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O bom e o menos bom de “Cavalleria” e “Pagliacci” (27/10/2014)
Por Jorge Coli

Cavalleria e Pagliacci, ontem, dia 26 de outubro, no Municipal de São Paulo. Havia do bom, e do menos bom.

Começando pelo bom, muito bom:
- A voz e a presença dramática de Tuija Knihtlä, mezzo-soprano finlandês de nome impronunciável, que havia cantado Amneris no mesmo teatro, ano passado. Timbre redondo, sensual, aveludado, dor íntima e dilacerada de sua Santuzza. Clique aqui para ouvir a ária “Voi lo sapete” cantada por ela.
- A arte formidável de Inva Mula, soprano albanês, que desde O quinto elemento, filme de Luc Besson, afirmou-se como uma grande cantora de nosso tempo. Sua encarnação de Nedda foi prodigiosa, timbre dourado, delicado, que se projetava e preenchia a sala do teatro. Esperemos que volte, e num papel mais extenso.
- O jovem barítono Davide Luciano, que encarnou Leporello no último Don Giovanni do Municipal. Atuação marcante, voz rica de belos sons harmônicos, cores homogêneas dos graves aos agudos, matizes, musicalidade. Clique aqui para ouvir Inva Mula e Davide Luciano no dueto de I pagliacci.

Continuando pelo menos bom:
- Walter Fracaro substituiu, de última hora, seu colega Giancarlo Monsalve na Cavalleria rusticana como Turiddu. Agudos esganiçados, colorido ingrato, incapacidade de nuançar. Recuperou-se, com grande sucesso de público, no papel de Canio, em I pagliacci: a tessitura – e mesmo a natureza dos personagens – não são os mesmos, e o tenor estava evidentemente mais à vontade na ópera de Leoncavallo, que cantou insistindo na truculência dramática.
- A regência de Ira Levin foi incapaz de investir no lirismo que exige Cavalleria rusticana. Fraseados sem inspiração, ritmos quadrados, tudo com algo de escolar, que resultou numa secura um pouco indiferente. Ele também recuperou-se nos grandes efeitos dramáticos de I pagliacci, fazendo o público exultar.
- O barítono Alberto Gazale, perceptivelmente em má forma, tentando compensar os problemas vocais com uma brutalidade interpretativa nada convincente. A comparação com Davide Luciano fez lamentar que este último não tivesse cantado o célebre “prólogo”, de I pagliacci.

Quanto às montagens:
- A de Cavalleria foi retomada da apresentação que ocorreu no ano passado. Guardou suas qualidades de discrição e inovação, embora com menos efeito por causa do tom musical frio que foi conferido à obra.
- I pagliacci mereceu nova montagem. Ela demonstrou o talento de William Pereira na direção de atores, na movimentação do coro e de toda uma população circense que animou a obra sem perturbá-la. O cenário de Juan Guillermo Nova é muito bonito, e os figurinos de Gianluca Falaschi, cheios de invenção, lembraram-me o circo pintado por Fernand Pelez em 1888, intitulado Caretas e misérias (veja abaixo). A luz foi finamente dosada por Caetano Vilela.



Detalhe de Caretas e Misérias, de Fernand Pelez (Petit Palais, Musee des Beaux-Arts de la Ville de Paris).

I pagliacci começava assim: abria-se a cena mostrando personagens com narizes de palhaço, lendo jornais manchados de sangue: imagem forte acentuando o espírito de crônica policial próprio ao episódio.

No entanto, o diretor de cena decidiu inserir projeções de vídeo redundantes, ou pesadamente demonstrativas. Durante o coro dos “zampognari” (os músicos populares associados à festa religiosa que ocorre fora do palco) aparece uma enorme televisão, com um pregador religioso que gesticula, bíblia na mão. No final, manchete da Folha de S. Paulo anuncia os crimes ocorridos no circo. Como se dois mortos não bastassem, William Pereira obrigou os personagens circenses a também assassinarem o desesperado Canio, como os senadores fizeram com Julio Cesar. Nem sempre as ideias dão certo; estas se mostram fora de propósito, mal integradas e ingênuas. Não chegaram a comprometer o espetáculo. Que, sem elas, ganharia em convicção e intensidade.

Observação: Texto editado em 28/10, às 13h05. Diferentemente do que foi publicado, o barítono que se apresentou no dia 26/10 foi Alberto Gazale.

Veja abaixo fotos de Cavalleria rusticana e I pagliacci, produções do Theatro Municipal de São Paulo [divulgação / Desirée Furoni]





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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