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2010: saldo positivo para a música clássica (27/12/2010)
Por Camila Frésca

Estamos nos despedindo de 2010 e, relembrando a temporada que se encerrou, tivemos de modo geral um grande ano para a música clássica em São Paulo e no Brasil. Claro que houve perdas importantes e problemas de várias ordens, mas quero me ater aqui ao que de bom aconteceu.

Mesmo enfrentando turbulências internas, a Osesp continuou garantindo ao público paulista alguns dos melhores concertos da temporada. Para citar apenas dois, vale lembrar a atuação histórica de Kristjan Järvi comandando a orquestra na Sagração da primavera, de Stravinsky (e que o colega Irineu Perpetuo comentou em artigo neste site – clique aqui) e, já em dezembro, a ótima performance do grupo acompanhando Nelson Freire num dia especialmente inspirado e brilhante. Outro recital memorável foi o do duo formado pela pianista Maria João Pires e o violoncelista Antonio Meneses, que tocou na Sala São Paulo e em Campos do Jordão. As atrações internacionais também foram muitas e de altíssimo nível: a Filarmônica de Munique sob regência de Zubin Mehta, o violinista Itzhak Perlman, a soprano Jessye Norman se reinventando num repertório de música popular, o violonista Pepe Romero, o violoncelista Yo-Yo Ma etc.

Porém o mais bacana é perceber que a qualidade dessa vida musical não esteve apenas em concertos protagonizados por uma pequena elite musical nacional ou então pelas grandes estrelas internacionais que por aqui aportaram. Ela também se refletiu em iniciativas múltiplas, que surgiram e/ou se consolidaram em diversas partes do país e que garantirão, num futuro próximo, um ambiente musical mais sólido e diversificado. Dentre as novidades está a Camerata Aberta, grupo dedicado à música contemporânea que abriu novas e estimulantes perspectivas de difusão desse repertório (e de seu modo específico de interpretação) no país, e as duas iniciativas ligadas à ópera: a criação da orquestra e da temporada lírica do Teatro São Pedro, em São Paulo, e da Cia. Brasileira de Ópera, capitaneada por John Neschling e que levou uma montagem moderna de O barbeiro de Sevilha a diversas cidades do Brasil, várias das quais nunca tinham recebido um espetáculo do gênero. De outro lado, é com entusiasmo que se acompanha a consolidação de um movimento de renovação e criação de orquestras num nível de qualidade até então raro por aqui. A partir do exemplo da Osesp outros conjuntos passaram a se mobilizar, oferecendo para sua população local um universo musical que para muitos era desconhecido. As sinfônicas de Sergipe, Espírito Santo e Mato Grosso são um exemplo dessa renovação, que tem na Filarmônica de Minas Gerais seu maior símbolo.

Se de um lado a música contemporânea conquistou um espaço importante com a Camerata Aberta, de outro a música antiga igualmente tem fincado bases sólidas. O trabalho pioneiro do Festival de Juiz de Fora espraiou seus resultados e hoje existe um Núcleo de Música Antiga na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), além de um trabalho de formação de intérpretes e difusão desse repertório que se consolida – o destaque do ano nessa área, aliás, foi o belíssimo disco do violoncelista Dimos Goudaroulis ao lado do cravista Nicolau de Figueiredo.

Para terminar, vale ainda mencionar o avanço que tem sido observado na área fundamental que é a formação musical. A já mencionada Emesp (antiga ULM) é um dos maiores exemplos nesse sentido e, ao lado do Conservatório de Tatuí – ambas iniciativas do governo do estado de São Paulo – tem sofrido profundas transformações que objetivam oferecer uma formação musical sólida e de alto nível. Na outra ponta, programas que combinam iniciação musical e inserção social estão se multiplicando pelo país e mostram-se cada vez mais conscientes da necessidade de priorizar a qualidade do ensino oferecido: Guri (SP), Música nas Escolas (Barra Mansa), Neojibá (Bahia), Instituto Baccarelli (São Paulo) e o recém-criado núcleo de educação musical em Paulínia são alguns dos exemplos.

Nem tudo são flores mas, diante de tantos bons acontecimentos, não há como não ter uma boa dose de otimismo sobre o futuro de nosso ambiente musical. Um ótimo 2011 para todos!





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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