Banner 468x60
Banner 180x60
Boa noite.
Sexta-Feira, 18 de Agosto de 2017.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


 

Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
Marcos Salles e o violino amazônico (30/10/2008)
Por Camila Frésca

No último artigo ("Brasil, um país de violinistas?") comecei a falar da tradição de violinistas no Brasil. Entrando no campo dos intérpretes-compositores, mencionei três nomes importantes, mas só foi possível tratarmos detidamente de Manuel Joaquim de Macedo. Pois bem, agora é a vez de falar um pouco mais de Marcos Raggio de Salles (1885-1965), violinista e compositor de família paraense, nascido em Salvador, que foi provavelmente o primeiro compositor a escrever para violino solo no Brasil.

Marcos Salles cresceu num ambiente em que a música estava muito presente, pois ambos os pais tocavam piano. Seu pai, o médico Mecenas Salles, acompanhava com entusiasmo o movimento artístico de Belém do Pará. Aos 13 anos Salles se interessa pelo violino, e toma aulas com o professor italiano Luigi Sarti, mestre de muitos instrumentistas da região. Sarti o recomenda a seu irmão, e é assim que Marcos Salles parte para um período de estudos na Real Academia de Bolonha, na Itália, em 1908. De lá volta com o diploma de "maestro violinista" e com algumas composições debaixo do braço. Eram os Seis caprichos para violino solo op. 20, que apresentam diferentes maneiras de tratar o violino, em escala crescente de dificuldades. Ao que tudo indica, é a primeira vez que um brasileiro escreve um conjunto de peças para violino solo.

Ao retornar vive entre Salvador, Belém e excursionando para Manaus, onde dava com freqüência concertos que incluíam obras suas. Em 1911, decide ir morar no Rio de Janeiro, e pontua sua viagem com apresentações em diversas capitais, como São Luís, Recife e Vitória. Em 1914, funda em Niterói a Escola de Música Fluminense; quatro anos mais tarde, é a vez de colaborar na criação da Academia de Música da Bahia, que logo se torna uma das principais escolas de música do Estado; e, em 1936, funda ao lado de Lorenzo Fernandez o Conservatório Brasileiro de Música, ocupando a cadeira de violino e formando gerações de violinistas. Seu interesse pelo ensino fez com que criasse vários métodos de iniciação musical ao violino, bem como a "Manu Pauta", método de ensino de música e canto, publicado em 1938. Neste período revela-se outro talento no artista, o de escultor: observando os colegas do Liceu de Artes e Ofícios, inicia-se na prática e obtêm sucessivos prêmios no Salão Nacional de Belas Artes. O busto de Lorenzo Fernandez que esculpiu pode ser visto hoje em dia no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Salles segue ensinando, compondo e dando concertos até falecer nesta cidade a 6 de setembro de 1965.

Seu catálogo de obras já organizadas conta com 92 peças, que abrangem o piano solo, canto e piano, violoncelo e piano, coros, arranjos e muitas composições para violino e piano, entre outras. Deste total, 21 foram escritas para violino solo - isso sem contar as cadências que escreveu para concertos de Mozart, Viotti, Paganini e Beethoven. Nas peças para violino, Marcos Salles procurava caracterizar o ambiente amazônico em que crescera, incorporando melodias folclóricas e retratando mitos e lendas da região em obras como Lenda da lua, A chuva no Pará, O saci, A Matinta e o curupira, A viola do caboclo, etc.

Salles editou algumas de suas peças ao longo da vida - como Ave Maria e Sonho de Tartini (cadência para a famosa sonata Trillo del diavolo, de Tartini), ambas para violino solo - mas principalmente deixou gravações, em antigos discos de cera e 78 rpm. Nestes registros privilegiou sua faceta de intérprete gravando obras de outros autores mais do que as próprias. (Alguns dos discos que gravou podem ser ouvidos hoje em dia na Discoteca Oneyda Alvarenga do Centro Cultural São Paulo). Sua filha Marena Salles e o musicólogo Vicente Salles têm empreendido um louvável esforço para recolocar a obra de Salles em circulação, publicando edições de diversas obras (que podem ser adquiridas pelo site da Musimed) e colocando à disposição dos pesquisadores, de forma generosa, os dados que possuem - foi com a ajuda deles, aliás, que pude obter muitas das informações que constam nesse texto.

Marena e Vicente também concluíram um livro sobre Marcos Salles, que deve ser publicado em breve, e cederam cópias de algumas de suas gravações, feitas em 1942, para que os leitores do Site CONCERTO possam ouvi-las com exclusividade (disponível em nossa seção Podcast e para download neste link). Podemos notar, nas gravações do artista, o intérprete fino e pessoal que toca Noveletas, de Arthur Iberê de Lemos, tendo o próprio compositor ao piano. E, na peça seguinte - Cascata, de autoria do próprio Salles - fica claro que a virtuosidade da escrita para o violino só pode vir de um compositor que conhece a fundo seu instrumento e tem sobre ele um perfeito domínio técnico.

Eis aí mais um nome célebre do violino brasileiro que merece ser descoberto pelos melômanos e ter suas obras estudadas pelos jovens violinistas.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

Mais Textos

O bel canto colorido e expressivo de Javier Camarena Por Irineu Franco Perpetuo (10/8/2017)
Osesp faz belo concerto com programa raro Por Jorge Coli (9/8/2017)
Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela Por Camila Frésca (8/8/2017)
Em busca da música Por João Marcos Coelho (28/7/2017)
Neojiba: o exemplo da Bahia para o Brasil Por Irineu Franco Perpetuo (24/7/2017)
Você conhece José Vieira Brandão? Por João Marcos Coelho (12/7/2017)
Campos do Jordão, Salzburg e a economia da cultura Por Nelson Rubens Kunze (12/7/2017)
Rameau em “dreadlocks” Por Jorge Coli (11/7/2017)
Isabelle Faust, Vadim Repin e Julian Rachlin: sobre expectativas, decepções e boas surpresas Por Camila Frésca (5/7/2017)
Encomenda da Osesp mostra Mehmari maduro Por Irineu Franco Perpetuo (3/7/2017)
Fórum apresenta importantes orientações para “endowments” culturais no Brasil Por Nelson Rubens Kunze (10/6/2017)
Filme “Filhos de Bach” marca por sua sensibilidade e delicadeza Por Nelson Rubens Kunze (9/6/2017)
Transformação social e o futuro da música clássica Por Anahi Ravagnani e Leonardo Martinelli (30/5/2017)
Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo Por João Marcos Coelho (25/5/2017)
Festival Amazonas de Ópera encena ‘Tannhäuser’ e comemora 20ª edição Por Nelson Rubens Kunze (23/5/2017)
Noites memoráveis com Isabelle Faust e Alexander Melnikov Por Camila Frésca (18/5/2017)
Com Faust e Volmer, a Osesp chega à excelência Por Irineu Franco Perpetuo (16/5/2017)
Foi um esplendor, mas... Por Jorge Coli (16/5/2017)
Perdas e danos (Santa Marcelina incorpora Theatro São Pedro) Por Nelson Rubens Kunze (9/5/2017)
Pesquisa do Projeto Guri mostra resultados importantes Por Camila Frésca (3/5/2017)
Diana Damrau, uma artista de mais de 50 tons Por Irineu Franco Perpetuo (2/5/2017)
E Cristian Budu, finalmente, tocou com a Osesp! Por Irineu Franco Perpetuo (21/4/2017)
Olivier Toni Por João Marcos Coelho (20/4/2017)
“Uirapuru”, de Villa-Lobos: algumas considerações no centenário da obra Por Camila Frésca (12/4/2017)
Nasce uma estrela Por Jorge Coli (11/4/2017)
A festa do Concurso Maria Callas: competência e amor à música Por Jorge Coli (4/4/2017)
Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresenta “Jenufa”, de Janácek Por Nelson Rubens Kunze (4/4/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Agosto 2017 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
30 31 1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30 31 1 2
 

 
São Paulo:

26/8/2017 - 16ª Mostra de Cordas Dedilhadas

Rio de Janeiro:
26/8/2017 - Eduardo Monteiro - piano, Paulo Sérgio Santos - clarinete, Luiz Garcia - trompa e Fernando Portari - tenor

Outras Cidades:
25/8/2017 - Araraquara, SP - Grupo Balkãn Neo Ensemble
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2017 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046