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O amor por uma frase musical (25/11/2011)
Por João Marcos Coelho

Como nasce e se desenvolve o amor por uma frase musical?

O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) responde, num caderno de esboços escritos em 1910 de seu monumental ciclo de sete romances Em busca do tempo perdido:

“Pois uma frase musical, mais do que qualquer outra coisa no mundo – pode-se quase perguntar se ela não é a única a acontecer com amor – propõe um desejo, uma felicidade, uma volúpia que lhe é particular, que ela nos indica misteriosamente, mas nos faz por outro lado sentir suficientemente, e que não pode ser preenchido senão por ela.
Enquanto ela se desenvolve, nossa volúpia se determina, o caminho que ela nos mostra se define. O segundo e o terceiro passo misteriosamente comandados pelo elã do começo bastam para nos prometer a mais nobre, a mais calma das felicidades (embora estes superlativos e estas expressões gerais não possam servir para algo que é tão particular a uma frase que tem o charme de uma nova mulher pela qual nos apaixonamos). Assim, a invisível estrangeira nos conduz na obscuridade.
Mas no terceiro passo, no momento em que acreditamos que tudo vai dar certo, eis que nos abrem uma inesperada porta, que desamarra nosso prazer e nos faz mergulhar num mundo novo como uma criança que come uma batata mas, percebendo que está comendo a batata entre os seios de uma mulher, vê seu calmo prazer guloso transformar-se em outro prazer, oblíquo e enervante. Mas o prazer sexual, e a gulodice, e a bebedeira, e os perfumes proporcionam prazeres fixos que são sempre os mesmos. O mundo que nos abre cada bela frase musical só pertence a esta frase”.

Li pela primeira vez estas incríveis reflexões que tocam fundo a essência da relação entre nós e a música num livrinho precioso intitulado Proust Musicien do musicólogo franco-canadense Jean-Jacques Nattiez (Ed. Christian Bourgois, Paris, 1999).

Pois topei de novo há pouco com a inigualável musicalidade da escrita de Proust – expressa na famosa “pequena frase da sonata de Vinteuil” – na interessantíssima versão em quadrinhos de No caminho de Swann em dois livros em formato grande, com 52 páginas cada um, com o título geral Um amor de Swann I e II.

Obra-prima da literatura do século 20, o ciclo completo de Em busca do tempo perdido é composto por sete romances: No caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor, O caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A prisioneira, A fugitiva e O tempo redescoberto ou O tempo recuperado. Desde 2003 a Editora Zahar vem lançando esta inacreditavelmente bem-sucedida versão em quadrinhos por Stéphane Heuet. Ele não muda os textos. Permite assim ao leitor brasileiro – e penso sobretudo nas crianças e adolescentes, mas também em nós adultos – um contato direto com esta obra cujo original praticamente alcança as 4.000 páginas. No final do volume, há informações, curiosidades e notas ilustradas que fornecem referências para a leitura. Nas páginas 2 e 3 o retrato dos personagens e um mapa de Paris localizando as casas de Odette de Crécy, Charles Swann e dos Verdurin, L’Opéra e L’Opéra-Comique. É, portanto, uma degustação ideal – dá água na boca de vontade de ir ao original.

Vinteuil é um compositor fictício, “à la clef” [claramente, remete a um compositor seu contemporâneo de carne e osso], criado por Proust para assinar esta sonata para violino e piano que enfeitiça Swann – e é lembrada nos sete romances. Mas quem seria este Vinteuil? Hoje é consensual que  ele é César Franck (1822-1890), e a obra é sua famosa Sonata para violino e piano. Há motivo para Proust encantar-se com Franck, um criador que fez da estrutura cíclica o seu modo de escrever música. Ou seja, ele expõe um tema, que, apresentado no início de sua obra, é devidamente ruminado, variado, explorado, nos demais movimentos. Uma postura em tudo parecida com a de Proust ruminando o passado enquanto saboreia uma de suas famosas madeleines (Proust não; seus personagens, claro).

Numa carta de 1895, portanto antes do início do ciclo de Em busca do tempo perdido, que escreveu entre 1908 e sua morte em 1922, Proust é certeiro ao apontar o caráter único da música em relação às demais artes:

“A essência da música é despertar em nós um fundo misterioso de nossa alma, que começa onde o finito e onde a ciência param, e que se pode chamar por isso mesmo de religioso. Este fundo é igualmente inexprimível em literatura e também em todos os modos de expressão finitos, que se servem ou de palavras, ou de objetos determinados – como a pintura e a escultura.”

Erótica, religiosa, fascinante. A música é tudo isso e mais alguma coisa. Delicie-se com as páginas 36 e 37, aqui reproduzidas, de Um amor de Swann II. O livro, da Zahar, tem ótima tradução de André Telles e custa R$ 39,00.


Fac simile de Um amor de Swann II, pg 36.


Fac simile de Um amor de Swann II, pg 37.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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