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Vozes do século XVII que falam à contemporaneidade (27/11/2015)
Por Camila Frésca

Cantora e pesquisadora Anna Maria Kieffer lança novo trabalho, concebido a partir dos sermões do padre Antônio Vieira

 “(...) Não são só ladrões os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam”. Exceto por uma ou outra pista temporal, poderíamos acreditar que este texto é de um autor contemporâneo, comentando algumas de nossas mazelas. Trata-se, no entanto, do Sermão do bom ladrão, pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa em 1655 pelo padre Antônio Vieira. O conjunto de sermões do padre lisboeta que viveu muitos anos no Brasil constitui-se num dos maiores patrimônios da língua portuguesa. Portanto, não deixa de ser ousado tomar alguns desses textos como ponto de partida para uma obra musical.


Anna Maria Kieffer, que lança o CD-livro Antônio Vieira: do Tejo ao Amazonas [foto: divulgação]

Mas poucos artistas brasileiros estão tão aptos para a empreitada como a cantora, compositora e pesquisadora Anna Maria Kieffer. Dona de enorme bagagem cultural e artística, Anna dedica-se há muitos anos à música antiga do Brasil e à música contemporânea, além de compor trilhas sonoras para cinema e exposições. Em seu último CD-livro, Antônio Vieira: do Tejo ao Amazonas, Anna concebe uma obra com cerca de 60 minutos de duração para um ator-recitante, três cantores solistas, coro masculino, coro misto, órgão, um percussionista e música eletroacústica. A peça segue um roteiro formado por trechos de seis sermões e uma “pajelança final”. Cada um desses sermões foi proferido em diferentes lugares e momentos, e a obra segue uma trajetória que se inicia na Capela Real de Lisboa e termina às margens do rio Maranhão, na Bacia Amazônica (todos locais onde esteve Antônio Vieira). Os trechos do texto original de Vieira são entremeados de música, incluindo adaptações de canto gregoriano, citações de música brasileira do período colonial, música tradicional indígena e cantos compostos especialmente para os personagens que Vieira cita e aos quais dá voz no corpo de seus sermões. A pajelança final mescla cantos indígenas recolhidos por Jean de Léry, no século XVI, a cantos tupi de autoria de José de Anchieta e cantos indígenas da Bacia Amazônica, recolhidos no século XX.

A obra foi classificada como um “oratório profano”. Anna conta que demorou para chegar a esta denominação, mas julgou ser a mais apropriada ao formato da obra, que mescla texto falado a partes musicais cantadas e canto gregoriano, mas que ao invés de acompanhamento por instrumentos tradicionais, utiliza a eletroacústica. E que, apesar de partir de um texto religioso, é concebida de forma laica. “É música mas é teatro ao mesmo tempo”, ela explica. “Trabalhei quase como quem faz um filme: não fiz tudo mas estive junto a tudo”. Joaci Pereira Furtado é quem fez a seleção dos sermões e dos trechos a serem utilizados, o regente Vitor Gabriel realizou a adaptação dos cantos gregorianos, e o compositor Vanderlei Lucentini concebeu a eletroacústica. Graduado em filologia românica pela Universidade de Lisboa, o experiente ator português Luis Lima Barreto atua como recitante e tem importância fundamental, já que desempenha o papel de Antônio Vieira declamando seus sermões. “O texto é de tal forma sensacional que tinha que ser o condutor de tudo. Além disso, os sermões são absolutamente contemporâneos”, afirma Anna.

Antonio Vieira: do Tejo ao Amazonas, é uma obra que começou a ser gestada em 2008 e no mesmo ano foi apresentada ao vivo numa primeira versão. De lá pra cá, foram mais sete anos de reelaboração e maturação, até se chegar no produto final, muitíssimo sofisticado, que é este CD-livro – tanto em seu acabamento material como em sua concepção musical. De forte apelo dramático, a peça parte de falas do século XVII mas está profundamente relacionada a nossa contemporaneidade. Anna não esconde a satisfação com o resultado que o trabalho atingiu, nem a felicidade de poder leva-lo ao palco novamente. Conferi a primeira apresentação, em 2008, e saí impactada pela montagem realizada então no Pátio do Colégio. Estou, portanto, curiosíssima pra ver como tudo foi depurado ao longo desses sete anos, e será finalmente apresentado no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, no dia 1º de dezembro. Um programa imperdível.

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Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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