Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Domingo, 25 de Junho de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes


 
 
 
A crítica e a responsabilidade de julgar (7/4/2011)
Por Camila Frésca

Não é de hoje que, vez ou outra, se travam discussões sobre a validade e importância da crítica. Grosso modo, o crítico serve como um difusor da obra que se propõe a julgar, além de lançar debates no ambiente cultural por meio de sua avaliação; ao mesmo tempo, estabelece uma ponte entre o artista e o público, contextualizando e analisando o objeto artístico.

Muitas vezes o crítico é também figura atuante do outro lado da trincheira, ou seja, além de avaliar obras alheias ele próprio é um criador – para ficarmos apenas num exemplo, basta lembrar de Schumann, que paralelamente às atividades de compositor desempenhou importante papel na crítica musical de sua época. Para pessoas cujo trabalho envolve de alguma forma o universo artístico, seja como intérprete, compositor, pesquisador ou escritor, ter um canal aberto para o diálogo e no qual é possível exprimir suas opiniões não deixa de ser um privilégio.

Dada a natureza fugaz da atividade jornalística – sem falar da própria vida contemporânea, com suas muitas demandas e tempo sempre insuficiente para pensar, checar ou refletir – é preciso cautela e responsabilidade para não ser leviano ou injusto no julgamento do trabalho alheio. Como então deve trabalhar um crítico? Que critérios deve utilizar para sua avaliação? O filósofo empirista escocês David Hume (1711-1776), ferrenho crítico do racionalismo, foi um dos primeiros a pensar, já no século XVIII, no papel do crítico de arte.

Claro que suas ideias devem ser vistas com distanciamento histórico e à luz das discussões de sua época, mas mesmo sem esses elementos em mãos (ou na cabeça) creio que elas interessam a todos que trabalham com crítica de arte. No texto “Do padrão do gosto”* Hume parte da constatação de que existe uma enorme diversidade de gostos no mundo e, mesmo que os homens compartilhem as mesmas ideias e sentimentos gerais, eles acabam divergindo no que se refere à beleza (lembremo-nos que, até o modernismo, a beleza é um quesito imprescindível para se julgar a arte).

Apesar de toda a diversidade de gostos, no entanto, existem, para Hume, certos parâmetros, certos princípios gerais de aprovação ou censura que fazem com que a maioria das pessoas saiba distinguir, por exemplo, um autor ruim de outro bom. Um desses parâmetros seria a experiência histórica, ou seja, o que resistiu aos julgamentos e persistiu no gosto do público através dos tempos. Outro é a “delicadeza da imaginação”, necessária para ser sensível às emoções mais sutis. Embora haja diferença no nível de delicadeza de cada pessoa, Hume explica que este talento pode ser desenvolvido praticando-se alguma arte ou “contemplando alguma espécie de beleza”.

Também a análise e a comparação ajudariam o crítico a identificar uma obra de qualidade. Segundo o filósofo, a primeira visão de qualquer obra é sempre acompanhada de confusão e, por outro lado, há uma espécie de beleza artificial que pode nos agradar numa primeira vista, mas que com um olhar mais atento “mostra-se inferior”. Por isso, é necessário examinar mais de uma vez cada produção, estudando-a sob diversos aspectos e estabelecendo comparações. Outro parâmetro importante para o crítico é “conservar seu espírito acima de todo o preconceito, nada levando em consideração a não ser o próprio objeto submetido a sua apreciação”.

Conforme bem nota Hume, a maioria dos homens não possui todas as características necessárias para ser um bom crítico e por isso “o verdadeiro juiz das belas artes, mesmo nas épocas mais cultas, é um ser raro”, assegura. Em outras palavras: “Só o bom senso, ligado à delicadeza do sentimento, melhorado pela prática, aperfeiçoado pela comparação e liberto de todo o preconceito, é capaz de conferir aos críticos esta valiosa personalidade, e o veredicto conjunto dos que a possuem, seja onde for que se encontrem, é o verdadeiro padrão do gosto e da beleza. Assim, não é possível por no mesmo nível o gosto de todos os indivíduos; alguns homens, por raros que sejam e difíceis de identificar, devem ser reconhecidos pela opinião universal como merecedores de preferência, acima dos outros”. Haja responsabilidade!

* As ideias de Hume apresentadas neste texto (com e sem aspas) foram retiradas do ensaio “Do padrão do gosto”, presente no volume dedicado ao filósofo da coleção Os pensadores (Editora nova Cultural, 1999)





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

Mais Textos

Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
Noites memoráveis com Isabelle Faust e Alexander Melnikov Por Camila Frésca (18/5/2017)
Com Faust e Volmer, a Osesp chega à excelência Por Irineu Franco Perpetuo (16/5/2017)
Foi um esplendor, mas... Por Jorge Coli (16/5/2017)
Perdas e danos (Santa Marcelina incorpora Theatro São Pedro) Por Nelson Rubens Kunze (9/5/2017)
Pesquisa do Projeto Guri mostra resultados importantes Por Camila Frésca (3/5/2017)
Diana Damrau, uma artista de mais de 50 tons Por Irineu Franco Perpetuo (2/5/2017)
E Cristian Budu, finalmente, tocou com a Osesp! Por Irineu Franco Perpetuo (21/4/2017)
Olivier Toni Por João Marcos Coelho (20/4/2017)
“Uirapuru”, de Villa-Lobos: algumas considerações no centenário da obra Por Camila Frésca (12/4/2017)
Nasce uma estrela Por Jorge Coli (11/4/2017)
A festa do Concurso Maria Callas: competência e amor à música Por Jorge Coli (4/4/2017)
Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta “Jenufa”, de Janácek Por Nelson Rubens Kunze (4/4/2017)
“Risco” é vibrante imagem artística da cidade de São Paulo Por Jorge Coli (29/3/2017)
Quanto custa uma orquestra sinfônica? Por Nelson Rubens Kunze (28/3/2017)
De palmeiras e pinheirinhos nórdicos Por João Marcos Coelho (24/3/2017)
Opes abre temporada clássica no Theatro Municipal do Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (23/3/2017)
Sombra de sombra – a estreia da ópera “O espelho” Por João Luiz Sampaio (22/3/2017)
Helder Parente, talento infinito Por Rosana Lanzelotte (21/3/2017)
Trio Villani-Côrtes faz uma ótima estreia com “Três tons brasileiros” Por Camila Frésca (14/3/2017)
O valor da música (e a responsabilidade do Estado) Por Nelson Rubens Kunze (5/3/2017)
Um Brasil diferente ainda é possível Por João Marcos Coelho (22/2/2017)
Em clima de festa, Theatro Municipal de São Paulo abre ano com bom concerto Por Nelson Rubens Kunze (22/2/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Junho 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
28 29 30 31 1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 1
 

 
São Paulo:

25/6/2017 - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Rio de Janeiro:
26/6/2017 - VI Semana Internacional de Música de Câmara

Outras Cidades:
28/6/2017 - Natal, RN - Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046