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Mirem-se no exemplo de Valery Gergiev (28/8/2008)
Por João Marcos Coelho

Há uma semana, na quinta-feira passada, o maestro russo Valery Gergiev, 55 anos, regeu um concerto na cidade de Tskhinvali, na Nova Ossétia, epicentro da guerra entre a Geórgia e a Rússia - que terminou com uma brutal invasão do exército russo e tomada da região -, que tem sido notícia diariamente nos jornais, rádios e telejornais de todo o mundo. A diplomacia norte-americana está se cansando de reclamar e já está concentrando porta-aviões e outros equipamentos bélicos naquela região; a Rússia de Putin comemora candidamente a "vitória".

Gergiev é o queridinho atual da mídia internacional no reino da batuta. E permitiu-se um gesto mais que ousado - ousadíssimo. Escolheu para aquele concerto a Sétima Sinfonia de Shostakovich, e deixou claro que fez isso porque queria comemorar a vitória russa na Ossétia. Ele é ossétio. É também amigo íntimo do todo-poderoso Vladimir Putin (ele é padrinho dos filhos de Putin, e vice-versa). Graças ao apoio político e pessoal de Putin, Gergiev transformou, na era pós-soviética, a orquestra e a ópera do Teatro Mariinski de São Petersburgo em um dos "hits" mundiais da música e da ópera.

Analogias quase sempre são perigosas. Em geral esbarram na manipulação ideológica grosseira. Ainda mais neste caso, em que o momento atual na Ossétia tem pouco a ver com as condições históricas e políticas em que nasceu a Sétima Sinfonia - apelidada "Leningrado". Shostakovich compôs a obra durante os nove meses em que a cidade ficou sitiada pelos nazistas, em situação-limite, e acabou rechaçando o exército inimigo à custa de centenas de milhares de mortos. Foi um grito de vitória inteiramente diferente deste que agora entoa Gergiev. Não há um conflito global. Nem houve muita negociação. À Geórgia só resta recorrer ao "jus esperneandi", pois não tem a menor condição militar de resistir.

Enalteça-se, porém, a coragem de Gergiev - atual titular da Orquestra Sinfônica de Londres e principal maestro convidado da Metropolitan Opera House de Nova York -, mesmo que isso lhe custe antipatia e hostilidade no Ocidente, sobretudo junto ao establishment norte-americano.

O curioso é que Gergiev é figura-chave de um DVD lançado no mercado internacional há três anos, intitulado "Shostakovich contra Stálin" (DVD Decca, com legendas em alemão, italiano, francês, inglês e espanhol). São 78 minutos de fúria raivosa contra o ditador soviético, com destaque enorme à Sinfonia Leningrado de Shostakovich. Ora, se não chega aos exageros estalinistas, Putin pratica um governo que conserva muitas afinidades com o antigo Estado soviético (as "democracias" russa e chinesa, aliás, são muito parecidas).

O fato é que a música presta-se a todo tipo de manipulação. Há aquelas muito belas - como a de Leonard Bernstein substituindo a palavra "alegria" da "Ode à Alegria" da Nona Sinfonia por "liberdade" na histórica execução da obra aos pés do derrubado muro de Berlim, em 1989. Mas também há as detestáveis - como os nazistas substituindo os textos bíblicos dos corais dos oratórios de Haendel por letras laudativas ao III Reich. Você pode ou não concordar com Valery Gergiev. Musicalmente, ele estar do lado dos russos ou dos georgianos não faz a menor diferença. Ele permanece um músico de exceção. Mas o mais importante desta questão é que muitos músicos andam tomando posições em questões que afetam a sociedade como um todo - e não exclusivamente por interesses pessoais. Isso é muito saudável. Músico também é gente.

Pena que por aqui nunca se veja nenhum gesto, nem contra nem a favor de nada. Muito pelo contrário. Todos os profissionais ligados à música - com raras exceções - só se manifestam para defender interesses pessoais. A música, no Brasil, infelizmente, ainda é refém de projetos personalistas. Mesmo quando obtêm pleno sucesso, os projetos permanecem individualizados. A conseqüência mais óbvia é a seguinte: o dirigente que sucede o parteiro original do projeto não quer colocar azeitona na empada do antecessor. E reinventa a roda. Os exemplos são tantos que acho que não preciso me dar ao trabalho de citá-los. Você músico, ou você público já deve ter passado por isso.

A música precisa assumir seu papel de dignificar, de "transfigurar" o homem, como escreveu Susan Sontag. E isso só se consegue quando músicos e compositores miram, antes das picuinhas pessoais, a vida musical e não se omitem. Mirem-se, portanto, no exemplo de Gergiev, que afirma sua etnia ossétia, mesmo que isto lhe custe milhões de dólares em prejuízos no Ocidente.

 

P.S.: Existe uma caixa com 5 CDs, intitulada "Shostakovich: War Symphonies" (Philips), onde Gergiev rege a Orquestra do Teatro Mariinsky e a Orquestra de Rotterdam nas Sinfonias 4 a 9. Ossétia à parte, Gergiev merece a babação de ovo que o mercado internacional lhe rende. Ele é mesmo um maestro excepcional.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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