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Moda também é cultura (22/8/2013)
Por João Marcos Coelho

Ganha uma roupitcha nova, novíssima, quem souber o que significa uma “mostra” de “artefatos artísticos”... Quem deveria presentear os que responderem corretamente a pergunta é a ministra da Cultura (!?) Martha “relaxa-e-goza” Suplicy. Ela desautorizou a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (Cnic) do Ministério, que indeferiu o projeto do estilista de moda Pedro Lourenço para captar, via Lei Rouanet, patrocínio para um desfile que ele irá fazer em Paris em 2014. Ele chama suas “criações” de “artefatos artísticos”.

O projeto foi autorizado esta semana, por medida da ministra, a captar R$ 2,8 milhões – isso é dinheiro público, que está sendo usado para desfile de moda. Me esforço para manter uma certa civilidade, mas é o fim da picada botar dinheiro público nisso. Os jornais, aos poucos, destrincham razões menos nobres para a ministra peitar a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura: a empresa que apresentou o projeto ao MinC  é de Disney Rezende, produtora que atua como consultora do próprio ministério no setor de moda. Sarney, Renan & outros estão fazendo escola. Na maior cara de pau, a produtora/consultora disse que não há conflito de interesse em entrevista à Folha de S. Paulo: "Não há problema algum nisso. Qualquer um pode propor. A lei garante desenvolvimento cultural considerando as diferentes linguagens artísticas".


Pedro Lourenço, Jorge & Mateus e Martha Suplicy [Imagens: divulgação]

Atenção: ela disse “diferentes linguagens artísticas”. Já não chega o neonacionalismo bossanovista da Osesp e agora também Martha Suplicy entra na onda da geleia geral. Por suas declarações, acho que ela pensa que está no Ministério do Trabalho: "O Brasil luta há muito tempo para se introduzir e ter uma imagem forte na moda internacional. Essa oportunidade tem como consequência o incremento das confecções e gera empregos. E é um extraordinário 'soft power' no imaginário de um Brasil glamuroso e atraente".

“Brasil glamuroso”, “gera empregos”, pera aí. Jô Soares criou em passado remoto um personagem que entrou em coma numa UTI  quando vivíamos numa ditadura; lá permaneceu por 20 anos e de repente volta à consciência. A realidade está tão pior do que era que ele só pede “bota o tubo de novo”.

Alguém aí mais otimista pode dizer: é exceção, no geral a lei de incentivos funciona direitinho. Direitinho uma ova! Em março passado, a dupla sertaneja Jorge & Mateus ganhou autorização do Ministério da Cultura de Martha para captar 4,3 milhões de reais para... “produção e divulgação da dupla”. Não é nem para shows propriamente ditos, é só pra divulgá-los. Tadinhos, né? Eles andam de jatinho próprio, estão milionários – e ainda pegam uma migalha de 4,3 milhões só para divulgação.

Até gente decente como a Maria Bethânia entra nessa. Lembram-se do projeto de alguns milhões de reais aprovado pelo MinC pra diva do carcará recitar poemas de Fernando Pessoa?

Pois as coisas no universo da cultura oficial andam tão ruins, que o projeto da Bethânia soa até legal diante de desfiles de moda e injeção de dinheiro na divulgação de duplas sertanejas.

Querem saber de uma coisa? O melhor é seguir o mantra da ministra da Cultura: “Relaxa e goza”.


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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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