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Koellreutter & Katunda (18/6/2015)
Por João Marcos Coelho

É uma perversidade, mas já estamos praticamente no meio do ano e ninguém ainda falou do duplo centenário de nascimento de Eunice Katunda e Hans-Joachim Koellreutter (à exceção de um belo texto publicado na edição de junho na Revista CONCERTO). Provavelmente o país vai passar batido. Por isso, vale relembrar o que esta dupla significou para a música brasileira do século XX. Escrevi este texto há alguns meses a quatro mãos com o musicólogo Carlos Kater – autor dos livros mais importantes sobre o período, tais como o único livro sobre Eunice Eunice Katunda, musicista brasileira (2001) e do fundamental Música Viva e H.J. Koellreutter – movimentos em direção à modernidade (2000). Eram os meses finais de 2014, quando ainda pensávamos que estas efemérides seriam comemoradas. Restou apenas o texto, muito mais de Kater do que meu.


Vidas cruzadas que definiram os contornos da música brasileira no século XX

Em 2 de setembro de 1915 nasceu em Freiburg, na Alemanha, o compositor, regente, flautista e educador, naturalizado brasileiro... Hans-Joachim Koellreutter. Meses antes, porém, em 5 de março de 1915, nascia no Brasil, Rio de Janeiro, a pianista e compositora, carioca... Eunice Katunda.


Eunice Katunda e H.J. Koellreutter, formadores da música brasileira do século XX [imagem: reprodução]

Ele estudou com importantes professores e músicos europeus como Paul Hindemith, Gustav Scheck e Hermann Scherchen. Chegou ao Brasil em 1937 e é considerado o introdutor da música atonal-dodecafônica no país. Entre as suas principais realizações constam: criador do Grupo e do Movimento Música Viva, fundador da Escola Livre de Música de São Paulo e da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Foi professor de música e de composição de uma imensa quantidade de pessoas que construiu os momentos decisivos e mais importantes no contexto musical brasileiro no século XX e ainda hoje estão entre os personagens fundamentais da vida e criação musical no país.

Ela estudou com importantes professores e músicos brasileiros, como Branca Bilhar, Oscar Guanabarino e Camargo Guarnieri, bem como com Koellreutter. Interpretou em primeira audição ao piano obras de importantes compositores internacionais (como, por exemplo, Ludus Tonalis, do mestre de seu mestre, Paul Hindemith) e de autores emergentes brasileiros (como Cláudio Santoro, César Guerra-Peixe, Edino Krieger e do próprio Koellreutter, entre muitos outros) e participou ativamente como musicista do Grupo e Movimento Música Viva criado por seu mestre contemporâneo. Sua trajetória pessoal embute uma luta incessante pelos direitos da mulher na sociedade brasileira; sua trajetória artística embute viradas estéticas que a levaram da vanguarda para a criação de uma música parida no contato pessoal e político com as lutas das classes populares. Atuou na Bahia, participando de movimentos políticos. Reconciliou-se, no final da vida, com seu mestre de vanguarda Koellreutter – não num final feliz clichê, mas num encontro de duas grandes personalidades artísticas na plena maturidade, que fizeram da paixão pelo Brasil sua razão de existir, atuar e criar.

Ambos foram destacados protagonistas de seu tempo, ele criando obras e fundando uma escola de Música Moderna Brasileira e ela compondo e interpretando obras, e favorecendo a divulgação desta escola. E assim ambos, embora de formas particulares, legando valiosa contribuição para a musica de invenção em nosso país, instaurando um momento fértil e dinâmico que conhecemos hoje como a segunda fase da Modernidade Musical Brasileira.

Entre obras editadas e manuscritos, a produção musical de Koellreutter está estimada em cerca de 77 títulos, e a de Eunice Katunda em cerca de 80.

Apesar da importância de sua época, do sentido do movimento musical – que cada qual à sua maneira e estilo participou da construção – e da originalidade de suas contribuições criativas enquanto compositores, suas obras são ainda praticamente desconhecidas pelo público em geral, bem como pouco acessíveis para interessados e especialistas.

A cem anos de distância do nascimento deles, é fundamental trazer a público a natureza visceral de suas relações cruzadas e a importância do trabalho artístico deles para a música brasileira no século XX – e também para a música do século XXI1. Motes, conceitos e palavras-de-ordem de Eunice e de Koellreutter ainda ecoam com muita força e adequação na cena musical brasileira atual.

Eunice é a prova de que a música não sobrevive se não fincar raízes na sua realidade social, política e cultural. Koellreutter personifica a figura do semeador que abriu os portos estéticos do mundo moderno para os músicos e compositores brasileiros. Deu-lhes a alforria e as ferramentas para pensarem e criarem com suas próprias pernas e cabeças os rumos da nossa criação musical.

Falar e escrever sobre estes itinerários, sobretudo tocar a música criada por eles, é trazer à tona a incrível atualidade de suas propostas – e ao mesmo tempo impactar-se com as aventuras e desventuras da música de vanguarda no Brasil no último século.

Clássicos Editorial Ltda. © 2015 - Todos os direitos reservados.
A reprodução de todo e qualquer conteúdo requer autorização, exceto trechos com link para a respectiva página.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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