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Municipal, São Pedro, Osesp e mais (24/3/2015)
Por Jorge Coli

Otello
Foi um Otello poderoso musicalmente no Theatro Municipal de São Paulo, no dia 21 de março. Gregory Kunde é um grande intérprete do mouro, se não for o maior em nossos dias: sua voz projeta-se, plena, clara, como era claro o timbre de Tamagno, que cantou a ópera em sua estreia, no Scala, ano de 1887. Tamagno deixou algumas gravações arrepiantes de árias dessa obra. (Ouça o impressionante Dio mi potevi, do Otello de Verdi, cantado em Parma por Gregory Kunde, e com bis! E também o primeiro Otello da história, Francesco Tamagno, na ária Niun mi tema).

Além disso, Kunde parecia tomado pelo personagem. Sua presença cênica, torturada e poderosa, contrastava com a fragilidade de Desdêmona, interpretada por Lana Kos. A soprano croata, que já esteve em São Paulo nas vestes de Micaela, é uma jovem de 31 anos. Sua carreira iniciou-se brilhante, e ela teve todos os trunfos para uma Desdêmona inesquecível. Não creio que se possa ouvir um mais sublime dueto Già della notte como o que ecoou aquela noite no Municipal. (Ouça Lana Kos no final do primeiro ato de La traviata, nas Arenas de Verona.)


Lana Kos e Gregory Kunde, como Desdêmona e Otello, no Municipal [foto: Heloísa Ballarini/divulgação]

A Sinfônica Municipal de São Paulo, esplêndida de coloridos, foi dirigida com intensidade profunda e poética por John Neschling. Iago (o cubano Nelson Martinez), de voz bem timbrada e bela musicalidade, o coro, todos os outros personagens integraram-se do melhor e mais apaixonado modo.

Foi comovente, prodigioso. Provando que, em ópera, o essencial é a qualidade da música (e o Municipal está atingindo patamares altíssimos), já que a montagem de Giancarlo del Monaco, fria, conceitual, interplanetária, mostrava-se muitas vezes em contraste com as paixões da partitura. Mas isso não importava, pois a música era capaz de arrebatar.

A prova dos nove desse princípio ocorreu com a récita do dia 14 de março, dirigida por Eduardo Strausser. Os protagonistas eram Avgust Amonov – nitidamente em má forma – e o soprano Elena Rossi, cantora de belos predicados. Iago foi o mesmo Nelson Martínez (e eu sinto não ter podido ouvir Rodrigo Esteves, que alternava com Martinez nesse papel). Interpretação de qualidade que não configurou o mesmo caráter excepcional do outro elenco e maestro. Nesse caso, a montagem tornou-se um peso bem negativo.

O amor dos três reis
A excelente ideia de montar O amor dos três reis de Montemezzi, ópera hoje raríssima, no Theatro São Pedro, deu muito certo.

Que prazer ouvir a orquestra, cada vez melhor, com cordas soberbas que enlevavam desde o primeiro instante! Que prazer ouvir Sávio Sperandio, de voz suntuosa, no papel de Archibaldo! Os outros intérpretes – Daniella Carvalho, (timbre sedutor porém com um vibrato por vezes levemente descontrolado), Juremir Vieira, Douglas Hahn, cantaram de modo convincente e apaixonado, valorizando a música tão inspirada de Montemezzi. Assinalo que os papéis menores revelaram excelentes jovens cantores: Matheus Pompeu, Debora Dibi, Robertha Fauri, Edilson Junior.


Sávio Sperandio (ao centro) foi o destaque de O amor dos três reis [foto: Décio Figueiredo/divulgação]

A montagem de Sergio Vela, fina, elegante, sofisticada e poética articulava-se em modo simbólico, sobretudo com o texto.

Realização miraculosa, considerando o estreito orçamento daquele teatro.

Para ter uma ideia da música de Montemezzi, ouça aqui a cena de Archibaldo no primeiro ato da ópera, na versão ilustre de Nicola Rossi-Lemeni.

Registro
Grande notícia. Otello apresentado no Theatro Municipal de São Paulo é transmitido, hoje (dia 24 de março), para três cinemas em São Paulo, Rio e Brasília, ainda em caráter experimental, para convidados. Mas entusiasma saber que há um investimento na divulgação da ópera feita no Brasil por um meio tão eficaz. A vibração do espetáculo ao vivo consegue atingir as salas de cinema, como tem ocorrido com transmissões do Metropolitan de New York, ou com as do Covent Garden.

Torço fortemente para que a experiência dê certo e continue. Torço também que resultem gravações de vídeo. Tanto o Otello do Municipal quanto O amor de três reis mereceriam registro audiovisual. Quanta gente a mais não poderia assim degustar dessas belas produções!

Descolado
O jovem maestro Kristjan Järvi veio para reger a Osesp. Estive no concerto dia 19 passado. Foi ótimo. Järvi é um garotão que rege com um balanço rock, e se comunica de modo muito fácil, sobretudo graças a seu sorriso irresistível, tanto com a orquestra quanto com a plateia.


Järvi: o carismático maestro sabe se comunicar com orquestra e plateia [foto: Franck Ferville/divulgação]

O apogeu da noite foram as variações O pavão, de Kodály, que brotaram vivas e cintilantes. Menos convincente, o Concerto nº 1 de Tchaikovsky, o solista sendo Arnaldo Cohen: nem fusão, nem química.

Sem cerimônia
Emana, da assim chamada música clássica, um perfume de esnobe sofisticação. Há um público que só vai para aplaudir grandes estrelas internacionais, pagando muito dinheiro pelas entradas. É um ritual, muitas vezes cumprido por essa audiência sem uma isca de prazer, como dizia a falecida Ann Russel.

Mas há outras apresentações, mais discretas, às vezes mais populares, às vezes grátis, que atraem aqueles que gostam de música, quem quer aprender a gostar sem gastar muito.

Vão aqui alguns momentos verdadeiramente excepcionais, aos quais pude assistir, momentos de verdadeiro prazer, momentos de emoção forte e sincera.

O primeiro foi A clemência de Tito, em forma de concerto, dado no teatro São Pedro (dia 20 de fevereiro). O público se entusiasmou com a regência inspirada de Marcelo de Jesus e com os excelentes cantores. Assinalo aqui Bruno de Sá Nunes, sopranista muito jovem que, com voz potente e timbre de mel, deu vida ao papel de Sesto. Fez um triunfo. Continuando assim, está fadado a uma carreira internacional: verdadeira descoberta.

O segundo, de pura felicidade, foi o recital dado pelo Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, no Centro Cultural Vergueiro. Programa: Quarteto popular, de Gnatalli, Quarteto nº 2 de Mignone, e o nº 3 de Santoro. Essa formação atingiu uma qualidade de fato muito alta. Marcelo Jaffé encarregou-se de introduzir, com simpatia, as obras ao público presente, desmontando as posturas sacralizadas e esnobes. Interagia com o auditório e teve a gentileza de encontrar uma semelhança entre Gnatalli e este escrevinhador. Sobretudo nas hastes dos óculos.

Enfim, o terceiro: um concerto estonteante. A Orquestra Jovem do Estado faz uma turnê por diversas cidades, antes de ir para Washington e New York. Eu pude ouvi-la no Theatro Polytheama de Jundiaí, com um fabuloso pianista malaio, Tengku Irfan, verdadeiro prodígio de 16 anos (ouça a Rapsódia Húngara n º 11, de Liszt, em sua interpretação).

O programa era ambicioso e nada fácil. Camargo Guarnieri, Abertura concertante; Beethoven, Concerto para piano e orquestra nº 3; Heitor Villa-Lobos, Choros nº 6: obras que põem à prova qualquer formação orquestral. Quem foi ouvir com condescendência o esforço meritório de alguns jovens se enganou redondamente. Pois a Orquestra Jovem pode se comparar com as melhores do país. Tudo perfeito, sedoso, musical, estimulante.

Cláudio Cruz, que é um formidável maestro, soube formar e extrair desses jovens uma qualidade artística propriamente extraordinária.

São jovens músicos; porém, mais do que isso, são grandes músicos.

Clássicos Editorial Ltda. © 2015 - Todos os direitos reservados.
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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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