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Os 150 anos de Carl Nielsen e algumas considerações sobre música brasileira (26/5/2015)
Por Camila Frésca

Em 2014, Alberto Nepomuceno fez 150 anos de nascimento. A importância desse compositor na música brasileira é geralmente apontada por conta do pioneirismo no canto em língua portuguesa. De fato, Nepomuceno escreveu diversas canções em português e outras obras nas quais a temática nacional está em pauta não apenas na inspiração ou discurso, mas no próprio conteúdo musical (vide sua Série brasileira). Mas sua importância vai muito além disso. Compositor de sólida formação, sua obra representa um dos pontos altos da passagem do século XIX para o XX; figura atuante na nascente República brasileira, a vida de Nepomuceno é um exemplo das batalhas e cenários musicais vividos pelos músicos de sua época; professor e diretor da principal instituição musical da nascente república, lutou em prol da institucionalização da prática musical e dos direitos dos músicos. O catálogo de Nepomuceno inclui, além da Série brasileira, centenas de obras para diversas formações, como as óperas Porangaba, Electra, Ártemis, Abul e a inacabada O garatuja, e a Sinfonia em sol menor. Somam-se a essas peças sacras, dezenas de canções para canto e piano e canto e orquestra, peças para piano, um trio e quatro quartetos de cordas. Lembro-me de ter ficado bastante incomodada em não ver o compositor tocado e apresentado em nossas salas de concerto nem mesmo por conta da efeméride (exceção honrosa feita à montagem de Ártemis pelo Theatro São Pedro de São Paulo). Afinal, se não o fizermos, quem o fará?

Neste ano, o compositor dinamarquês Carl Nielsen completa igualmente 150 anos. Tal como Nepomuceno, Nielsen é um compositor preocupado com questões nacionalistas que atuou no final do século XIX e início do XX. Em seu país é muito admirado por suas canções baseadas em tradições populares dinamarquesas. Internacionalmente, seu legado são as seis sinfonias. Se está fora de discussão a importância de tocar e conhecer a obra desse compositor, fiquei surpresa ao notar que nossas orquestras, até o momento, já programaram mais obras de Nielsen do que o que se tocou de Nepomuceno durante todo o ano passado!


Compositor Carl Nielsen, que no dia 9 de junho completa 150 anos de nascimento [imagem: reprodução]

É claro que não se trata apenas de uma questão de “vontade” ou de “gosto” de nossos programadores. É espantoso o número de ações promovidas na Dinamarca com o intuito estabelecer e estimular a difusão da obra do grande nome da música clássica de seu país. Isso já fica claro quando se lê a detalhada biografia do compositor na página da Wikipedia, e se confirma com uma visita ao site especialmente construído para comemorar a efeméride dos 150 anos. Muito completo e bem organizado, traz informações biográficas, fotos, vídeos, calendário de apresentações e ainda permite que se ouça boa parte da obra do compositor. Outras iniciativas que colaboram para o fortalecimento do nome de Nielsen são a Competição Carl Nielsen, o Museu Carl Nielsen, os Carl Nielsen Studies e a Carl Nielsen Edition, uma impressionante revisão crítica de toda a obra do compositor em 32 volumes de partituras precedidas de textos explicativos, bilíngues, e que podem ser baixados gratuitamente. O projeto levou alguns anos e foi encampado pela Biblioteca Nacional da Dinamarca.

Que bom seria se difundir e estabelecer a obra de alguns dos nossos maiores compositores fosse um projeto de Estado – que investindo dinheiro e mão de obra intelectual fizesse uma força tarefa para, em alguns anos, estabelecer toda a obra de determinado compositor, entre outras iniciativas. OK, podem alegar que Carl Nielsen é o mais importante compositor da Dinamarca, e seria, portanto, o nosso Villa-Lobos (embora, cá entre nós, Villa-Lobos, em minha opinião, seja um gigante bem maior que Nielsen). Ainda que tenhamos iniciativas importantes relacionadas à obra do compositor – como as da Osesp e da Academia Brasileira de Música – quanto ainda é necessário trabalharmos para que Villa tenha sua obra organizada e difundida em dimensão semelhante? E o que falar então de outros grandes como Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno, Camargo Guarnieri, Francisco Mignone...


[Veja também]
A seção Vidas Musicais da edição de junho da Revista CONCERTO é dedicada a Carl Nielsen (disponível para assinantes)

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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