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O que têm em comum a música e o romance (6/10/2009)
Por João Marcos Coelho

Um dos lançamentos editoriais mais importantes de 2009, sem dúvida, é o primeiro de cinco volumes da espantosa enciclopédia intitulada “O Romance”, coordenada pelo especialista italiano Franco Moretti e escrita por 178 pesquisadores de vários continentes. Ainda bem que uma editora brasileira, no caso a Cosac & Naify, dispôs-se a realizar uma refinada e rigorosa edição brasileira deste monumento. A cada semestre, os demais volumes serão lançados no Brasil, até o final de 2011.

Cada volume tem cerca de 1.100 páginas. Vocês me perguntarão por que estou falando de literatura se nosso assunto aqui música. Por um motivo simples. Já no primeiro e excepcional artigo, assinado pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, a música rondou minha cabeça. No título, a palavra romance pode tranquilamente ser substituída por “música”. Vejam só: “É possível pensar o mundo moderno sem o romance?”

Ele começa dizendo das feiras de livros onde senhores aproximam-se dele para pedir autógrafos “para minha mulher, ou minha filha, ou minha irmã, ou minha mãe; ela, ou elas, são grandes leitoras e são apaixonadas por literatura”. Vargas Llosa não se contém: “E eu lhe pergunto de imediato: e o senhor, não é? Não gosta de ler? A resposta chega pontual, quase sempre: ‘Bem, sim, é claro que gosto, mas eu sou uma pessoa muito ocupada, sabe como é’”.

São as pessoas que não têm tempo disponível para gastar lendo um romance (ou ouvindo música, acrescento). Porque, como a literatura, a música exige que você se afaste de suas preocupações diárias e mergulhe no tempo dela.

Nesta cidade somos abraçados por constantes congestionamentos no trânsito – e talvez este seja o tempo disponível em que as pessoas ouvem rádio ou música. Com certeza, esta não é a melhor – talvez seja a pior – maneira de se ouvir música. Porque as interferências são tantas que fica impossível uma audição atenta.

Seguindo o raciocínio de Vargas Llosa, é esta “falta de tempo” que marginaliza a literatura (e a música). Mas ele grita bem alto que a literatura (e quando você ler literatura acrescente sempre música) “não é um passatempo de luxo”. E joga a pá de cal: “Estou convencido de que uma sociedade sem romances, ou na qual a literatura for relegada, como certos vícios inconfessáveis, às margens da vida social e convertida mais ou menos num culto sectário – essa sociedade está condenada a se barbarizar no plano espiritual e a pôr em risco a própria liberdade”.

Pois é a arte que nos coloca nus diante de nossas “verdades contraditórias”, expressão que o pensador Isaiah Berlin usa para dizer que é deste material contraditório que é feita a condição humana.

Aí Vargas Llosa diz que “nem mesmo os outros ramos das disciplinas humanistas – como a filosofia, a psicologia, a história ou as artes – puderam preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao profano, porque, por trás da pressão irresistível da cancerosa divisão e fragmentação do conhecimento, acabaram por sucumbir também às imposições da especialização, por isolar-se em territórios cada vez mais segmentados e técnicos, cujas ideias e linguagens estão fora do alcance da mulher e do homem comuns”.

Epa, este é um dos maiores riscos que corre a música contemporânea. Pois se as pessoas já dizem que “gosto de Beethoven” e logo esclarecem “mas não entendo nada de música”, a coisa fica preta mesmo quando se fala da música de hoje.

A responsabilidade por este estado de coisas está, de um lado, na forma como a música contemporânea é programada, já excluindo os chamados “leigos”; mas, de outro, os próprios compositores jamais pensam no público.

Esta é uma questão tão profunda e complexa que talvez seja melhor deixar para outra ocasião. Vale retomar Vargas Llosa e a notável citação que ele faz de Jorge Luis Borges quando lhe perguntaram “para que serve a literatura?”. Ele respondeu: “A ninguém ocorreria perguntar-se sobre qual é a utilidade do canto de um canário ou das cores do céu no crepúsculo”.

Derradeiro lembrete: os compositores contemporâneos deveriam lembrar-se de que ”o romance [e a música] não começa a existir quando nasce, por obra de um indivíduo; só existe realmente quando é adotado pelos outros e passa a fazer parte da vida social, quando se torna, graças à leitura [ou audição], experiência partilhada”.

“A Cultura do Romance” compõe-se de 62 ensaios; o de Vargas Llosa ocupa as primeiras doze das 1112 páginas deste livro maravilhoso.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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