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Dois momentos: Pão de queijo & Flechas (24/9/2014)
Por Jorge Coli

Pão de queijo
Em Tiradentes, Minas Gerais, o Festival Artes Vertentes se espraia pela literatura, pelas artes plásticas, pela música, pelo cinema. É o sonho de jovens idealistas que teimam em torná-lo realidade.

Multiplicam-se as exposições, revelam-se artistas. Há a finura feita da mais tênue transcendência – Hilal Sami Hilal; ou da angústia metafísica tecida por um narcisismo quase sobrenatural – as fotografias do húngaro Balázs Böröcz; ou dos voos oníricos da finlandesa Janne Lehtinen.


Obra do artista capixaba Hilal Sami Hilal [imagens: divulgação/reprodução]

Poemas entremeiam os recitais, lidos pelos próprios autores: são obras raras e requintadas. Poetas brasileiros ou internacionais, vindos da Catalunha, da Ucrânia, dos Estados Unidos, do México, de Portugal: as leituras são feitas no original e em tradução.

Um exemplo, para dar água na boca: do catalão Eduard Escoffet, O chão e o céu.

desenhe duas linhas horizontais, paralelas.
comece pela de baixo.

deixe, entre as duas,
espaço suficiente para respirar, para morrer ali.

descubra o olho.
arrisque-se a não dar sua opinião.

Os organizadores do festival tiveram o capricho de publicar o conjunto de poemas ali apresentados, no livro Quando antes for depois – Oito poetas contemporâneos internacionais.


Obra do fotógrafo húngaro Balázs Böröcz

Eliane Coelho cantou Richard Strauss e Shostakovich – momento que deve ter sido muito alto; só pude ficar dois dias em Tiradentes e não a ouvi. Mas minha estada ali significou imersão num clima musical de fato elevado, começando pelo esplêndido piano de Juliana Steinbach, arrebatado e caloroso (ouça aqui sua interpretação de Impressões seresteiras, parte do Ciclo brasileiro, de Villa-Lobos, que ela interpretou integralmente na igreja do Rosário).

Além dos monstros sagrados, o festival preocupou-se em trazer compositores contemporâneos, oferecendo várias composições recentes, algumas em estreia mundial. Um deles é brasileiro, Sergio Rodrigo, cuja delicadeza sonhadora se desenha em Corrupio, que pode ser ouvido aqui na interpretação de Gustavo Carvalho. Outro, o compositor palestino-israelense Samir Odeh-Tamimi, nascido em Jaljulia, 1970, tem hoje uma presença internacional marcante. Sua música, eloquente e apaixonada, pulsa com veemência romântica: ouça Uma lembrança para o esquecimento, que foi interpretada em Tiradentes também por Gustavo Carvalho.


Fotografia da série Pássaros sagrados, da finlandesa Janne Lehtinen

O clima light e inteligente do festival se caracterizou perfeitamente no concerto ao ar livre, em homenagem a John Cage. Vários intérpretes (pianistas, flautistas, clarinetista, violoncelista, que sei eu) reuniram-se para interpretar o coral Once upon a time, do compositor. Clique aqui para ouvir essa obra tão deliciosa.

Acrescente-se a camaradagem dos artistas, sem nenhum estrelismo, a beleza das igrejas, da paisagem, a gastronomia excelente, o pão de queijo incomparável: foram dias do mais puro paraíso.


Flechas
Setembro é o mês da morte de Carlos Gomes, e a prefeitura de Campinas decidiu celebrar essa efeméride apresentando sua Missa de São Sebastião, que ele compôs em Campinas mesmo, quando tinha 18 anos.

É bobagem ouvir essa música com desdém. Não se trata de uma curiosidade erudita apenas. Cativa desde os primeiros compassos, com uma inspiração que não falha. É música de teatro para ser tocada na igreja, como eram as missas de Mozart, a Missa de Santa Cecília de Gounod e de tantos outros. Louvava-se Deus com as mesmas paixões prazerosas e dramáticas que se tinha no teatro. Construía-se um teatro dos sentimentos, sacralizavam-se as cabalettas, os duetos e as melodias sensuais. Era um modo feliz de adorar que desapareceu com o tempo, para dar a lugar a composições graves e circunspectas, que nem sempre atingem a profundidade ambicionada.

Enfim, essa Missa de São Sebastião é uma delícia. Revela um jovem que conhece bem seu Bellini, seu Donizetti, seu Ernani. Que sabe se inspirar nesses mestres em modo renovado.

Campinas trouxe o maestro Luiz Fernando Malheiro para reger. Exemplo de rigor, de probidade musical, ele sabe também como dar vida a cada compasso. Os solistas foram de grande qualidade: o soprano Maíra Lautert, o mezzo Keila de Moraes, o tenor Paulo Mandarino, o barítono Douglas Hahn. Dois corais bons, o Collegium Vocale Campinas, dirigido por Akira Kawamoto e o Coro Contemporâneo de Campinas, regido por Angelo Fernandes. Eles se juntaram à Orquestra Sinfônica de Campinas no Teatro Castro Mendes, no dia 20 de setembro, para reviver essa bela música de um jovem promissor. Ouça aqui o Qui tollis seguido pelo Suscipe deprecationem.

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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