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Ainda faz sentido tocar 4’33”? (17/10/2012)
Por João Marcos Coelho

A ideia de John Cage quando compôs a não-música 4’33” era abrir a mente para o fato de que todos os sons são música, tanto os intencionais, tocados pelos intérpretes, quanto os não-intencionais, formados pelos ruídos ambientes, tanto naturais quanto das pessoas. Numa gravação de 4’33” de 2004, por exemplo, o público aguardou o sinal de que o movimento havia terminado para, como sempre, tossir à vontade. Cage transfere a performance do palco para a plateia, e o silêncio da plateia para o palco – esta é a grande sacada. Obriga a nós, público, a prestarmos atenção em outros sons, nos que nos rodeiam e que normalmente passam desapercebidos.

Mas esta é uma daquelas obras que não resistem à repetida execução, como acontece com as obras musicais convencionais. E talvez aí esteja a sua maior qualidade – a impossibilidade de repeti-la com o mesmo impacto. Por isso, fiquei indignado quando Kyle Gann, autor de um livro sobre 4’33”, elaborou uma discografia da peça com 24 gravações, de instrumentistas solo a grupos e até orquestras. Lixo e hipocrisia juntos.

Pra mim, isso não faz o menor sentido. Como também não faz nenhum sentido a Orquestra Sinfônica Brasileira “homenagear” o centenário de nascimento de Cage “interpretando” a obra em seu concerto na Sala São Paulo no próximo domingo. O impacto que ela um dia provocou já se dissipou há muito tempo. Por que não executar outras obras orquestrais de Cage, como Etcetera, 108 para grande orquestra. Ou mesmo o Concerto para piano preparado e orquestra de câmara, uma obra interessantíssima que você pode assistir aqui no Site CONCERTO [clique aqui], numa interpretação excelente do pianista John Tilbury, ao lado da Orquestra da BBC Escocesa, em concerto no último dia 17 de agosto no Royal Albert Hall, dentro do Festival Proms-2012?

Hoje em dia, 4’33" só se justifica se for transfigurada. Como fez o artista plástico norte-americano Jonathon Keats, de 41 anos: lançou um ringtone para celular intitulado 4’33". Kyle Gann, em seu ótimo livro sobre Cage, que recomendo ($13,20 em ebook kindle da http://www.amazon.com/), relata que Keats escreveu o seguinte para vender o seu (dele) peixe: “Desde o início dos tempos, o puro silêncio só foi possível no vacuum do espaço. Agora Keats gerou digitalmente o silêncio puro, 4 minutos e 33 segundos, que você pode ter no seu celular. Este ringtone silencioso espera trazer silêncio à vida de milhões de usuários de celulares, assim como às pessoas que estão próximas deles”. Mesmo depois de saber de quem é a peça e qual o seu significado, Keats não perdeu o rebolado: “Ele tentou criar um interlúdio de silêncio – e falhou. É compreensível. Cage viveu numa era analógica”.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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