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Outro “Falstaff” (22/4/2014)
Por Jorge Coli

No último domingo, dia 20 de abril, houve récita com o segundo elenco de Falstaff, no Municipal de São Paulo. Este segundo, definindo elenco, deve ser tomado aqui apenas em ordem de sequência, já que, no que se refere à qualidade, foi também excelente.

O maestro Neschling, previsto como regente, passou a batuta ao jovem Michelangelo Mazza, spalla do Teatro Regio de Parma. Eletrizou o público pela intensidade, vivacidade, energia, brilhos acerados, rapidez toscaniniana com que dirigiu a obra. Pensei nos lendários inícios de Toscanini, quando, em 1913, no Rio de Janeiro, vindo como violoncelista da orquestra, tomou a batuta e dirigiu Aida no último minuto, iniciando assim a fabulosa carreira que se sabe.


Nelson Martinez, que encarnou John Falstaff no segundo elenco do TMSP [foto: divulgação]

A esta concepção enérgica somou-se a grandeza do barítono cubano Nelson Martinez. Voz escura, presença tremenda, foi um Falstaff ogro, assustador, poderoso, atingindo o sentimento do patético no momento do Mondo ladro!, único instante em que o personagem adquire consciência de sua velhice, declínio e fragilidade. Nada do gordo bonachão: um velho predador e vicioso, com certa maldade no timbre que podia lembrar Tito Gobbi.

Ouça e veja Nelson Martinez aqui, como o sinistro e poderoso Michele, em Il tabarro, de Puccini.


Romina Boscolo (Mrs. Quickly) e Adriane Queiroz (Alice) [fotos: divulgação]

Todo elenco foi de grande nível, com Adriane Queiroz em plena voz, luminosa, dando alma à “Alice bella”. Em meio ao ótimo conjunto, assinalo Romina Boscolo, jovem mezzo soprano que encarnou Mrs. Quickly. Primeiro, a surpresa para quem viu o outro elenco: ela é tão alta e magra quanto Elisabetta Fiorillo, a Quickly da primeira distribuição, era baixinha e gordinha. Romina Boscolo, nos trajes muito engraçados que a tornavam ainda mais magra, ficou um verdadeiro varapau e era, sem tirar nem por, um personagem de desenho animado.

Mas que voz! Calorosa, timbrada belamente, de modo homogêneo em todo registro, com graves profundos, de contralto. Tomara que volte, em outros papéis. Enquanto isso, ouça aqui sua esplêndida interpretação de Pergolesi, no Stabat mater.

Falstaff 1 e Falstaff 2 no Municipal? Não: Falstaff e Falstaff.

[Leia a crítica de Jorge Coli para o primeiro elenco de Falstaff do Municipal de São Paulo]

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A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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