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Henrique Alves de Mesquita: saindo da poeira do esquecimento (28/1/2015)
Por Camila Frésca

Já falei neste espaço sobre alguns trabalhos coordenados pelo pianista e pesquisador Alexandre Dias. Em 2011, Chiquinha Gonzaga e, no ano passado, Marcelo Tupinambá. Agora, Dias lança um trabalho semelhante, com a obra de Henrique Alves de Mesquita [clique aqui para conhecer]. Como nos trabalhos anteriores, o site inclui o catálogo de obras do compositor, dezenas de partituras revisadas e editadas, discografia, letras de músicas, vídeos e bibliografia. Henrique Alves de Mesquita (1830-1906) foi um nome importante da passagem do Império para a República. Também regente, organista e trompetista, ele integra aquele conjunto de músicos cujo grande legado foi criar nossa música popular urbana – teria sido ele o criador da expressão “tango brasileiro”. Para quem quiser saber mais, acaba de sair um livro sobre o compositor, de autoria do excelente pesquisador Antonio Augusto: “Henrique Alves de Mesquita: da pérola mais luminosa à poeira do esquecimento” (Editora Folha Seca).

Capa da toccata “A vaidosa”, de Henrique A. de Mesquita (Buschmann, Guimarães & Irmão, nº ch. 4024), publicada em 1896; à direita, o pesquisador e pianista Alexandre Dias


Se recuperar a biografia e difundir gravações pode ter um efeito imediato importante, que é fazer chegar o compositor e sua obra a um público mais amplo, acredito firmemente que a médio e longo prazo o instrumento mais importante para garantir sobrevivência do legado de um artista (clássico) é a disponibilização de suas partituras. Deixar disponível o documento deixado pelo artista para futuras gerações permite, a qualquer momento, uma leitura contemporânea, que faça com que a obra ganhe uma interpretação à luz do momento em que ela vem novamente à tona. Nesse sentido, o trabalho que Alexandre Dias vem fazendo com músicos brasileiros é notável. Veja abaixo trechos da entrevista que ele concedeu ao Site CONCERTO:

Há quanto tempo você trabalha com recuperação de partituras de compositores brasileiros? Qual a sua formação e de onde veio seu interesse pelo assunto?

Desde aproximadamente os 14 anos (1998) que coleciono partituras e tenho fascínio por músicas brasileiras que estão esquecidas. Minha formação acadêmica é em outra área (completei o doutorado em ecologia na UnB no ano retrasado), e desde a infância estudo música em aulas particulares, sendo minhas principais professoras de piano Elza Gushikem e Neusa França, aqui em Brasília. Quando estudei na UnB, pude cursar diversas matérias no departamento de música. Cheguei a exercer profissionalmente a biologia, mas fiz uma transição de carreira e hoje me dedico integralmente à música, atuando como professor de piano, pesquisador e pianista. Me interesso pelos compositores que escreveram para piano, tanto popular como erudito. Minha formação foi sempre de piano clássico, o que me permite ter acesso a um grande número de linguagens musicais. Embora até o momento eu tenha pesquisado mais compositores do Império e do início da República, meu interesse se estende até a música feita hoje. Tenho feito encomendas e estreado peças de compositores brasileiros como André Mehmari (veja vídeo do YouTube), Edino Krieger, Ricardo Tacuchian (veja vídeo do YouTube), Jorge Antunes, Edmundo Villani-Cortes, Leandro Braga e Amaral Vieira, em geral dedicadas a Ernesto Nazareth ou Marcello Tupynambá. Acredito que este diálogo entre o contemporâneo e o antigo é benéfico para os dois lados.

Você já trabalhou com a obra de quais compositores? Todos os trabalhos estão disponíveis online?

O compositor que pesquiso há mais tempo, desde 1999, é Ernesto Nazareth. Meu principal interesse no início era sua discografia, que conta com mais de 2800 gravações. Depois procurei reunir suas partituras completas (211 músicas), e investi em gravar no piano solo um terço de sua obra, priorizando as músicas raras e inéditas. Essa pesquisa foi incorporada ao site Ernesto Nazareth 150 anos, produzido pelo Instituto Moreira Salles em 2012, que hoje reúne uma quantidade muito grande material sobre o compositor. Em 2011 revisei a obra integral da Chiquinha Gonzaga (1847-1935) (cerca de 300 partituras, com exceção das operetas), para o site Acervo Digital Chiquinha Gonzaga, que contou com o patrocínio do edital Natura Musical, e que foi coordenado em parceria com Wandrei Braga. Recentemente conseguimos um patrocínio de um edital americano para resgatar 5 operetas inéditas na íntegra. Em 2012 e 2013 produzi outros dois acervos digitais, desta vez de maneira independente, dedicados a Marcello Tupynambá (1889-1953) e Henrique Alves de Mesquita (1830-1906). Nestes quatro sites é possível baixar toda a obra conhecida dos compositores gratuitamente, ouvir gravações online, e ter acesso a imagens e informações diversas como letras transcritas, e bibliografia. Todos estão em domínio público, com exceção de Marcello Tupynambá. Neste caso, fizemos uma parceria com a família do compositor, a editora Irmãos Vitale (principal detentora dos direitos autorais) e o Instituto de Estudos Brasileiros da USP (que mantém o acervo do compositor), para viabilizar a disponibilização das partituras por um ano, até fevereiro de 2015. Também ajudei a viabilizar o site dedicado à obra do grande Mário Cavaquinho, com coordenação do cavaquinista Gustavo Cândido; Acervo Digital do Violão Brasileiro (Petrobrás, 2014, coordenado por Alessandro Soares) e Bibliografia da Música (coordenado por Sandor Buys). O que me motiva a realizar estes trabalhos é ajudar as pessoas a terem acesso às obras de grandes compositores brasileiros, que estão hoje em larga escala esquecidos. É muito comum ouvirmos reclamações do tipo “o Brasil não tem memória”, mas a verdade é que hoje vivemos em uma época privilegiada, em que o acesso a fontes primárias (como partituras originais e matérias de jornal antigas) está cada vez maior, e isso confere um poder de pesquisa sem precedentes às pessoas interessadas. Chegamos a um ponto de vantagem que nos permite revisitar a história com uma resolução muito maior.

Como você viabiliza esses projetos? Geralmente, você consegue algum tipo de apoio?

Para cada projeto busco alguma forma de financiamento, mas, não sendo possível, busco executá-lo dentro das minhas possibilidades. Até o momento contaram com patrocínio os sites Ernesto Nazareth 150 Anos (produzido e idealizado pelo Instituto Moreira Salles, 2012) e Acervo Digital Chiquinha Gonzaga (Natural Musical, 2011). Foram feitos de forma independente, porém com parcerias, os acervos digitais Marcello Tupynambá (parceria com a família do compositor, Irmãos Vitale e IEB-USP) e Henrique Alves de Mesquita (parceria com o SESC Partituras). A parte mais complicada é encontrar as partituras. Quanto mais antigo um compositor, menor a probabilidade de se encontrar sua obra completa. Há composições que só sobreviveram aos dias de hoje graças a um único exemplar guardado em alguma biblioteca ou acervo particular. Tenho me deparado com esta situação diversas vezes, o que mostra a importância de se digitalizar e compartilhar acervos. Para encontrar as partituras é necessário recorrer a todas as fontes possíveis. Tenho contado com a ajuda de diversos colecionadores partituras, e recebido colaborações fundamentais de instituições como Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Instituto Casa do Choro, Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e Museu da Inconfidência. Sebos e leilões online também oferecem grandes surpresas às vezes. O caso de Henrique Alves de Mesquita é particularmente alarmante porque mais da metade de sua obra está desaparecida (foi possível encontrar apenas cerca de 60 partituras de um total de mais de 130 composições). No catálogo do site destacamos em vermelho as peças desaparecidas, e esperamos com isso estimular as pessoas a buscarem em seus acervos e bibliotecas locais para nos ajudarem a recompor a obra deste compositor primordial brasileiro.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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