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Da “democratização” e “facilitação” da cultura (19/5/2014)
Por João Marcos Coelho

Um projeto incentivado pelo Ministério da Cultura está “facilitando” Machado de Assis, substituindo palavras menos frequentes e também frases, visando popularizar a obra do autor de Dom Casmurro (veja aqui). Há semanas o assunto vem sendo debatido e bombardeado de todo jeito, na grande imprensa e nas mídias sociais. Afinal, substituir “sagacidade” por “esperteza” em Machado é uma baita sacanagem com o escritor.

A autora deve ter pensado no cretino “ator” global (existe isso?!?!?) Caio Castro, que confessou não gostar de teatro nem de literatura (“Só leio pra ficar antenado quando alguém perguntar”).


Um projeto incentivado pelo MinC está “facilitando” Machado de Assis [imagem: divulgação]

Em todo caso, este tipo de 171 (estelionato) cultural é indiscutível quando se lida com literatura. Já na música, a questão fica mais ambígua. Ou não? A escritora Lya Luft, na Veja desta semana, transporta o tema, no artigo “Aula de mediocridade”, para a música clássica: “É impossível uma pessoa simples ouvir e apreciar um concerto de música clássica? Engano. Pode não conhecer a biografia do compositor, o uso dos instrumentos, a elaboração das partituras, mas a música a atingirá porque os simples têm emoções, delicadeza, sentimento e gosto pelo belo (...). Não é preciso conhecer teoria para enxergar beleza, harmonia ou qualquer sugestão de um objeto de arte: a arte pode ser democrática sem ser distorcida ou facilitada.”

Nosso mundo pós-moderno anda cada vez mais assolado pela confusão entre “democratização” e “facilitação” da arte. Democratizar a música de invenção é colocá-la ao alcance dos ouvidos dos que normalmente não teriam acesso às exclusivas salas de concerto com ingressos de R$ 50 a 500. O tema é espinhoso e tem muitas implicações. Fica claro, de um lado, que houve “esperteza” (aqui a palavra é esperteza, não sagacidade) dos que “operaram” o texto de Machado para torná-lo menos difícil para as massas.

Na música, isso acontece com os compositores que seguem o critério de José Mauro Gnaspini, um dos curadores da Virada Cultural recém-concluída: ela “é feita para agradar ao público, não aos músicos”. A chiadeira dos músicos aconteceu porque não houve lugar, entre os 1.000 eventos com custo global de R$ 13 milhões gastos num fim-de-semana, para a música instrumental. De novo, a ideia populista descarada de dar ao povo o que ele gosta, ou melhor, acha que gosta, porque não tem nenhuma possibilidade de escolha a não ser curtir o que lhe empurram goela e ouvidos abaixo as mídias de massa.

Que tal pensar em investir estes milhões numa programação que dure o ano inteiro e faça algum sentido além de “agradar ao público”? A gritaria atual em torno do projeto “literário” acontece porque mexeram com um dos grandes ícones, senão o maior, da literatura brasileira. Já a coitada da música é “operada” quase o tempo todo e ninguém sequer se dá conta disso.

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João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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