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Roberto Carlos, Maria Bethânia e Virada Cultural. São tantas as emoções!! (23/3/2011)
Por João Marcos Coelho

Certos fatos volta e meia retornam travestidos de um ou outro jeito e teimam em escancarar a ausência total de bom senso na condução de uma política cultural no país. O mais ruidoso acontecimento da semana passada foi o anúncio de que o Ministério da Cultura aprovou o projeto de um blog de poesia da cantora Maria Bethânia, no valor de R$ 1,3 milhão. Isso quer dizer que dinheiro público (via incentivos fiscais) será injetado num blog para Bethânia recitar poemas. Dizem que só ela embolsaria R$ 600.000,00 pelo trabalho.

É difícil acreditar que a chamada cultura de massa, já comercialmente viabilizada por natureza, ainda é contemplada com incentivos fiscais. Bem, até que isso não é novidade. Roberto Carlos e várias de suas centenas, milhares de turnês de ‘emoções’ receberam incentivos fiscais. Não sei, mas o Rock in Rio também deve ter se candidatado a recursos incentivados.


Roberto Carlos e Maria Bethânia [Fotos: divulgação]

Acreditem, não é fácil convencer as pessoas, mesmo as de bom senso e boa vontade, a concordar com o argumento de que o rei, a cantora baiana e o Rock in Rio já são viabilizados comercialmente, e portanto não necessitariam de nenhum incentivo fiscal às custas, portanto, dos contribuintes. Eles acham que eles também são filhos de Deus, e não podem ser discriminados. Quando a Lei Rouanet ainda se chamava Lei Sarney (sim, crianças, o bardo da Academia de Letras foi o primeiro patrono da lei de incentivos fiscais), um editor do Paraná abiscoitou generosas verbas incentivadas para editar aqueles livrinhos pornográficos que fizeram a glória de Carlos Zéfiro.

A mesma distorção permanece, só que agora é menos esculachada. Num quadro desses, imagine como ficam a música nova e os compositores contemporâneos eruditos, que em definitivo não têm vida fácil. Quem encomendará obras a estes criadores ou patrocinará concertos e festivais? Não as empresas, certamente. Apenas as orquestras, Funarte, instituições oficiais. E assim, sim, as verbas do Ministério da Cultura seriam bem empregadas.
A novidade é que não nos horrorizamos mais com isso. Passou a ser banal,  justificado até. A ponto de quem investe contra estas distorções ser acusado de elitista, ora vejam!

Outra insensatez que já se consolidou na vida musical é a chamada Virada Cultural. Inventada por um secretário municipal de Cultura de São Paulo preocupado em mostrar que leva arte e cultura a milhões de paulistanos, ela vai acontecer de novo em 16 e 17 de abril próximo. Dezenas de palcos serão montados  em toda a cidade, sonolentos músicos e cantores se apresentarão por 48 horas – incluindo as madrugadas – para o chamado grande público. É o tipo de megaevento que só serve para os relatórios finais de gestão. A meta é esfregar na cara da oposição que conseguiu atingir tantos milhões de pessoas. A arte, a cultura – elas que se lixem. Com as imensas verbas investidas nestas viradas culturais seria possível botar em ordem instituições culturais permanentes da cidade. Mas a quem isso interessa? Aos músicos, aos artistas, à população, certamente. Mas não a quem só olha números.

A distorção na prática das políticas culturais deve-se a uma deliberada e perversa confusão acaciana que se teima em estabelecer. O que é bom deve ser para todos; portanto, se não é para todos, não é bom. De tanto repetir as mentiras, já dizia Goebbels, autor do primeiro mandamento da propaganda, elas se transformam em verdades.

Do jeito que as coisas vão, ainda teremos que acreditar que o MinC deve mesmo autorizar a concessão de incentivos para os projetos de Roberto Carlos e suas emoções e Maria Bethânia recitando poemas. E vibrar com o amontoado de centenas de apresentações desconexas da virada cultural, que consome uma verba astronômica e nada deixa em termos permanentes – só os cachezinhos que os músicos embolsam. Será que um dia isso muda?  Rsrsrsrsrsrsrsrs, como dizem os twiteiros.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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