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Música e fantasia. La Fura dels Baus e Respighi no TMSP (21/2/2014)
Por Jorge Coli

Grande sucesso de público, a Trilogia Romana, de Respighi, associada às invenções visuais de La Fura dels Baus, oferecida no Municipal de São Paulo. A tal ponto que uma apresentação suplementar foi necessária para satisfazer a demanda do público.

A obra de Respighi evoca festas, fontes, e bosques de pinheiros em Roma. Suscita, portanto, uma visualização imaginária, é expressiva na pintura de paisagens, e mesmo que não se saiba qual é tal festa, tal fonte ou tais pinheiros; mesmo que não se pense em fontes, festas, ou pinheiros; as sonoridades suscitam cores, cenários, situações em nossa mente.

Mário de Andrade escreveu um longo estudo sobre o filme de animação Fantasia, de Walt Disney, datado de 1940. Nele, Leopold Stokovski rege a Orquestra de Filadélfia, e às composições, que iam da Sagração da primavera a Dança das horas, associavam-se a imagens concebidas livremente, sem relação necessária com os princípios inspiradores das obras. Por exemplo, a Sagração da primavera vinha acompanhada por uma concepção épica e evolucionista, atingindo seu apogeu com a extinção dos dinossauros.


Imagem do espetáculo Trilogia romana, de La Fura dels Baus [fotos: divulgação]

Fantasia (a versão de 1940, não a de 1999, que tentou ressuscitar o filme anterior com muito menos felicidade) punha em evidência uma questão que interessava a Mário de Andrade, e que era condenada por um tipo de musicologia que foi muito forte no século XX, baseando-se na crença de que os sons musicais não possuem significações, e que a beleza musical emana de puras relações sonoras abstratas. Foi Hanslick, o teórico musical mais influente do século XIX, que inventou isso em seu livro Do belo musical (em português pela editora da Unicamp). Adorno e Boulez, entre tantos, foram muito marcados por essa ideia.

Resta o fato de que os sons musicais significam sempre alguma coisa, mesmo que ela seja imprecisa, vaga, genérica. Sem contar que atribuir uma não-significação aos sons já é uma significação.

Mário de Andrade sabia disso, e suas reflexões sobre a música giraram sempre em torno das significações, visualizações e imaginações a partir da música. E Fantasia, de modo admirável, inventou, para e pelo espectador-ouvinte estímulos visuais, imaginários, sonoros, que se integravam.

Esses vínculos de sons, cenas, imagens, que Fantasia levou a um apogeu, não era novo. O cinema mudo suscitou uma prática baseada exatamente em tal princípio.

Na época, os filmes eram mudos, mas não silenciosos. Quando projetados, um pianista (às vezes um organista, se a sala era de luxo e equipada com um dos maravilhosos órgãos Wurlitzer) improvisava de maneira a dar ênfase a situações emotivas. No caso de cinemas que podiam dispor de orquestras, o maestro assistia à fita previamente para escolher composições adequadas às cenas. Algumas vezes, circulavam junto com os rolos cinematográficos, partituras que haviam sido expressamente compostas para tal ou qual fita: eram casos excepcionais, porém.


Cena da Trilogia romana apresentada no Theatro Municipal de São Paulo

A simbiose se fazia, o público a assimilava. A presença dos intérpretes em cena, humanos, acrescentava uma vibração particular ao filme que desapareceu com o cinema falado.

Esses dois aspectos, ou seja, a experiência específica de Fantasia, e a prática musical do cinema mudo, convergem para as vídeo-animações criados por La Fura dels Baus e destinadas à música de Respighi. Concebido originalmente para o Festival das Termas de Caracalla, que tem um gosto saborosamente popular, atraindo um público numeroso e diverso, as imagens não hesitaram muito diante de certo espírito kitsch.

Isso teria pouca importância, ou mesmo introduziria condimentos vivos e surpreendentes, não fossem os limites da invenção que as projeções revelaram. Que se usem os garotos pintados por Caravaggio nessas festas romanas visuais, ótimo! Que eles apareçam apenas como projeções imóveis de diapositivos, em relações muito imediatas (o tocador de alaúde e as sonoridades de bandolim, por exemplo) é bem menos interessante. Certas imagens repetitivas, com pequenas variações, também contrastavam com a força da invenção musical.

Mais do que isso, porém, havia uma frequente indiferença entre o que se ouvia e o que se via, criando certa esquizofrenia da percepção, em que o espírito do espectador hesitava entre seguir os olhos ou os ouvidos.

Isto atinge um ponto importante que pode ser aprofundado nas teorias semânticas sobre a música: qual é a natureza da convergência entre a imagem e o som? Como obter o milagre da perfeita fusão? Não me lembro mais se foi Louella Parsons ou Hedda Hopper que, antes de começar sua carreira de grande fofoqueira das estrelas de Hollywood, tocava piano num cinema, acompanhando filmes, e foi despedida porque, numa cena em que bandidos atacavam um trem, lançou-se no adagio da Sonata ao luar.

Contudo, houve belos momentos no espetáculo. Para mim, o ponto mais alto foi o final, em que a imaginação enfim solta as rédeas, fazendo surgir imagens de pinheiros avançando para Roma sobre a via Appia. Esses pinheiros, com braços e pernas em meio a galhos e raízes lembravam a floresta animada que aparece no filme O hobbit.

As observações que faço aqui, no entanto, não retiram em nada o acerto dessa primeira apresentação de 2014 no teatro maior de São Paulo. A Orquestra Sinfônica Municipal, sob a direção de John Neschling, em plena forma, fez jus às rutilâncias daquelas maravilhosas partituras, com vivacidade e poesia. O espetáculo foi de alto nível, e as reservas que enunciei são menores diante do resultado elevado. E, coisa de primeira importância: o público veio e se entusiasmou. Isso mostra uma atmosfera estimulante, avessa ao espírito de rotina. Ótimo.

Apêndice1: Sob a égide de John Cage

As cadeiras do Theatro Municipal de São Paulo rangem. É a natureza e o destino delas. Rangeram, rangem, rangerão, e está para surgir um desrangedor capaz de fazer com que elas se calem.

Durante o concerto Respighi, na minha frente, havia um garoto de uns 12 anos. Era claro que ele gostaria de estar em qualquer outro lugar, menos ali. Não parava quieto, e a cadeira rangia, e rangia. Felizmente ele adormeceu durante largos períodos.

À minha direita, um rapaz estava acompanhado por namorada, esposa ou amiga, talvez na espera de que ela despertasse para a música. Não aconteceu. E ela se agitava, e a cadeira rangia, e rangia. Muito alto.

Prestem atenção: os barulhos na sala sempre aumentam quando a música se torna sutil, etérea, dialogando com o silêncio. Basta isso. Sem os ritmos vivos, sem a eloquência dos fortes e fortíssimos, o público se entedia, tosse, remexe, e mesmo conversa.

O Municipal de São Paulo bem que poderia redigir, ou incluir no rol dos avisos que falam de incêndio e celulares desligados, um texto que advertisse:

Ouvir música exige concentração e silêncio.

As passagens mais suaves e delicadas devem ser particularmente respeitadas.

As cadeiras do Municipal rangem e, por isso, o público deve fazer um esforço para não se mexer fora dos intervalos, ou dos aplausos.

Apêndice 2: Da educação musical

Crianças que não têm o hábito de ouvir música em casa não deveriam ser levadas ao concerto ou à ópera. É ilusório imaginar que isso as converta para a grande música. Sem certa disciplina de comportamento não se chega ao intenso prazer que a música oferece.

Em vez de impor um concerto ao vivo à meninada que não tem familiaridade com a música, na esperança de uma conversão miraculosa, os pais deveriam dar CDs, DVDs apropriados para os filhos, de modo a que eles se divirtam ouvindo. Deveriam também ficar atentos para perceber de que obras eles gostam. Um pirralho ou pirralha se apaixonou por Sheherazade, de Rimsky-Korsakov? Esperem que um concerto programe a obra para levá-lo assistir.

Se não, o efeito será provavelmente bem contrário. O menino ou menina, preso numa cadeira durante hora e meia, aguentando o tempo interminável passar, não vai querer voltar nunca a um concerto, e quando ouvir grande música de novo, fugirá com quantas pernas tem.

Clássicos Editorial Ltda. © 2014 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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