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Jessye Norman, uma voz a serviço do jazz (30/10/2010)
Por Camila Frésca

“Acho que estar feliz comigo mesma e ter algo de novo para fazer é o que me mantém atuando”. Foi com essas palavras que Jessye Norman justificou as escolhas de seu último trabalho, o CD “Roots: my life, my song”, em recente entrevista para a revista Gramophone, publicada na edição de setembro da Revista CONCERTO. E foi a turnê desse tão comentado álbum que o público de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Paulínia pode conferir nos últimos dias. Baseados nas canções do disco (dedicado ao jazz e à música norte-americana), os recitais da cantora contaram apenas com o acompanhamento do pianista norte-americano Mark Markham. Na sexta-feira, dia 22, ela se apresentou no Teatro Bradesco, em São Paulo, para uma plateia que incluía artistas e políticos.

Jessye abriu a récita com Somewhere, canção de Bernstein para o musical West side story, mostrando uma voz um tanto frágil e cansada. Aos poucos, porém, não apenas a voz como todo o concerto foram se “aquecendo”, o que se refletiu inclusive na postura da artista – de início imóvel ao lado do piano e paulatinamente passando a se movimentar. Além de Bernstein, canções de Rodgers and Hammerstein, George Gershwin e Harold Arlen integraram a primeira parte, toda dedicada aos musicais.


Jessye Norman [Foto: divulgação]

Mas foi a segunda parte do programa que reservou o melhor da noite. No impactante spiritual Another man done gone, Mark Markham acompanhou Jessye pontuando ritmicamente a canção com murros pausados no piano. A canção foi dedicada a Odetta Holmes, cantora de folk. A partir daí, cada uma das peças homenageava um grande nome da música popular norte-americana. O destaque ficou para uma memorável versão de Summertime, de George Gershwin, que a artista dedicou a Ella Fitzgerald. O público que aprendeu a admirar a artista por sua excepcional carreira como soprano pode ter uma pequena centelha desse repertório com a Habanera, da ópera Carmen, que ela cantou no bis.

Talvez o que mais tenha chamado a atenção foi a forte presença cênica de Jessye Norman, com a segurança, desenvoltura e magnetismo que só os grandes artistas possuem. Como em alguns concertos na Europa, em São Paulo ela optou por utilizar um microfone, o que além de ser adequado ao tipo de música e tamanho do teatro em que cantou, permitiu que explorasse com maior tranquilidade o registro grave de sua voz. Se Jessye não improvisa como uma Ella ou Sara Vaughan, seu acabamento e sutileza em algumas frases é algo raro de se encontrar num artista popular. O que ficou patente, no entanto, foi sua alegria em interpretar esse repertório. Não por acaso, na mesma entrevista à Gramophone, ela declarou: “Quero fazer mais a música que Carmen McRae cantava. Quero olhar para a música e ver o que Billy Eckstine estava fazendo (...) Não é que eu não ame loucamente Wagner, Berlioz e o resto, mas estivemos juntos durante muito tempo, nosso casamento foi um sucesso e agora tenho outros namorados.”





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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