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“Lohengrin” e a Arte Povera (13/10/2015)
Por Jorge Coli

Não sei se os especialistas em arte contemporânea de São Paulo foram ver o Lohengrin, atualmente apresentado no Theatro Municipal. Se não foram, deveriam ir.

O cenarista é Yannis Kounellis, veterano artista atuante no movimento Arte Povera, que eclode na Itália nos anos de 1960. Movimento que contrariava quaisquer seduções suntuosas para expor, sob forma de instalações, a presença, o peso, de materiais pobres: terra, restos de madeira, de plástico, lixo industrial  etc. Matérias brutas: nas estratégias das disposições organizadas – as instalações já contêm, em si mesmas, o espírito de teatralidade – situam-se numa fronteira entre a evidência material e o arquétipo.

Kounellis nasceu em 1936. É um patriarca que buscou, ao longo de sua carreira, rever criticamente a Arte Povera, mas que, em sua obra, nunca se afastou inteiramente dela. Cria reiterando obsessões.


Instrumentos pendurados em cena de Lohengrin no Municipal de São Paulo [foto: Heloísa Ballarini/divulgação]

Sucediam-se, no palco do Municipal, as escolhas míticas que o identificam de modo tão forte: roupas penduradas, pretas, fúnebres; velho guarda-roupa; amontoado de lenha sobre uma mesa; carvão em sacos de estopa; cadeiras de espaldar arredondado, dispostas em círculos; facas dependuradas (assim como instrumentos de música e manequins femininos vestidos de luto). O cenário do segundo ato retomou, de modo preciso, uma de suas instalações: placas quadradas de metal (ou simili-metal), plantadas no chão por um dos ângulos e tendo, ao redor, os clássicos sacos de carvão que o fascinam. Tudo possui gravidade nos dois sentidos da palavra: o peso tem papel importante nessa arte, que impõe o sentimento de seriedade e respeito.


Facas e máscaras do artista Yannis Kounellis, que assinou os cenários [foto: Heloísa Ballarini/divulgação]

Fascinante para o amador, crítico ou historiador da arte contemporânea, resta saber se esses cenários funcionaram para o Lohengrin, de Richard Wagner.

Não é fácil dizer. Ou antes, talvez funcionassem com outra direção de cena. Embora Henning Brockhaus tenha, ele próprio, escolhido Kounellis como cenarista, há, em suas concepções, como que uma incompreensão.

Na breve entrevista dada por Brockhaus e publicada no programa da ópera, algumas palavras já pareciam discordar de Kounellis: falar de símbolos e estilo a respeito de sua arte soa curioso. Pensar que a Arte Povera é um estilo, imaginar símbolos para um artista que declarou: “Meu foco é apresentar e não representar”, não parece muito exato.

As contradições mostraram-se no decorrer do espetáculo. Brockhaus gosta das guirlandas de bailarinos, da eloquência nos movimentos cênicos, dos gestos teatrais. Isso funcionou muito bem em sua passada colaboração com o gênio de Josef Svoboda, cenarista com um elevado sentido da beleza abstrata, amoroso dos brilhos e dos reflexos. Na austeridade do mundo inventado por Kounellis, os figurinos em cetim, os gestos graciosos soavam falso e sem convicção (veio ao meu espírito, em contraste, a formidável intensidade das montagens concebidas por Gerald Thomas para Wagner).

Acrescente-se o apelo de Brockhaus a uma simbologia mecânica e por demais evidente. As máscaras usadas por todos antes da chegada de Lohengrin, e depois de sua partida, como sinal de desumanização; a obviedade das flores de Elsa; etc, esvaziadas de mistério e de poesia.


A ópera é curiosa. Sua natureza é parecida com o motor cansado de um carro: às vezes pega, às vezes não. Isso torna muito emocionante a ida ao teatro. Não adianta a melhor orquestra, o melhor elenco: quando não pega, não pega.

A estreia de Lohengrin no Municipal de São Paulo, no dia 8, não pegou. John Neschling assumiu a obra com interioridade meditativa, cujo poder, no entanto, se perdia por vezes, encaminhando-se para uma atmosfera indiferente, desgarrando o espectador.

O elenco também não ajudou. Marion Ammann, com um timbre que se descolore nos agudos, com forte vibrato, chegou ao final da obra sem dificuldade, como uma boa Elsa rotineira de província alemã. Tómas Tómasson, no papel de Telramund, tinha sua voz abafada na selva orquestral wagneriana.

O primeiro momento de magia surgiu com a chegada de Tomislav Muzek, cuja voz de anjo correspondia perfeitamente à espiritualidade do personagem. À espiritualidade, mas não à partitura, porém: quem o aconselhou a assumir o papel de Lohengrin foi um amigo da onça. Muzek foi feito para encarnar Tamino, Nemorino, Don Ottavio. Pude ouvi-lo, excelente, como Erik no Navio Fantasma, em Bayreuth. Mas Erik é um papel breve, e a orquestração de Mozart ou Donizetti nada tem em comum com a monumentalidade wagneriana. No seu esforço para, forçando a voz, vencer a longa e pesada composição, chegou ao final mostrando cansaço. Sua narração, no último ato, foi admirável, e o adeus ao cisne também. Mas o esforço era visível. Quantos cantores já não destruíram suas belas vozes em papéis pesados demais para eles. (Ouça Tomislav Muzek em Uma furtiva lagrima)

O triunfo da noite foi arrebatado por Marianne Cornetti, Ortrud formidável, cuja voz e autoridade cênica já haviam sido demonstradas em São Paulo no Trovatore do ano passado. O público não se enganou, e lhe consagrou as palmas mais calorosas. (Ouça Marianne Cornetti na ária final de La Gioconda, de Ponchielli).

Tudo mudou na segunda noite, no dia 10. A orquestra parecia mais segura, e Eduardo Strausser, lírico e narrativo, dosando a dinâmica de maneira a exaltar as vozes, capturou imediatamente a atenção. Carlos Eduardo Marcos, o arauto, e Luiz-Ottavio Faria, o rei Henrique, destacaram-se então; o Telramund de Johmi Steinberg – cantor que impressionou no papel de Alberich, quando O ouro do Reno foi apresentado em forma de concerto, em 2013, no Municipal – mostrou suas qualidades de timbre, de graves, de projeção. Eles prepararam excelentemente a entrada de Elsa.

A jovem americana Natalie Bergeron, que a encarnava, empolgou imediatamente. O programa não diz se é a primeira vez que ela assume o papel, e no site Operabase consta apenas uma única apresentação: o Lohengrin de São Paulo! Esplêndida voz, jovem, amorosa; timbre caloroso e argênteo ao mesmo tempo; musicalidade e perfeita emissão e, mais que tudo isso, ela ERA Elsa, com seu amor, temor e contradições. (Ouça Natalie Bergeron em La mamma morta, de Andrea Chénier, de Giordano)

A finlandesa Johanna Rusanen foi, ela também, uma poderosa Ortrud, com voz luminosa e magníficos agudos. (Ouça-a aqui num dos Wesendonck Lieder de Richard Wagner: Der Engel)

Enfim, o russo Viktor Antipenko, que assumiu pela primeira vez o papel de Lohengrin em maio passado, na Opéra de Rouen Haute-Normandie, com seu vibrato firme e cerrado, com projeção vocal sem falhas, com a plasticidade de sua linha melódica, impôs o personagem, seguro e firme. Foi um belo, um belíssimo cavaleiro do Graal.

Curioso: não é a primeira vez que o segundo elenco supera o primeiro no Municipal.


Confira abaixo uma seleção da Arte Povera do grego Yannis Kounellis:


[imagem: Richard Saker]


[imagem: Manolis Baboussis]


[imagem: Tate/divulgação]


[imagem: Tate/divulgação]

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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