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Outros relacionamentos geniais (29/4/2011)
Por Camila Frésca

Algum tempo atrás, num artigo para a Revista CONCERTO (que você pode ler aqui ) tratei da curiosa história de como Mário de Andrade havia “encomendado” a Villa-Lobos as Cirandas, um dos mais importantes ciclos de obras do compositor. Segundo Mário relata em carta a sua aluna Oneyda Alvarenga, ele se utilizou do artifício de elogiar obras de um compositor obscuro para despertar o ciúme e vaidade de Villa, estimulando-o a compor algo semelhante. Vale a pena seguir nessa história, agora abordando outros personagens.

Na verdade, tal iniciativa fazia parte de um amplo projeto de criação de uma música erudita nacional, cujas características específicas fariam com que fosse reconhecida em qualquer parte como “brasileira”. Este foi provavelmente o mais ambicioso projeto de Mário de Andrade, no qual depositou anos de trabalho e energia. Seus principais pressupostos foram publicados em 1928 no livro Ensaio sobre a música brasileira, espécie de manifesto em que Mário explicita seu projeto nacionalista e que teve grande repercussão no meio musical desde então. Numa das passagens mais célebres, ele afirma: “todo artista brasileiro que no momento atual fizer arte brasileira é um ser eficiente como valor humano. O que fizer arte internacional ou estrangeira, se não for gênio é um inútil, um nulo. E é uma reverendíssima besta”.


Camargo Guarnieri [Foto: divulgação]

Além de Villa-Lobos, Mário de Andrade também estava de olho na produção de outros dois compositores dentre os mais importantes de sua época: Camargo Guarnieri e Francisco Mignone. Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993) foi provavelmente o mais fiel seguidor das ideias de Mário. É em 1928, mesmo ano da publicação do famoso Ensaio que um jovem Guarnieri, então com 21 anos, conhece o escritor. Ao mostrar a ele suas composições Dança brasileira e Canção sertaneja, Mário teria dito – segundo o próprio compositor em depoimento feito muitos anos mais tarde: “Encontrei o que estava procurando”. Verdadeira ou não, a ideia presente na sentença é que Mário viu em Guarnieri alguém capaz de por em prática muito do que tinha idealizado. Tornaram-se mais que amigos; segundo Guarnieri, Mário era quase como um outro pai, além de seu mentor intelectual – o compositor, que tinha tido pouco estudo formal, dizia que havia frequentado a “Universidade Mário de Andrade”, referindo-se às constantes reuniões na casa do amigo. Quando teve seu primeiro filho, deu-lhe o nome de Mário, em homenagem ao mestre.

E Mário de Andrade, de fato, além de emprestar livros e colaborar para uma melhor formação cultural de Guarnieri, foi um orientador constante e atento, que não cansava de aconselhar o pupilo. Guarnieri adquiriu fama de ser “músico difícil”, de escrita sofisticada, que não agradava facilmente. O próprio compositor afirmava e concordava com isso: “Sempre que escutam algum trabalho meu, uma certa frieza perdura no entusiasmo dos ouvintes. A reação provocada em mim por isso se justifica pelo meu comportamento interior, julgando, ou melhor, justificando sempre que o público não está na altura de minha música. Naturalmente é o ser artista que assim age. Ao mesmo tempo o ser homem, vaidoso, não fica contente e uma certa tristeza quase toma conta de mim” (em carta escrita a Mário de Andrade em 1940). Anos antes, também por carta, Mário já alertava Guarnieri para o fato: “você, sua própria essência psicológica, é de um escritor difícil, um compositor sem grandes faculdades de amabilidade, que agradem a toda a gente [...] você tem o horror do agradável, por causa desse perigo do agradável que é se confundir com o banal. Está muito bem, esse horror, antes o medo do agradável é mais que justo e nobilita um artista. Mas o diabo é que o horror do agradável está se tornando preconceito, e se transformando na mania do desagradável, o que é o mal oposto ao da banalidade, mas é tão detestável como ela.”

Conforme observou o pesquisador Arnaldo Contier, para não magoar ou criar inimigos entre os artistas capazes de concretizar o “programa modernista”, Mário sempre procurava atenuar suas críticas mais ácidas através da inclusão, nos seus artigos, de frases onde procurava enfatizar a “genialidade” do compositor. Em carta envida a Camargo Guarnieri em 22 de agosto de 1934, o mestre critica o “desleixo formalístico” do músico, sem deixar porém de exaltar suas qualidades: “suas peças instrumentais pra piano são todas um dormir na rede duma forma já estereotipada que você jamais se preocupou em transformar. Um eterno ABA que está na Canção sertaneja, como na Toada ou na Dança selvagem. Pra você um allegro de sonata tem que ter a forma fixa, e nem ao menos você se amola em sutilizá-la, transformá-la, de forma que, sendo a mesma de todos, tenha a modalidade sua. Deus me livre, Camargo Guarnieri, de negar que dentro dessas formas estereotipadas você não tenha composto coisas admiráveis. Tem, eu sei, e você sabe que ninguém admira melhor você do que eu [...] E é por isso mesmo que me constituí antipaticamente em advogado do diabo nestas cartas, atacando, destruindo, atenazando, desconsolidando, maltratando, evidenciando os males mais do que eles são [...] Portanto não pense nunca que estas cartas negam valor a você, pelo contrário afirmam seu valor”.

Num próximo artigo, abordarei as relações de Mário de Andrade com Francisco Mignone.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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