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Música Nova confortável. Mas onde fica a ansiedade do novo? (9/10/2008)
Por João Marcos Coelho

Ando ultimamente com a cabeça muito "neue musik" (pronuncia-se nóie musík). Por dever de ofício, tenho ouvido muito Elliott Carter e Mauricio Kagel, dois radicais de carteirinha da vanguarda dos anos 50/70 e que assim permanecem até 2008. Carter, serialista rigoroso, comemorará em dezembro próximo seus 100 anos vivinho da silva; e Kagel, campeão do teatro musical, morreu dias atrás, aos 75 anos. Gilberto Mendes, o fundador e diretor artístico do Festival Música Nova, costuma chamar assim quem se prende ainda hoje à estética da vanguarda européia dos anos 50/60 liderada por Stockhausen, Boulez, Berio e Nono, entre outros. 

A pitada final nesta plataforma vanguardista veio com a leitura do célebre ensaio "A arte contemporânea e a situação de seu público", escrito em 1960 por Leo Steinberg, recém-editada pela Cosac Naify no excepcional livro "Outros Critérios".

Carter, Kagel e sobretudo Steinberg nos ensinam que, nas palavras do último, "a arte moderna sempre se projeta numa zona de penumbra onde nenhum valor está fixado. Ela sempre nasce na ansiedade (...) Parece-me uma função da arte moderna transmitir essa ansiedade ao espectador, de modo que seu embate com a obra seja - pelo menos enquanto ela é nova - um problema existencial genuíno". Foi assim com Monteverdi e sua música revolucionária no finalzinho do século 16; com Beethoven, taxado de louco pelos últimos quartetos; com Schoenberg no início do século passado, etc.,etc., até hoje.

Mas será que isso funciona até hoje? Tudo isso foi letra morta no concerto de encerramento do 43º Festival Música Nova, realizado em São Paulo no dia 30 de setembro e repetido em Santos na quarta-feira dia 4 deste mês.

Assisti em São Paulo. Foram oferecidas quatro primeiras audições ao corajoso público que enfrentou trânsito e chuva até o teatro Sesc Anchieta. Uma première brasileira, a do "Concerto para violão" do irlandês  Benjamin Dwyer, com o próprio como solista, ao lado da Orquestra Sinfônica de Santos, regida por Emiliano Patarra. E três estréias mundiais, dos brasileiros Sérgio Kafejian, Ivan Chiarelli e Carlos Almada, concorrentes finalistas ao terceiro Concurso de Composição Gilberto Mendes, entre 40 obras inscritas.

Bem, procurei suspender todo critério prévio, busquei livrar-me de qualquer idéia pré-concebida - e me preparei para sentir a ansiedade de que fala Steinberg diante de três obras novíssimas, recém-criadas.

Em vez de tensões, relaxamento total. Nada mais retrô. O concerto de Dwyer, velho de dez anos, é bonitinho, bem comportado, em três movimentos interligados rápido-lento-rápido, com direito a uma bela e redonda cadenza. Tudo tonal, com um glissandi aqui nas cordas e algumas dissonâncias espalhadas pela orquestra. O público adorou. Claro. É música confortável, velha conhecida.

Institucionalização

A segunda parte prometia ansiedade, mas brindou o público com mais do mesmo. A "Sinfonia Breve", de Carlos Almada (3º lugar), é um tremendo esforço para fazer algo mais consistente do que música popular bem elaborada; mas não passa disso. "O demônio do rio - poema sinfônico" de Ivan Chiarelli (2º lugar) é melhor construída, mas ainda assim abusa dos clichês dissonantes, glissandi, etc. "Gritei... e o pássaro do equilíbrio perfeito na ponta do abeto só mexeu o rabo", de Sérgio Kafejian (1º lugar) é de fato a peça mais interessante. A começar do título, bem à la Gilberto Mendes. Porém, também fica devendo.

Cadê a ansiedade do novo, como pede Steinberg e qualquer um disposto a assistir música nova de fato? Talvez os tempos atuais sejam mesmo de voltas em torno do próprio rabo, com todo mundo olhando para o passado. Ouvi queixas de alguns compositores, preocupados com a institucionalização do Festival. Será que é só o Festival que se institucionaliza, e de certo modo se acomoda? Ou é a própria cena musical contemporânea que hoje parece mais domesticada?

Juro que só senti ansiedade mesmo, pra valer, no caótico trânsito da cidade chuvosa. Na ida e na volta do concerto.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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