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A atual “Thaïs” do Theatro Municipal (28/7/2015)
Por Jorge Coli

A atual Thaïs, de Massenet, no Theatro Municipal de São Paulo, significou um grande momento nesta temporada. Primeiro, porque é uma ópera rara. Ela se manteve no repertório de modo discreto, graças sobretudo ao desejo de algumas grandes cantoras de marcarem com suas interpretações o papel principal, que é terrível.

Depois, porque a montagem a que pudemos assistir foi, provavelmente, a mais bela desde que se iniciou a era Neschling. Concebida por Stefano Poda para o Teatro Regio de Turim, em 2008, está filmada e publicada em DVD, com Barbara Frittoli no papel da protagonista (aqui, algumas imagens dessa filmagem; e aqui, a representação na íntegra).

É uma concepção com cenários impressionantes e figurinos magníficos. Os deslocamentos no palco, os movimentos dos cantores e figurantes eram solenes e vagarosos, criando um efeito fascinante e hierático. Poda eliminou os acessórios: nada de espelho, de escultura do amor, de sapatos dourados para Athanaël. Foram substituídos por modos simbólicos elevados, embora às vezes com bizantinismos bem misteriosos. Assim, o abandono do luxo por Thaïs é figurado pelo que pareciam ser sapatos Louboutin (vermelhos com sola vermelha!) de salto agulha, que terminam encerrados num estojo de contrabaixo...

Mas isso é o de menos. O que importa é a beleza do conjunto, a força das composições e sua eficácia dramática. Os sete anos de idade dessa produção não significaram envelhecimento: coisas belas não envelhecem.

Thaïs possui algo da majestade grave própria aos oratórios, sua ação é lenta, sem reviravoltas precipitadas. Ela se inscreve numa sensibilidade decadentista, que, desde pelo menos Tannhäuser, e sobretudo Parsifal, de Samson et Dalila até Salomé, ama a mistura voluptuosa de espiritualidade e sexo. Ama também as roupagens exóticas, os nomes estranhos e preciosos, como Crobyle e Myrtale, que fazem imediatamente pensar em Pierre Loüys e em Leconte de Lisle. A nudez alvejada de inúmeros figurantes era sublimada pelo branco: parecia que as figuras esculpidas no friso do proscênio haviam descido para o palco.


Membros do Balé da Cidade em ação em Thaïs, segurando os sapatos Louboutin [fotos: Heloísa Ballarini/divulgação]

Outros, com longas saias pretas, podiam evocar A noite, de Hodler.


Famoso quadro A noite, do pintor suíço Ferdinand Hodler (1853-1918) [imagem: reprodução]

Formidável qualidade dos bailarinos, em admiráveis coreografias: por uma vez, os balés tiveram papel essencial, sem nenhum kitsch.

As duas apresentações a que pude assistir (dias 23 e 25 de julho) foram de alto nível. Na segunda, assinalo três pequenos acidentes, que não comprometeram: uma das bailarinas perdeu a longa saia negra, mas se recuperou com habilidade; o feixe de luz que surgia no último momento, não funcionou; a grande caixa transparente que deveria se transformar numa cruz teve o braço direito que não queria se abrir de jeito nenhum...

 
Cena do terceiro ato de Thaïs, com membros do Balé da Cidade; destaque para o feixe de luz

Nada grave. A qualidade musical foi também elevada. Alain Guingal regeu, desenhando com finura as belas melodias e criando maravilhosas transparências graças à excelência da Orquestra Sinfônica Municipal, mais segura na segunda do que na primeira apresentação. A versão conservou elementos muitas vezes suprimidos (o coro na Meditação, alguns balés), e a apresentação pode afirmar plenamente a grandeza da ópera.

Ermonela Jaho, a primeira Thaïs, construiu um personagem tenso e atormentado. Agudos de aço, a luminosidade de seu timbre tendia a diminuir nos médios e os graves desapareciam. Ela se apresentou no papel em 2010, na Opéra de Toulon. Depois disso, segundo a ficha de Operabase, nunca mais o retomou, o que é uma indicação de prudência. De fato, sua voz e sua arte talvez sejam melhor indicadas para papéis mais leves. Ouça-a aqui na ária do primeiro ato de La traviata.

Sara Rossi Daldoss, Thaïs da segunda noite, com timbre caloroso e homogêneo em todos os registros, tinha a voz mais própria para os desafios de Massenet. É jovem, há certamente progressos técnicos a serem feitos por ela, mas comoveu e arrebatou o público.

O monge Athanaël foi primeiro cantado pelo russo Lado Ataneli, que figura também entre os intérpretes do DVD de Turim. Voz aveludada e poderosa, timbre sedutor, pronúncia abominável em francês e distância indiferente ao drama vivido pelo personagem (ouça-o aqui no Largo al factotum, do Barbeiro de Sevilha, de Rossini).

Ao contrário, o segundo, André Heyboer, francês, foi, está claro, perfeitamente idiomático, Mais ainda: sua finíssima musicalidade, a convicção do personagem, que se impôs desde as primeiras sílabas pronunciadas, o estilo impecável, testemunhavam da mais bela escola de canto francês, que se perdeu tanto hoje. Mesmo o timbre, se não tinha a maciez quente e eslava de seu colega Ataneli, fazia lembrar um intérprete como o barítono Michel Dens, seu grande antecessor no papel de Athanaël. Ouça André Heyboer aqui num trecho de La navarraise, de Massenet.

O terceiro papel, Nicias, foi também assumido por dois tenores idiomáticos: o monegasco Jean François Borras, que havia interpretado um maravilhoso Rodolfo no Municipal, em 2013, e o quebequense Luc Robert, conhecido como o “bombeiro cantor”, ambos excelentes. Ouça Jean François Borras aqui, numa ária de Werther, e Luc Robert numa ária de Tosca.

O jovem húngaro Károly Szemerédy e o brasileiro Saulo Javan, ambos suntuosos, deram vida ao papel de Polémon. Perfeitas, as Crobyle e Myrtale de Carla Cottini e Malena Dayen, a Encantadora, de Lina Mendes, a Albine, de Ana Lucia Benedetti.

Seja para a primeira, seja para a segunda distribuição, muito feliz será quem puder assistir.


[Veja também]
Thaïs tem votação aberta no Ouvinte Crítico até o dia 3 de agosto; participe

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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