetos de cordas e a reavaliação da obra de Villa-Lobos Por Camila Frésca (30/10/2017)
O Brahms profundo e espontâneo de Nelson Freire Por Irineu Franco Perpetuo (25/10/2017)
Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Fevereiro 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
28 29 30 31 1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 1 2 3
 

 
São Paulo:

23/2/2018 - Coro da Osesp

Rio de Janeiro:
25/2/2018 - Orquestra Petrobras Sinfônica

Outras Cidades:
23/2/2018 - Belo Horizonte, MG - Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046