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Marcos Salles e o violino amazônico (30/10/2008)
Por Camila Frésca

No último artigo ("Brasil, um país de violinistas?") comecei a falar da tradição de violinistas no Brasil. Entrando no campo dos intérpretes-compositores, mencionei três nomes importantes, mas só foi possível tratarmos detidamente de Manuel Joaquim de Macedo. Pois bem, agora é a vez de falar um pouco mais de Marcos Raggio de Salles (1885-1965), violinista e compositor de família paraense, nascido em Salvador, que foi provavelmente o primeiro compositor a escrever para violino solo no Brasil.

Marcos Salles cresceu num ambiente em que a música estava muito presente, pois ambos os pais tocavam piano. Seu pai, o médico Mecenas Salles, acompanhava com entusiasmo o movimento artístico de Belém do Pará. Aos 13 anos Salles se interessa pelo violino, e toma aulas com o professor italiano Luigi Sarti, mestre de muitos instrumentistas da região. Sarti o recomenda a seu irmão, e é assim que Marcos Salles parte para um período de estudos na Real Academia de Bolonha, na Itália, em 1908. De lá volta com o diploma de "maestro violinista" e com algumas composições debaixo do braço. Eram os Seis caprichos para violino solo op. 20, que apresentam diferentes maneiras de tratar o violino, em escala crescente de dificuldades. Ao que tudo indica, é a primeira vez que um brasileiro escreve um conjunto de peças para violino solo.

Ao retornar vive entre Salvador, Belém e excursionando para Manaus, onde dava com freqüência concertos que incluíam obras suas. Em 1911, decide ir morar no Rio de Janeiro, e pontua sua viagem com apresentações em diversas capitais, como São Luís, Recife e Vitória. Em 1914, funda em Niterói a Escola de Música Fluminense; quatro anos mais tarde, é a vez de colaborar na criação da Academia de Música da Bahia, que logo se torna uma das principais escolas de música do Estado; e, em 1936, funda ao lado de Lorenzo Fernandez o Conservatório Brasileiro de Música, ocupando a cadeira de violino e formando gerações de violinistas. Seu interesse pelo ensino fez com que criasse vários métodos de iniciação musical ao violino, bem como a "Manu Pauta", método de ensino de música e canto, publicado em 1938. Neste período revela-se outro talento no artista, o de escultor: observando os colegas do Liceu de Artes e Ofícios, inicia-se na prática e obtêm sucessivos prêmios no Salão Nacional de Belas Artes. O busto de Lorenzo Fernandez que esculpiu pode ser visto hoje em dia no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Salles segue ensinando, compondo e dando concertos até falecer nesta cidade a 6 de setembro de 1965.

Seu catálogo de obras já organizadas conta com 92 peças, que abrangem o piano solo, canto e piano, violoncelo e piano, coros, arranjos e muitas composições para violino e piano, entre outras. Deste total, 21 foram escritas para violino solo - isso sem contar as cadências que escreveu para concertos de Mozart, Viotti, Paganini e Beethoven. Nas peças para violino, Marcos Salles procurava caracterizar o ambiente amazônico em que crescera, incorporando melodias folclóricas e retratando mitos e lendas da região em obras como Lenda da lua, A chuva no Pará, O saci, A Matinta e o curupira, A viola do caboclo, etc.

Salles editou algumas de suas peças ao longo da vida - como Ave Maria e Sonho de Tartini (cadência para a famosa sonata Trillo del diavolo, de Tartini), ambas para violino solo - mas principalmente deixou gravações, em antigos discos de cera e 78 rpm. Nestes registros privilegiou sua faceta de intérprete gravando obras de outros autores mais do que as próprias. (Alguns dos discos que gravou podem ser ouvidos hoje em dia na Discoteca Oneyda Alvarenga do Centro Cultural São Paulo). Sua filha Marena Salles e o musicólogo Vicente Salles têm empreendido um louvável esforço para recolocar a obra de Salles em circulação, publicando edições de diversas obras (que podem ser adquiridas pelo site da Musimed) e colocando à disposição dos pesquisadores, de forma generosa, os dados que possuem - foi com a ajuda deles, aliás, que pude obter muitas das informações que constam nesse texto.

Marena e Vicente também concluíram um livro sobre Marcos Salles, que deve ser publicado em breve, e cederam cópias de algumas de suas gravações, feitas em 1942, para que os leitores do Site CONCERTO possam ouvi-las com exclusividade (disponível em nossa seção Podcast e para download neste link). Podemos notar, nas gravações do artista, o intérprete fino e pessoal que toca Noveletas, de Arthur Iberê de Lemos, tendo o próprio compositor ao piano. E, na peça seguinte - Cascata, de autoria do próprio Salles - fica claro que a virtuosidade da escrita para o violino só pode vir de um compositor que conhece a fundo seu instrumento e tem sobre ele um perfeito domínio técnico.

Eis aí mais um nome célebre do violino brasileiro que merece ser descoberto pelos melômanos e ter suas obras estudadas pelos jovens violinistas.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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