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Festa com música (5/2/2016)
Por Jorge Coli

Com o aniversário da cidade de São Paulo, no dia 25 de janeiro, aconteceram os primeiros concertos do ano. Foram vários celebrando a data. Eu fui a dois, um às 17h, no Teatro Municipal, outro às 20h, no São Pedro.

Somos muito felizes em ter, na cidade, formações capazes de dar música tão boa. Sentimento de júbilo ao passar de um teatro ao outro, de terminar a noite em boa felicidade sonora.

Concerto 1
O Municipal estava bem quente: haviam roubado os fios de cobre que alimentam o sistema de ar condicionado. As portas da sala ficaram abertas, e o calor foi esquecido graças à qualidade da música.

Regeu Eduardo Strausser, o jovem assistente da Sinfônica Municipal, num programa que não tinha nada de paulistano, em que cada peça era excelente em si, mas que resultavam numa curiosa combinação.

A primeira composição foi de Cristian Carrara, compositor italiano, hoje com 39 anos, de quem John Neschling havia programado há um ano a obra Tales from the Underground. Para mim, foi uma descoberta, e ela me havia surpreendido pelo lirismo, pelo encanto delicado, pelo poder poético. A obra apresentada no concerto de agora se intitula Mater e demonstra novamente essas mesmas características fundamentais. Um tecido de cordas meditativo, maravilhosamente fino, perpassado por melancolia, em que os naipes da sinfônica mostraram suas grandes qualidades.

Carrara é insistentemente comparado com Arvo Pärt, paralelo que não me convence. As raízes de Carrara parecem-me de bela e plena tradição italiana. Em Mater aflorava a mesma sensibilidade dos Crisantemi de Puccini. Não é retomada intencional ou referência direta, mas sensibilidade mesmo, assentada sobre um subterrâneo comum, no qual a marca individual de Carrara se afirma.

Suas duas composições apresentadas em 2015 e em 2016 foram excelentes amostras. Mas são curtas, hors d’oeuvre abrindo os programas. Seria muito bom se tivéssemos dele alguma partitura mais ampla, que permitisse a descoberta maior de sua obra.

Em seguida veio o Concerto para piano nº 1 de Tchaikovsky. Nunca como nesta partitura o compositor personificou tanto uma drama queen transcendente, cósmica, universal, levada ao apogeu pelo gênio.

O solista foi Daniil Kharitonov, pianista russo de apenas 17 anos. Teve um rápido lapso no primeiro movimento, que não alterou em nada a altíssima interpretação. Romanticamente expressivo, seu fraseado é coerente e rico de surpresas; seu toque – com perdão da metáfora meio jeca – lembrava os tons do luar. Ele soube, em cumplicidade com Strausser, eletrizar a partitura com uma hipervoltagem que incendiou a alma do público. As paixões desesperadas e grandiosas que esse concerto contém sobressaíram com força extrema.

O arrebatamento continuou no bis muito bem escolhido, o Estudo, op. 25, nº 12 de Chopin, com suas vagas oceânicas encrespadas pelo vento.

Depois de tal vibração e de tal êxtase, como continuar o programa? Strausser escolheu a Sinfonia nº 4 de Brahms, obra cujo clima é tão diverso de Tchaikovsky. Não foi simples passar de uma para outra, do concerto abrasador para a sinfonia mais reservada. Strausser trabalhou com finura as sonoridades, e pouco a pouco o publico se envolveu com as novas emoções.

Concerto 2
De Brahms a Brahms: o concerto do Municipal se encerrou com a Quarta de Brahms, o do Theatro São Pedro se iniciou com a Abertura trágica. Para uma celebração de aniversário, ela parecia estar ali aludindo ao pessimismo dos tempos em que vivemos. Regia André dos Santos, o assistente da Orquestra do São Pedro.

Em seguida, o Concerto para piano composto por Maria Aparecida Cortes Macedo. Por suas dimensões, uns 15 minutos, é antes um concertino do que um concerto.

Obra sincera, discreta, sensível, romântica no seu espírito e na sua forma, foi lindamente defendida pelo solista Renan Branco. Que em seu bis dividiu o teclado com o maestro André dos Santos, tocando o Le pas espagnol, da suíte Dolly, composta por Fauré: foi o momento mais eufórico da noite.

Enfim, a Peça de concerto, op. 86, de Schumann, para quatro trompas. Eric Gomes, Lucca Soares, Vagner Rebouças, liderados por Rafael Nascimento, este trompa solista da própria orquestra, terminaram gloriosamente a noite, assegurando uma interpretação à altura da composição de Schumann, tão pouco tocada.

Clássicos Editorial Ltda. © 2016 - Todos os direitos reservados.
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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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