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Boas notícias abrem 2010 (10/3/2010)
Por João Marcos Coelho

O ano começou com algumas notícias muito positivas, que podem dar o tom a toda a temporada, tanto por aqui como internacionalmente.

Pouquíssimos entenderam quando noticiou-se que o pianista chinês Lang Lang deixou a Deutsche Grammophon após receber uma oferta milionária da Sony Classical. Por três milhões de dólares, ele trocou de gravadora – num momento em que bastante gente ligada ao universo da indústria musical já havia enterrado com pompa e circunstância as gravadoras. É bem possível que a Sony esteja de olho no fabuloso mercado de bilhões de consumidores chineses (mesmo que o país seja o paraíso da pirataria no planeta).

O jornalista inglês Norman Lebrecht – sempre ele, enfant terrible que anuncia há anos a morte da música clássica – publicou semanas atrás o volume de vendas que leva um artista a freqüentar a lista clássica dos mais vendidos da revista Billboard. A violinista Hilary Hahn, por exemplo, com menos de 500 cópias vendidas de seu CD, com concertos de Sibelius e Schoenberg, chegou ao topo dos dez mais vendidos. Uma piada. Na verdade, os maiores vendedores de discos clássicos – estou falando dos CDs físicos, e não dos downloads – raramente chegam aos cinco dígitos. Ou seja, é raro alguém passar das 10.000 cópias. Isso só acontece com superstars tipo Yo-Yo Ma (e ainda assim fazendo crossover).

Uai, mas a venda de CDs não é mais a fonte de renda dos músicos? Isso está mais do que claro. Até um cantor de jazz que ganhou o Grammy como Kurt Elling diz que jamais ganhou dinheiro com a venda de seus CDs – seu sustento advém dos shows. Com os músicos clássicos a história é rigorosamente a mesma.

E, em vez de nos lamuriarmos por isso, devemos é comemorar o fato de a música ao vivo ser a maior fonte de renda dos artistas clássicos – não só lá fora, como aqui.

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Finalmente, a música contemporânea deixa de ser o patinho feio da vida musical paulistana, graças à implantação – por concurso, como mandam as regras sadias e democráticas – de um grupo permanente dedicado à música de hoje.

Com o sugestivo nome de Camerata Aberta, os músicos farão seu concerto de estréia no próximo dia 31 de março, no SESC Vila Mariana. [Veja detalhes no Roteiro Musical]

Simon Rattle fez isso há pouco menos de 30 anos, em Birmingham. Além da orquestra sinfônica de formação tradicional, criou um grupo permanente – um corpo estável, como dizemos por aqui – dedicado apenas à música contemporânea.

A Camerata Aberta vai trabalhar em seu primeiro trimestre de atividades com o regente francês convidado Guillaume Bourgogne. Ele chega dia 15 para ensaiar com o grupo um repertório variado, que vai de Gérard Grisey a Iannis Xenakis. Entre eles, a inefável Arte da Fuga de Bach e dois compositores brasileiros vivos: Marisa Resende e Roberto Victorio.

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A Orquestra de Santo André retoma uma temporada muito interessante em 2010, pelas mãos competentes de Carlos Moreno. Há espaço, claro, para os tributos a Schumann e Chopin pela passagem dos 200 anos de nascimento. Mas o que mais me chamou a atenção foi a inclusão de sinfonias de Mahler e Bruckner – um saudável atrevimento.

Ao que tudo indica, Moreno fará de sua passagem por Santo André um período tão marcante quanto foi sua atuação à frente da Osusp.

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Termino com a maior notícia musical deste início de ano: o lançamento pelo selo Biscoito Fino do primeiro CD da Orkestra Rumpilezz (assim mesmo, com “k” e dois “z”), concebida em 2006 e liderada pelo maestro, compositor, arranjador e saxofonista Letieres Leite, em Salvador, Bahia. Nunca ouvi algo parecido: uma cerrada parede sonora de riquíssima percussão (cerca de dez percussionistas) e um batalhão de 20 sopros, em média.

Lembra o Olodum, mas também uma poderosa big band como a de Stan Kenton, por exemplo; lembra algumas passagens dos Choros do Villa; e não lembra ninguém quando se ouve a música com atenção. Opera uma miscigenação fantástica entre a percussão com a qual Villa-Lobos sonhou e a tradição metaleira das big bands norte-americanas. Mas é muito mais do que isso. Letieres funde a telúrica música baiana de caráter basicamente percussivo a roupagens harmônicas modernas.

As composições inspiram-se na cultura rítmica do centro de Salvador, nos toques de orixás da música sacra afrobaiana, em grandes agremiações percussivas, como o Ilê Aiyê, Olodum e em sambas do Recôncavo. O nome Rumpilezz é assim explicado por Letieres: “A Orkestra tem em seu nome a representatividade dos três atabaques do candomblé: o Rum, o Rumpi e o Lé, acrescido do ‘zz’ de Jazz”.

Fulgurante, maravilhoso – a melhor e mais surpreendente aventura musical brasileira de 2010. Não deixe de acessar o site www.rumpile.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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