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Theatro São Pedro apresenta "Adriana Lecouvreur", de Cilea (13/4/2016)
Por Jorge Coli

Busquei os retratos dos protagonistas, na vida real, que inspiraram a ópera Adriana Lecouvreur, de Cilea. Eles têm, todos, o physique du role! Há um de Adriana, pintado por Jean-Baptiste van Loo, que está no castelo de Versailles. A grande diva, atriz preferida de Voltaire, em trajes de cena, ergue os olhos, enormes e, sem nenhum trejeito, sugere inquietação interna. O rosto entre dois grandes brincos de pérolas, é fino, delicado e espiritual.
 
Maurício da Saxônia, nobre da mais alta estirpe, para quem Luís XV encomendou ao escultor Pigalle uma monumental encenação em mármore para servir de túmulo, é muito bonito nos dois pastéis que La Tour fez dele: madurão, de olhos verdes, brinquinho na orelha esquerda, jeito cansado do farrista que ele era.

A duquesa de Bouillon, pintada por Nattier, é bonita, tem o nariz pontiagudo e o olhar de intrigante. Seu marido, muito mais velho do que ela, era gordo, careca, de expressão irônica, como Colson o figurou.

As obras de ficção que incluem personagens reais, quando elas são boas, me fazem querer que eles sejam, na vida real, como na imaginária. Os personagens figurados nos retratos bem que poderiam cantar, como o fazem na ópera de Cilea, que o Theatro São Pedro teve a excelente ideia de montar.

Adriana Lecouvreur, a ópera, é um forte e convincente melodrama. Sua música forma um tecido que envolve; é plástica em relação às palavras – o que permite a passagem da fala ao canto, conduzida de modo magistral em dois momentos; é fina, com sutil dosagem tímbrica e um admirável lirismo. Demonstra que classificações gerais, como verismo, na qual o compositor é por vezes inserido, raramente se justifica.

No São Pedro, ela foi comovente e verdadeira. Os cenários de Renato Theobaldo e Beto Rolnik, associados à iluminação de Fábio Retti e aos figurinos de Fábio Retti, tão lindos, formaram a prova que, com pouco, pode-se atingir força teatral com beleza e poesia.

A concepção da montagem, por André Heller-Lopes, permitiu, sobretudo nos terceiro e quarto atos, que o drama florescesse. Seu “conceito” foi o de associar a heroína, e situações em que se envolve, ao mundo da televisão e da people press. É uma ideia – como tantas que ocorrem na ópera hoje - simples e demonstrativa: a frivolidade de nosso mundo, cheio de sensações vulgares e superficiais, contrastando com a paixão verdadeira de Lecouvreur, tanto por Maurício e quanto pelo teatro. Não importa: o essencial é que a encenação funcionou. O terceiro ato foi particularmente eficaz.

Daniella Carvalho se inscreve na bela tradição de sopranos com vozes amplas e calorosas, como tantas que enfrentaram o papel. Pouco a pouco foi interiorizando o personagem e ofereceu um magnífico final. Eric Herrero é um tenor de timbre claro e sedutor, com progressos em cada apresentação; Denise de Freitas, poderosíssima e assustadora como a princesa de Bouillon, impôs-se imediatamente com autoridade vocal e dramática. Johnny França foi um ótimo Michonnet (apesar da aparência tão jovem e não disfarçada). Em suma, todos excelentes, jovens,  e entusiastas. Orquestra do São Pedro cada vez melhor, Luiz Fernando Malheiro fazendo cintilar os timbres (que maravilhoso intermezzo!)

Definitivamente, Cilea é um compositor a ser redescoberto. Adriana Lecouvreur é a mais conhecida, com o lirismo de suas árias e duetos. Sua L’arlesiana é também uma obra expressiva. E tenho no meu coração outro de seus títulos, por infelicidade pouco representado, mas soberbo: Gloria.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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