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Espírito vienense e alma russa (15/3/2016)
Por Jorge Coli

Música tem cor.

Há gente que não gosta desse tipo de metáfora: estão errados. Trata-se mais do que metáfora, por sinal. É uma percepção intuitiva que tem história bem longa. Os pitagóricos pensavam numa correlação entre a escala musical e as cores do arco-íris; Leonardo da Vinci foi fascinado por essas relações; os românticos usaram delas como um dado natural indiscutível: Berlioz ensina, em seu Tratado da instrumentação e da orquestração como obter “sons iridescentes” da orquestra.

Música tem cor sim, e se alguém duvidasse, bastava ir à Sala São Paulo, ouvir a Filarmônica de Viena. Eu fui na terça-feira passada, dia 8.


Filarmônica de Viena sob regência de Valery Gergiev, na Sala São Paulo [foto: Éric Brochu/divulgação]

Mítica, lendária, disputando com a Filarmônica de Berlim o lugar de “primeira orquestra do mundo” (disputa que, me parece, não faz nenhum sentido), a Filarmônica de Viena tem um som caloroso, tom de ouro velho, tom acobreado de poente. Nada dos brilhos cromados de tantas formações americanas, uniformes, cintilantes, homogêneos.

Dirigida por Gergiev, ela adquiriu certa malemolência, que evitava os contrastes bruscos, que fundia os timbres, arejando as articulações, evitando sublinhá-las, fundindo com leveza os sons. Nada de imperativo, de impositivo; os desenhos melódicos dissolviam-se em cor. Não era arte da linha, mas da pincelada; não era arte do contorno, mas da cor.

As obras escolhidas, por sinal, eram pictóricas. O concerto começou com a abertura de O navio fantasma, de Wagner: uma tempestade na qual o drama cedia o passo a uma sutil sensualidade. O apelo dos metais, antes da retomada do primeiro tema continha, aninhado, um espírito de abandono meio deliquescente, meio erótico, em que a narração vinha menos impositiva que embriagada em si mesma.

Em seguida, La mer, de Debussy. Aqui, a esplêndida paisagem sonora, ainda uma vez rica de sensualidade, era portadora de um abandono melancólico, de um deslumbramento nostálgico, como na Invitation au voyage, de Baudelaire. Tenho sempre, no ouvido da memória, a gravação dessa obra feita por Toscanini, com a NBC Orchestra, disco da minha adolescência, e nada podia ser mais diverso da pulsação toscaniniana, cortante e tensa, precisa, tão inquietante, do que a concepção de Gergiev.

A última obra do programa foram os Quadros de uma exposição, de Mussorgsky. Esvaziamento de ênfases, fortes e fortíssimos exaltando o colorido transparente, narração acentuando o mistério – que belos tons sombrios no Gnomo; que brumas nostálgicas na balada do Velho castelo, tomada num andamento bem calmo; que poesia na tuba de Bydlo; que sentimento espiritual nas Catacumbas, com o trompete trazendo luz a um tecido tão escuro. Samuel Goldenberg e Schmuÿle perdeu o caráter de caricatura, que tantos maestros acentuam, e adquiriu uma força trágica. Os quadros mais alegres: as Tulherias, os Pintainhos, O mercado de Limoges, vibravam, vivos e luminosos. As duas últimas, Baba Yaga e A grande porta de Kiev, expressivas, em tom exótico, eslavo, surgiram comedidas, escapando à exibição orquestral triunfalista, tão frequente.

Nos bis, Gergiev ofereceu – era esperado – duas obras de Johann Strauss II: a Valsa do Imperador, cuja orquestração é admirável, e a polca Sob trovões e relâmpagos. Mais uma vez, abandono melancólico, por trás do brilho e da alegria.

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Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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