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Terras sem Sombra (27/4/2016)
Por Camila Frésca

Há uma conhecida moda do cancioneiro popular alentejano que diz: “Alentejo não tem sombra / senão a que vem do céu. / Sente-se aqui, menina, / à sombra do meu chapéu.” Estes versos inspiraram o nome e a concepção do festival Terras sem Sombra, criado em 2003 e que acontece anualmente em Beja, na região do Alentejo. “O Festival Terras sem Sombra é uma iniciativa da sociedade civil que visa tornar acessíveis, a um público alargado, as igrejas da Diocese de Beja, como locais privilegiados – pela história, pela arte, pela acústica – para a fruição da música sacra”, explica o diretor-geral do evento, José António Falcão.

Mas o Terras sem Sombra vai além de um festival de música e incorpora outras vertentes: uma delas é a conservação e divulgação do rico patrimônio histórico da região, representado pelas igrejas que abrigam os concertos. Uma segunda vertente nasceu mais recentemente. José António Falcão explica que, em 2011, já bem estabelecida a ligação entre música e patrimônio histórico, pareceu oportuno considerar uma causa importante que pudesse ser apadrinhada pelo Terras sem Sombra. “Como as igrejas e os seus adros continuam a ser, tanto no meio rural como no meio urbano, espaços privilegiados para a vida selvagem, e, no que diz respeito ao âmbito rural, muitas delas se integram em zonas protegidas do ponto de vista da biodiversidade, consideramos essencial dar um contributo para a salvaguarda do patrimônio natural do Alentejo. Apostamos sobretudo na sensibilização para a defesa de sítios e espécies sensíveis, de modo a que sejam as próprias comunidades locais a defenderem, na primeira linha de batalha, aquilo de que são depositárias”. Assim, a partir de um protocolo de cooperação com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, o Terras sem Sombra promove, no dia seguinte a cada concerto, ações-piloto para a salvaguarda da biodiversidade. “Entre a música e a natureza há extraordinárias e sistemáticas afinidades. Ora, a intervenção de artistas e opinion makers – os demiurgos dos nossos dias – em iniciativas concretas para a salvaguarda da natureza permite lançar um alerta generalizado, pois são vozes muitos escutadas. Mais: pode ter um impacto decisivo na sobrevivência de algumas espécies ameaçadas. São pequenos passos, como estes, que podem fazer a diferença. O segredo é não cruzar os braços”, diz Falcão.

Brasil-Portugal: torna viagem

Nesta edição, o Terras sem Sombra estabeleceu o conceito de “país convidado”, e o primeiro a sê-lo é o Brasil, que comparece no tema “Torna-Viagem. O Brasil, a África e a Europa (Da Idade Média ao Século XXI)”. “Muitas das ideias, das manifestações culturais e até das tradições que viajaram de Portugal para o Brasil regressaram ate nós, já transformadas e profundamente enriquecidas, não só pelos contributos das nações ameríndias e da extraordinária herança africana, mas também pela gênese da própria identidade brasileira”, explica Falcão. “Ocorreu aqui um notável diálogo entre o próprio e o alheio, entre o que foi e o que veio, como o demonstra um dos raríssimos exemplos da arquitetura de influência brasileira no Portugal da segunda metade do século XVIII, a igreja de Nossa Senhora da Assunção, de Messejana, um santuário transplantado dos trópicos para o coração do Alentejo. Foi ele que nos deu o fio condutor para a programação deste ano”, completa.

A partir daí, Juan Ángel Vella Del Campo, conhecido crítico de música do jornal espanhol El País e diretor artístico do festival, selecionou duas atrações brasileiras, que têm lugar em maio. No dia 7, na Igreja de Santa Maria, o Quaternaglia apresenta o recital “Anjos ou demônios? Novas tendências da música brasileira”. Já no dia 21, Onheama, ópera infanto-juvenil de João Guilherme Ripper, será apresentada no Teatro Municipal de Serpa com artistas do Teatro Nacional São Carlos, de Lisboa, e direção cênica do argentino Claudio Hochman. Marcelo de Jesus, que já dirigiu a ópera em Manaus, será o regente convidado da Orquestra Sinfônica Portuguesa. “Onheama traz a mensagem da preservação ambiental, assunto que está no centro as atenções do mundo e é um dos focos do Terras sem Sombra”, diz Ripper.

Ópera Onheama, de Ripper, é uma das atrações do festival [divulgação / Milena di Castro]

Sidney Molina, criador e integrante do Quaternaglia, explica que será a primeira apresentação na Europa de algumas obras do CD “Xangô”, lançado no Brasil e nos Estados Unidos em 2015. “Temos muita curiosidade em saber como essas novas obras serão recebidas. Como o Festival dialoga diretamente com a música sacra – nosso recital será, inclusive, em uma igreja histórica do Alentejo português – pensamos em um eixo de repertório que flertasse com aspectos da religiosidade brasileira, sejam de origem africana, como nas Variações Xangô, de Almeida Prado, ou indígena, como em Um anjo, de Egberto Gismonti, escrita originalmente para o filme Quarup”.

Quaternaglia apresentará o recital “Anjos ou demônios?” [divulgação]

Sejam portugueses, sejam brasileiros, todos os envolvidos nos concertos concordam que a parceria Brasil-Portugal no âmbito musical é em geral bastante tímida. “Em mais de 20 anos de carreira será apenas a segunda viagem do Quaternaglia a Portugal – como comparação, foram mais de dez turnês para os Estados Unidos nesse período”, afirma Sidney. “É pouco ainda, dada a proximidade cultural e o potencial de trocas musicais que poderíamos fazer, e não incluo só a experiência do Quaternaglia nesse diagnóstico. Em tempos como os que vivemos hoje, trocas e intercâmbios artísticos são absolutamente vitais para apontar caminhos criativos para o futuro.” O compositor João Guilherme Ripper faz coro: “Pela facilidade do idioma e similaridades culturais, há um imenso potencial de colaboração entre Portugal e Brasil, que, hoje, é restrito a iniciativas isoladas, quase sempre ligadas aos intercâmbios universitários. No campo da ópera, infelizmente, a colaboração é praticamente nula e creio que Onheama é a primeira ópera contemporânea a ser apresentada em Portugal nos últimos anos”.

A edição 2016 do Festival Terras sem Sombras teve início no final de fevereiro e segue até julho. [Clique aqui para conferir a programação completa.]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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