Banner 180x60
Bom dia.
Quarta-Feira, 21 de Fevereiro de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
Do pan-americanismo à pós-modernidade - ou de Carpentier a Gilberto Mendes e John Adams (24/10/2008)
Por João Marcos Coelho

Não se passa batido pela leitura, quase que em seqüência, de duas obras-primas do escritor cubano Alejo Carpentier, recentemente lançadas no Brasil ("Os Passos Perdidos", Martins Editora; "Concerto Barroco", Companhia das Letras). Além da qualidade extraordinária de sua prosa, é inevitável a simpatia e solidariedade pelo tenaz combate de Carpentier por uma arte latino-americana. E sua matriz, sabe-se, não foram as artes plásticas, ou a literatura. Mas a música. Ele foi crítico musical por bom tempo, assim como engenheiro de som de gravações de música clássica nos anos 30, em Paris. Amigo de vários compositores, entre eles Villa-Lobos, Carpentier transformou em sua a bandeira de luta por uma música pan-americana, com identidade própria, desvinculada das amarras européias. Tanto que, por exemplo, detestava a fase neoclássica de Villa-Lobos, porque enxergava ali apenas um mero transplante das formas européias.

O bom de Carpentier é que ele não fala de música com superficialidade. Fala como quem a conhece a fundo, de verdade. E seu ideário não é sumariamente nacionalista - embora tivesse também este viés, pois ele teve seu período de formação numa época embebida pelos valores nacionalistas.

Quem sabe sua maior contribuição para os músicos seja o conceito de que a linguagem e as formas gerais desta arte pouco mudaram num amplo arco histórico, de Vivaldi e Haendel, no século 18, a Stravinsky, mais de 250 anos depois. "Na música que chamamos de ocidental, desde o século 16 até hoje", declarou numa entrevista rara, "passam as gerações, mudam os estilos, ampliam-se as obras em proporções, outras se reduzem, há épocas dominadas por um certo miniaturismo (o de Webern) e gigantismo (o de Mahler). Mas os que privam da intimidade dos compositores e os viram trabalhar sabem que se há uma arte em que as preocupações de fundo mudam pouco, esta é a música. Na música, trata-se de se especular sobre este valor fundamental que é o transcurso do tempo. O espaço não existe; existe apenas a passagem do tempo."

Perdoem a longa citação, mas ela, de certo modo, prefigura uma postura pós-moderna - sim, é preciso usar esta expressão, apesar da hostilidade que a cerca - tão comum hoje em dia. No DVD "Gilberto Mendes - Uma Odisséia Musical", o compositor reconhece que voltou de Darmstadt impressionadíssimo com o que ouvira de Berio, Stockhausen, Nono e Boulez. "Mas nenhum de nós [ele, Willy, Damiano Cozzella, Júlio Medaglia] queria transplantar aquilo por aqui."

Com uma atitude muito parecida, o compositor norte-americano John Adams - em outro excelente DVD, "A Portrait and a Concert of American Music", Arthaus - diz a mesma coisa. Ou seja: "Para mim, a música é acima de tudo comunicativa." Mais: Adams diz que, como músico americano, usa todo tipo de fontes musicais em sua criação. De novo, muito parecido com Gilberto Mendes, que freqüenta todas as músicas - "acho que gosto até da música ruim" -, do bolero às big bands dos anos 30, de Hollander às trilhas sonoras do cinema americano.

O melhor: tanto Gilberto como Adams, sem o menor preconceito, retrabalham esses materiais sonoros ecléticos e fazem deles uma seiva riquíssima para suas criações. Quem duvidar, que ouça, do brasileiro, a recente "Ratros Harmônicos" e tantas outras obras dos últimos quarenta anos. De Adams, basta ouvir sua última ópera, "A Flowering Tree", composta em 2006 por encomenda do Festival de Salzburgo em tributo à "Flauta Mágica" de Mozart. Ou então encantar-se com o modo como ele captura a essência do jazz em sua música para piano, que, aliás, cabe num único CD lançado pela Naxos no ano passado. O pianista Ralph van Raat interpreta as excepcionais "Phrygian Gates", "American Berserk", "China Gates" e "Hallelujah Junction" (esta última ao lado de Maarten van Veen).





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 1 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 2 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Relativizações, realidades e transformações: um olhar sobre “A flauta mágica” do Theatro Municipal Por João Luiz Sampaio (23/12/2017)
A produção é boa, mas faltou mágica na “Flauta” do Municipal Por Nelson Rubens Kunze (23/12/2017)
O prazer de ouvir Neymar Dias – muito bachiano e muito brasileiro Por Irineu Franco Perpetuo (20/12/2017)
Uma temporada inclusiva, feita com inteligência Por João Marcos Coelho (19/12/2017)
Uma grande e despretensiosa sátira Por João Luiz Sampaio (8/12/2017)
A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi) Por Nelson Rubens Kunze (8/12/2017)
Museu virtual reúne milhares de instrumentos de coleções britânicas Por Camila Frésca (4/12/2017)
Karnal, a Osesp e o governador Por Nelson Rubens Kunze (24/11/2017)
Quem não trafega nas redes sociais se trumbica Por João Marcos Coelho (24/11/2017)
Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
Três óperas Por Jorge Coli (7/11/2017)
Convocação de OSs para Emesp, Guri e Conservatório de Tatuí reforça torniquete financeiro do governo Por Nelson Rubens Kunze (3/11/2017)
Para onde nos levará a onda de censura no país? Por João Marcos Coelho (31/10/2017)
Os quartetos de cordas e a reavaliação da obra de Villa-Lobos Por Camila Frésca (30/10/2017)
O Brahms profundo e espontâneo de Nelson Freire Por Irineu Franco Perpetuo (25/10/2017)
Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Fevereiro 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
28 29 30 31 1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 1 2 3
 

 
São Paulo:

23/2/2018 - Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo e Coro Lírico Municipal de São Paulo

Rio de Janeiro:
21/2/2018 - Cecília Guimarães, Maria Helena de Andrade, Fernanda Cruz, Adriana Kellner e Ezequiel Peres - pianos

Outras Cidades:
22/2/2018 - Belo Horizonte, MG - Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046